Werner Herzog mostra aluguel de pessoas em 'Uma História de Família'

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

27/10/2021 13h37 — em Arte e Cultura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Desde seus primeiros filmes, Werner Herzog se deixa fascinar por um mundo que lhe parece sempre estranho. Ele pode estar na Alemanha ou na América do Sul, nos Estados Unidos, na Rússia ou na África. Isso vale para a ficção ou para os documentários que faz e nos quais pode eventualmente correr.

Mesmo nos objetos mais cotidianos de nossa vida (como a informática) encontra e traz até o espectador o insólito. E insólito é a palavra que melhor pode definir sua recente incursão à cultura japonesa, "Uma História de Famíllia", que estreia nesta quinta-feira.

Logo no início assistimos ao encontro entre a jovem Mahiro, de 12 anos, e Ishii, o pai que, na prática, nunca conheceu. Durante a conversa ele explica à jovem que hoje tem outra família, mas que ela é sua primogênita, muito querida et cetera. A cena, como outras envolvendo a garota, é acompanhada por uma música tolamente melosa.

Na verdade, Ishii representa a Family Romance, empresa especializada em fornecer familiares substitutos para ocasiões determinadas. Por exemplo, um rapaz fará o papel de noivo num casamento em que o noivo não poderá comparecer.

Mas há outras circunstâncias. Um substituto pode receber uma humilhante advertência no lugar do funcionário que errou ao soltar um trem-bala alguns segundos antes do momento certo. Também pode juntar uma penca de supostos paparazzi para fotografar uma candidata a "celebridade" numa rua movimentada.

Mas o essencial de sua empreitada se volta mesmo para Mahiro e sua solitária mãe. Profissional exemplar, Ishii acompanha o desenvolvimento da menina, se torna mesmo seu confidente. Existe entre a filha e o suposto pai uma real aproximação, o que leva a mãe a admirar e reconhecer o trabalho do profissional.

Enquanto isso, Ishii se dedica a outros trabalhos, mais passageiros. Mas não é apenas trabalho o que o leva a uma empresa que produz robôs atendentes de hotel. Esta não é uma tecnologia já perfeitamente desenvolvida, embora os robôs sejam capazes de substituir muito bem os recepcionistas de hotel.

Em todo caso, se trata de tecnologia estranha e promissora o bastante para despertar a atenção de Ishii e de Herzog. De Ishii porque ele é, como os robôs, substituto de alguma coisa. E de Herzog porque esse mundo de duplos mecânicos o fascina e aterroriza. Não será por acaso que Ishii se debruça sobre o aquário de robôs-peixes por vários segundos. Ele sabe que é isso, algo que não é um peixe, mas se parece com isso, que não é um pai, mas se parece com isso.

Eis o ponto -um mundo de simulacros que representam algo que um dia foi verdadeiro. Um pai, uma recepcionista, mas deixou de ser. Tudo se tornou um ente robótico, como robóticos podem ser os peixes, enquanto destruímos os verdadeiros. Enfim, se existe uma série de profissionais que simulam desempenhar certos papéis --atendentes de marketing telefônico, por exemplo, são praticamente robotizados--, por que não imaginar um mundo futuro ocupado por esses inquietantes duplos produzidos pela informática?

Não é por acaso que Ishii perguntará ao representante da empresa de robôs se eles têm sonhos, como nós. E o homem responderá apenas que é impossível saber.

Uma resposta inquietante, como inquietante será o final, em que toda a vida de Ishii parece se dobrar sobre ele como uma onda. Pois aqui tudo se duplica, produz realidade, como o artista ao pintar um quadro ou gravar um filme.

"Uma História de Família" estaria ainda mais à altura das preocupações de Werner Herzog se ele tivesse uma produção um pouco maior. Aqui ele foi, além de diretor, roteirista, fotógrafo e operador de câmera, de onde resulta uma fotografia por vezes decepcionante --como no início da era digital-- e movimentos de câmera na mão também imprecisos.

Se isso (assim como a música) produz por vezes a impressão de trivialidade num filme, no fim, nada trivial, o melhor é desfrutar das ideias do inquieto cineasta alemão e relevar os problemas -assim são as produções hoje, quando não se dedicam aos personagens da Marvel.

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UMA HISTÓRIA DE FAMÍLIA

Quando Estreia nesta quinta (28)

Onde Nos cinemas

Classificação 12 anos

Elenco Yuichi Ishii e Mahiro Tamimoto

Produção EUA, 2019

Direção Werner Herzog

Avaliação: Bom


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