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Sobre o monstro que matou Jennifer

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Por Coluna do Holanda
31/08/2022 00h29 — em Coluna do Holanda

Jennifer saia do banheiro quando foi atacada pelo homem que ela amava e respeitava. O chamava de pai. Mas foi repentinamente agarrada, estrangulada, jogada no chão e esfaqueada nove vezes.  O sangue brotou do corpo frágil de Jennifer e cobriu o chão do pequeno casebre no Beco da Paz, bairro Santa Inês, em Manaus. Tudo o que era sonho, esperança de futuro, crença na família, desaparecia ali. Por um momento Jennifer deve ter ficado ao mesmo tempo surpresa e aterrorizada. Alguns por quês em meio a dor se perderam no silêncio daquela noite trágica,  e só agora foram respondidos.

O criminoso estava  possesso e disposto a vingar o que ele chamou de traição da mãe de Jennifer, que saiu de casa para viver com outro homem. A ideia do criminoso era que, ferir Jennifer era ferir a mulher que o abandonara.

O que levou o criminoso a pensar que, em assim agindo, estava vingando uma traição? Que ferir a filha, matá-la, também feria e matava de certa forma a companheira que o abandonara ?

A resposta está nos sentimentos pequenos que alimentamos, na raiva que não controlamos, nas tragédias das quais somos protagonistas em níveis diferentes. mas ainda assim perversas e criminosas.

Como por exemplo  quando atacamos  filhos, filhas e mulheres de desafetos para feri-los;  quando nos interessamos mais pela coisa alheia do que pelas coisas que a vida oferece de melhor. Quando um escândalo  criado, forjado na mentira para destruir reputações, encontra em nós disseminadores de um ódio que não é nosso, mas ainda assim compartilhamos. Quando ridicularizamos terceiros por conta de uma traição que, convenhamos, deve doer e o ódio vem das brincadeiras, das chacotas, do estimulo à vingança.

Há loucura em todo lugar e há monstros dentro de nós com os quais travamos lutas diárias.  Vencer a nós mesmos é contribuir para uma sociedade melhor. 

O que aconteceu com Carlos Alberto Soares foi que o monstro que havia nele venceu, muito provavelmente estimulado por terceiros ao falarem, em tom de deboche, da desilusão amorosa que sofreu.

Se não aprendemos a vencer nossos próprios demônios, vamos terminar em armadilhas das quais não há saída.

 

PARA ENTENDER , LEIA A MATÉRIA ABAIXO SOBRE O CASO

Vítima : Jennifer Vitória Magno Soares

Padrasto : Carlos Alberto Soares

Mãe da vitima: Alessandra Magno

A adolescente Jennifer Vitória Magno Soares, 15, foi encontrada morta na manhã do dia 1 de agosto, dentro de uma residência no Beco da Paz, localizada na Comunidade Santa Inês, bairro Jorge Teixeira, na zona Leste. 

Jennifer estava na casa do padrasto, Carlos Alberto Soares, de 36 anos, que é considerado o principal suspeito do crime. O homem estava separado da mãe da adolescente há cerca de dois meses, mas como ele havia a criado e registrado desde os 4 anos, ela o considerava como pai e costumava visitá-lo aos fins de semana.

A adolescente foi morta com 9 facadas no pescoço e estava seminua (apenas com blusa) na cena do crime, o casebre onde Jennifer já tinha morado junto com a mãe e o homem.

 A mãe da adolescente, Alessandra Magno disse que recebeu ameaças do ex-marido por meio de mensagens. Segundo a polícia, na conversa o homem culpava a mulher por tê-la deixado e dizia que “ela ia se arrepender do que fez”. A mãe de Jennifer acredita que ela foi assassinada pelo homem porque ele viu uma foto dela com o novo namorado em uma rede social. “O suposto autor confirmou para a mãe da vítima que ela era culpada pela tragédia, porque era um casal recém-separado, tinha em torno de 2 meses que eles se separaram e talvez ele tenha feito isso por vingança”, disse o delegado do 14° DIP, Cristiano Castilho.

No dia 2 de agosto, enquanto velava o corpo da filha, a mãe da vítima (Alessandra Magno), recebeu uma ligação do suspeito do crime, Carlos Alberto Paula Soares, 36, que exigia um encontro com ela.

Durante a conversa, o homem teria informado que está na casa da avó no bairro Jorge Teixeira, na zona Leste, e avisou que vai se entregar à polícia. Ao telefone, Carlos disse que a Jennifer revelou que a mulher o traiu e que por isso, ele matou a filha. O homem tentou negociar a rendição e garantiu que se entregaria caso ela falasse com ele, mas a mulher recusou. Os parentes se revoltaram com a ousadia e acionaram a polícia.

Na segunda-feira, dia 29, Carlos Alberto Soares  foi preso no bairro Coroado, na zona Leste de Manaus. A  delegada Marília Campelo, responsável pela prisão, afirma que o homem contou com frieza em depoimento como matou enteada. “Ele não demonstrou nenhum arrependimento. Ele fala que primeiro estrangulou a vítima com as duas mãos no pescoço, pegou ela pelo pescoço, jogou ela no chão. Ela tentava se soltar e depois que ela estava desacordada, ele desferiu 12 golpes de faca no pescoço dela”, diz a delegada. Em seu relato, o acusado disse que atacou a menina quando ela tinha acabado de sair do banheiro e por isso ela estava seminua e garante que não houve abuso sexual.

Já em conversa com a imprensa, Carlos confessou   ter assassinado a própria enteada para se vingar da ex-esposa por ela estar em um novo relacionamento. Na saída da delegacia para fazer o exame de corpo de delito, o homem pediu perdão à família da garota e classificou o crime bárbaro como “um momento de fraqueza”. “Foi um momento de fraqueza. Eu quero pedir perdão da família, eu não sou o primeiro a errar, mas eu estou muito arrependido desde o dia em que aconteceu isso aí. Eu só vivo chorando, eu não posso trazer minha filha de volta e eu não tenho nada para falar mal dela”, disse.

Carlos disse ainda que o crime teve relação direta com o novo relacionamento da ex-companheira: “Foi ciúme porque ela postou a foto de um rapaz que ela está recente”.

Nesta terça-feira (30), A polícia revelou) que Carlos Alberto Paula Soares, 36, o padrasto suspeito de assassinar a própria enteada a facadas no dia 1° de agosto, estava vivendo como mendigo em uma mata no bairro Coroado, na zona leste. Segundo o delegado Ricardo Cunha, Carlos passou 29 dias desaparecido, desde o dia do feminicídio. Nesse tempo, ele cortou o cabelo, passou a usar roupas velhas e se disfarçar de morador de rua a fim de não ser reconhecido pela população. A delegada Marília Campelo explica que Carlos passava a maior parte do tempo na mata e saia apenas para buscar alimentos e carregar o aparelho celular com o qual ele se comunicava com a ex-esposa, a mãe de Jennifer.

Nos dias em que esteve em fuga, Carlos fez inúmeras ligações para a ex-companheira e chegou a dizer que estava indo para o bairro Compensa para matar os pais dela.

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Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

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