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Thalita Rebouças lança livro gay sobre jovem drag queen com apoio de Lulu Santos

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

26/06/2022 10h03 — em
Arte e Cultura



SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Não foi à toa que Thalita Rebouças ganhou o apelido de "Rainha da Bienal do Livro". Hoje com 47 anos, 22 dedicados à literatura, a escritora esculpiu sua carreira no evento a partir do instante em que decidiu subir numa cadeira e distribuir pirulitos para chamar a atenção dos adolescentes e vender uma dúzia de livros. Não tinha vergonha. Faria o que fosse preciso para conquistar espaço entre sucessos como "Harry Potter", que chegava ao Brasil naquele mesmo 2000 em que ela lançou o primeiro de seus quase 30 romances.

A estratégia parece ter funcionado. Com 2,3 milhões de livros vendidos no país e outros tantos milhares no exterior, Thalita também trabalha com televisão, onde apresenta o "The Voice Kids", e com cinema e streaming, para os quais prepara dez adaptações de histórias suas, que devem se juntar às outras cinco já lançadas.

Dinheiro à parte -o cinema, afinal, paga mais contas do que a literatura-, são os livros, diz ela, sua verdadeira paixão. Após escrever tantas tramas com conflitos costumeiramente associados às meninas, que compõem 80% de seu leitorado, Thalita está preocupada com diversidade e representatividade.

Os oito volumes de sua série de maior sucesso, "Fala Sério", da Rocco, tiveram trechos alterados para serem relançados a partir de agosto. Eventos que os personagens diziam ser "programa de índio", por exemplo, viraram "uma furada", e diálogos em que uma mãe recebia elogios por ser especialista em futebol, "um feito e tanto para uma mulher", foram cortados.

Alguns elementos, porém, Thalita preferiu manter como o original, motivo pelo qual escreveu uma carta para os leitores para explicar, entre outros aspectos da obra, por que a protagonista de "Fala Sério, Mãe", papel de Ingrid Guimarães nas telas, é gordofóbica.

"Quando comecei, não existiam leitores sensíveis", diz a autora, apresentando os profissionais que a editora contratou para avaliar se suas histórias reforçam algum preconceito.

"Não posso limar tudo que é politicamente incorreto ou que pode ser mal visto. Quero que o leitor entenda o que mudou em 22 anos. Arte não é para fazer pensar?"

Seu próximo passo é em direção à comunidade LGBTQIA+. "A alma do jovem, tão intenso e ansioso, não mudou. O que mudou é que hoje falamos de assuntos sobre os quais não se falava antes, como feminismo e racismo. Ao mesmo tempo, os adolescentes estão cada vez mais reprimidos, principalmente em relação à sexualidade", diz.

Na Bienal do Livro de São Paulo, que abre no sábado (2), no Expo Center Norte, a autora lança uma história protagonizada por um jovem de 19 anos que acaba de se matricular na universidade, mas descobre sua verdadeira vocação profissional num curso de maquiagem e decide criar um programa de entrevistas que apresenta montado de drag queen --uma mistura de Pedro Bial com Fernando Torquatto, diz Thalita.

O livro, batizado de "Confissões de um Garoto Talentoso, Purpurinado e (Intimamente) Discriminado", chega às livrarias pela Arqueiro na próxima semana, arrematando uma série de quatro volumes com 150 mil exemplares vendidos.

Atravessado pela homofobia desde criança, sobretudo a de seu pai, que o abandonou, Zeca já sofreu muito e tem até ideações suicidas. Já nas primeiras páginas, contudo, o personagem embarca na trajetória de superação na qual o romance é centrado, uma escolha que Thalita diz ter feito para que a história seja um refúgio para os seus leitores.

O livro foi inspirado por Davi Tucci, de 14 anos, filho de uma amiga sua, a artista plástica Rafa Moon. Por volta dos dez anos, Davi pediu à mãe para fazer um curso de maquiagem e começou a se montar de drag queen, inspirado por figuras como Pabllo Vittar.

