SÃO PAULO - Sem o apoio do PSDB ao governo, o presidente Michel Temer perderia qualquer condição política de permanência no cargo. A avaliação é de cientistas políticos ouvidos ontem pelo GLOBO sobre a crise que coloca em dúvida o futuro do peemedebista no comando do país. Para eles, é apenas questão de tempo um anúncio de saída pelos tucanos.
Cientista político do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), Carlos Melo diz que o PSDB é hoje para Temer o que o PMDB foi para o governo da ex-presidente Dilma Rousseff às vésperas do impeachment.
— Chega a ser uma ironia. O Temer enfrenta o mesmo problema da Dilma. O PSDB está para o governo Temer como o PMDB esteve para a gestão Dilma. Quando o PMDB saiu do governo todos viram o esvaziamento da base da Dilma. Uma saída do PSDB implicaria um sinal muito ruim de governabilidade. O governo ficaria sujeito aos humores de uma outra maioria, que não é mais a dele — avaliou.
Cientista político da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, Marco Antonio Teixeira foi além:
— Se o PSDB abandonar o barco, Temer não tem mais nenhuma condição de articular qualquer sobrevida para o governo no Congresso. A condição política dele desaparece. Além disso, ele perderia o seu principal ponto de apoio junto ao mercado. A voz do PSDB dentro do Congresso é a voz do mercado. O mercado só vem segurando o Temer por conta das reformas — disse.
Até porque também está numa situação fragilizada por conta das denúncias contra o senador Aécio Neves (PSDB-MG), afastado na semana passada do comando do partido e do Senado, a vida útil do PSDB no governo, na opinião dos especialistas, poderá chegar ao fim nos próximos dias.
— O PSDB está pressionado até o pescoço para essa decisão e não vai poder tardar muito a tomá-la — afirmou Teixeira.
— O PSDB, independentemente do Temer, está muito machucado por causa da situação do Aécio. Isso tende a fazer o partido se voltar para ele mesmo para tentar encontrar sua identidade de novo — disse Melo.
Ambos concordam que os pronunciamentos feitos por Temer ajudaram a dar sobrevida a ele. Mas foram enfáticos em dizer que ele ainda deve esclarecimentos ao país sobre as denúncias.
— Ele desqualifica o mensageiro, mas não desqualifica a mensagem. Politicamente o estrago está feito. Se ele não conseguir se explicar nos próximos dias, é insustentável a permanência dele — afirmou o professor do Insper.
Teixeira não acredita que Temer conseguirá dar uma versão convincente dos fatos.
— Talvez o que possa dar sobrevida ao Temer, e isso daria alguma capacidade política a ele, é se ficar provado que o áudio teve adulterações. É nisso que ele está se apegando.
Os especialistas são pessimistas quanto a um gesto do Congresso nos próximos dias para ajudar o presidente a mostrar que a governabilidade não está perdida, retomando a discussão das reformas.
— Acho que os parlamentares vão esperar o julgamento da chapa Dilma-Temer pelo TSE. O Congresso é absolutamente utilitário. Se já estava difícil conquistar votos, agora é mais difícil ainda com a perspectiva de poder abalada do grupo que está no poder — avalia Melo.
Para eles, uma eleição direta, no caso de uma saída de Temer, é inviável e pouco provável.

