O número de sequelados em acidentes de moto vem crescendo num ritmo preocupante. Em Manaus estima-se em 7 mil nos últimos 8 anos. Um exército de homens e mulheres que perderam um dos membros ou ainda são submetidos a longas sessões de fisioterapia em uma tentativa de recuperar os movimentos. “Morrer é o menos” - diz Agenor Pimenta - que perdeu os dois braços quando sua moto bateu na traseira de um caminhão há dois anos.
Ele diz que vivia bem e feliz, mas quando o acidente ocorreu, tudo mudou: a mulher foi embora e os filhos foram com ela. Hoje vive na casa de um irmão esperando os dias passarem.”E não passam com a rapidez que eu queria. É como se eu vivesse um pesadelo”.
Agenor não gosta de falar do passado, dos amigos que desapareceram e da família que perdeu. Mas se trai ao falar do falso amor, daquele sentimento que desbota diante da primeira tempestade. “Ela vivia repetindo: te amo. Quando eu saia ela me beijava. Era o melhor dos mundos. Eu gostava daquilo, me sentia importante.”. Seus olhos começam a ficar molhados e mudo de assunto.
Pergunto sobre a aposentadoria, o seguro pelo acidente e falo das possibilidades que ainda tem, mas ele me interrompe dizendo que não há futuro, mostrando seus braços amputados. E diz coisas que eu não estava preparado para ouvir: “você já se imaginou comendo como um animal? Ou dependendo de outra pessoa para colocar uma colher na sua boca?
Agenor é apenas um dos 8 mil sequelados em acidentes por moto, mas outros 12 mil ainda conseguem minimizar os efeitos de acidentes, colocando um parafuso no antebraço ou uma placa na perna, para corrigir fraturas. Mesmo assim são homens que ficarão com limitações. E esse número só aumenta.
Mais de dois mil acidentes envolvendo motos ocorrem a cada seis meses, superlotando as unidades de pronto atendimento. É um problema sério e de difícil solução.
A nossa guerra está no trânsito, que mata e mutila. E a moto, que é o sonho das famílias mais pobres, acaba sempre se transformando num grande pesadelo.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

Aviso