A trajetória de superação é a mesma proposta de "Natali e Sua Vontade Idiota de Agradar Todo Mundo", previsto para agosto pela Rocco. O romance é protagonizado por uma garota de 15 anos que aproveita o Natal, que também é seu aniversário, para revelar à família que é lésbica.

É uma estratégia que Lulu Santos, que conheceu a autora nos bastidores do "The Voice", defende no prefácio que escreveu para o primeiro livro, ao relembrar como discos de David Bowie e filmes como "Apenas uma Mulher" foram essenciais para que ele aceitasse sua homossexualidade, revelada ao público em 2018, já com 65 anos.

"Diferentemente do Zeca, que teme a reação a seu talk-show, eu temia a vida, a escola, a família, o mundo e suas consequências, e quase sucumbi no processo", escreveu. "Se eu mesmo, na adolescência, tivesse tido a chance de ler este livro, muito sofrimento poderia ter sido poupado"

Esses livros são também, diz Thalita, uma oportunidade de conversar com os pais dos leitores. Para isso, ela também fez a coletânea "Ouvindo Conversa Alheia e Outras Crônicas de uma Vida Atolada" e "Crônicas Rimadas", em que escreveu, por rimas, "sobre temas como menopausa ou ser solteira aos 40 anos e se apaixonar por um vibrador".

Os dois livros, ainda sem previsão de lançamento, virão na esteira de "Falando Sério sobre a Adolescência", da Companhia das Letras, composto por conversas que ela teve na quarentena com seu marido, o psicólogo Renato Caminha, especializado em crianças e adolescentes, sobre temas que vão de amor à automutilação e de sexo ao suicídio, em ordem alfabética.

"Em anos escrevendo sobre adolescência, parece que estudei psicologia. Agora, é hora de retribuir aos pais", diz. "Recebo depoimentos não só de adolescentes, mas de pais e mães que dizem que mudaram comportamentos depois de lerem meus livros. São pais que eram homofóbicos e não sabiam, mães que, preocupadas demais com a balança, estavam sendo gordofóbicas e atormentando as filhas."

Pioneira na publicação de livros juvenis protagonizados por LGBTs, Ana Lima, editora com 20 anos de experiência, afirma que, embora essas histórias estejam dominando as listas de livros mais vendidos, elas ainda são lidas majoritariamente por quem já faz parte da comunidade, uma bolha que Thalita, que já tem a confiança dos pais, pode furar.

"Hoje é mais fácil publicar histórias LGBTs, mas também mais difícil, porque antes não existia a patrulha que taxa esses livros como 'esquerdistas'. A gente tem um presidente que diz que preferia ter um filho morto a um filho gay, então os livros saem da editora já com uma 'tarja' e não alcançam quem deveria. É diferente quando a Thalita lança", diz.

A autora já sofreu retaliações quando "Tudo por um Pop Star", adaptação de um romance seu protagonizada por Maisa Silva, chegou aos cinemas. O filme tinha um beijo entre dois rapazes, o que gerou reclamações em grupos de mães dos quais suas amigas faziam parte. Elas diziam que iam boicotar o filme. Thalita diz que não se importa.

"Se eu fizer um leitor, um só que seja, se sentir confortável na própria pele, pode vir uma enxurrada de críticas que não ligo. Com 22 anos de carreira, isso não me afeta mais", afirma. "Meu papel na terra deve ser fazer adolescente gostar de ler. É a frase que mais escutei na vida. Num país que não tem o hábito da leitura, se eu conseguir fazer um adolescente trocar a internet por um livro, já me sinto realizada."



O Portal do Holanda foi fundado em 14 de novembro de 2005. Primeiramente com uma coluna, que levou o nome de seu fundador, o jornalista Raimundo de Holanda. Depois passou para Blog do Holanda e por último Portal do Holanda. Foi um dos primeiros sítios de internet no Estado do Amazonas. É auditado pelo IVC e ComScore.

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