Há uma curiosidade na história política brasileira que talvez Flávio Bolsonaro ainda não tenha considerado. Em 2020, aos 39 anos, já era senador da República, bacharel em Direito e preenchia o requisito constitucional de idade para integrar o Supremo Tribunal Federal. Naquele ano, seu pai, Jair Bolsonaro, tinha uma vaga à disposição na Corte. Preferiu indicar Kassio Nunes Marques.
É verdade que a Constituição também exige notável saber jurídico e reputação ilibada, requisitos que não decorrem automaticamente da formação acadêmica ou do mandato parlamentar.
A indicação do próprio filho, ademais, suscitaria delicadas questões constitucionais. Mas, admitida a hipótese de sua nomeação e aprovação pelo Senado, Flávio poderia hoje ocupar uma cadeira no tribunal que acusa de persegui-lo.
A ironia aumenta quando se observa que Kassio Nunes Marques, escolhido por Jair Bolsonaro, presidiu o Tribunal Superior Eleitoral, proclamou a vitória de Lula e reafirmou publicamente a legitimidade das eleições.
Enquanto isso, Flávio, derrotado nas urnas, deixou o Brasil e passou a contestar do exterior o resultado reconhecido pela Justiça
Mais de três décadas depois da redemocratização, o país assistiu à condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Agora, seu filho apresenta-se como perseguido pelas instituições que o próprio pai ajudou a compor. O paradoxo é singular: o presidente que podia escolher ministros do Supremo acabou condenado pela Corte, enquanto o filho, que poderia hipoteticamente ter integrado o tribunal, denuncia sua atuação.
Naturalmente, a condição de ministro não significaria imunidade a investigações ou processos. Ainda assim, no terreno da ironia política, a conclusão se impõe: se Flávio Bolsonaro lamenta hoje sua relação com o Supremo, talvez devesse começar suas reclamações em família. Afinal, quando teve a oportunidade de indicá-lo, o pai preferiu outro.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.
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