RIO - Vindo de um país de tradições milenares, Tadashi Endo é mestre de uma tradição moderna, surgida no Japão como reação à Segunda Guerra: o butô, criado nos anos 1950 e cujos movimentos, lentos, concentrados, remetem aos horrores do conflito. Ativo aos 69 anos (ele completa 70 em 31 de agosto), altivo em seu desejo de tocar a alma das pessoas, o coreógrafo e bailarino japonês é a principal atração da sexta edição do festival Cena Brasil Internacional, em cartaz até 11 de junho no Centro Cultural Banco do Brasil e na Praça dos Correios.
Dos dez espetáculos selecionados pelo evento, três são de Tadashi Endo, numa espécie de celebração de sua relação de mais de uma década com o Brasil. Endo vem se apresentando no país e promovendo oficinas para grupos brasileiros há cerca de 15 anos. Desta vez, o bailarino radicado na Alemanha aproveitou a vinda ao festival para uma turnê por outras cinco cidades (Paraty, São Paulo, Campinas, Goiânia e Florianópolis), celebrando sobre o palco as sete décadas de vida.
— Para realizar o festival, ficamos atentos a tudo o que acontece na cena nacional e internacional durante o ano inteiro, e tentamos adequar as agendas de artistas e companhias às possibilidades do evento. O Tadashi era um dos nomes que já estava no nosso radar há muito tempo, e este ano surgiu a oportunidade de trazê-lo, justamente na comemoração de seus 70 anos — destaca Sérgio Saboya, idealizador e diretor do festival, que assina a curadoria com o diretor, dramaturgo e repórter do GLOBO Luiz Felipe Reis. — Como o Tadashi tem um representante no Brasil, foi possível negociar sua ida a outras cidades, que seria o ideal para todos os artistas e grupos internacionais que vêm ao festival. Muitos ficam só no Rio, enquanto poderiam viajar para vários locais, se esta rede de produtores fosse mais estruturada.
As três coreografias que ele apresentará no Rio fazem um panorama de seus mais de 40 anos de carreira: “MA”, de 1991, seu primeiro solo; “Fukushima mon amour”, de 2012; e o inédito “Maboroshi”, que estreou em janeiro deste ano na Alemanha. Em japonês, o título do solo quer dizer “seres sem forma”, e a coreografia retoma alguns de seus principais temas, como a morte e a finitude.
— “Maboroshi” é uma representação da morte, este corpo transparente, que não conseguimos ver mas cuja ideia nos causa estranhamento. Não é como um fantasma clássico, os movimentos recriam as pequenas metamorfoses que a morte traz, a sua atmosfera — detalha Endo, em entrevista por telefone, de Campinas.
O solo “Fukushima mon amour” foi criado a partir do impacto gerado pela tsunami e o acidente atômico de Fukushima, no Japão, em 2011. Para compor a trilha sonora, Endo convidou o músico brasileiro Daniel Maia.
— Já havia trabalhado com o Daniel em “Ma be Ma” ( e ele passou um mês comigo na Alemanha para desenvolver a trilha — conta o coreógrafo e bailarino, que dirige o Mamu Butoh Center, em Göttingen, na Alemanha. — Quando houve o desastre em Fukushima, quis fazer algo para ajudar, de alguma forma. Queria que fosse um alerta vindo de pessoas comuns, que não são poderosas, nem políticos, nem ricos, sobre algo que não pode ser esquecido.
Dentro da programação do Cena Brasil Internacional, Tadashi Endo apresenta “MA” nos dias 5 e 6 de junho, “Maboroshi”, nos dias 8 e 9; e “Fukushima mon amour”, em 10 e 11 de junho. O coreógrafo e bailarino também vai ministrar duas de suas concorridíssimas oficinas nos dias 8 e 9, demonstrando invejável fôlego.
— Quando penso que estou quase com 70 anos, me lembro de quando era mais jovem e como as pessoas com esta idade pareciam distantes de mim, jamais me imaginaria chegando tão longe. Na minha cabeça, permaneço como há 20 anos. Sei que o corpo, as habilidades, mudam. Não posso fazer as mesmas coisas que fazia há 20, 30 anos. Mas gosto de pensar que algo dentro de mim mantém esse vigor — observa Endo, para quem o butô, que conheceu por intermédio de um dos pais do estilo, Kazuo Ohno (1906-2010), vai muito além das performances no palco. — A partir do encontro com Kazuo, o butô me deu a chance de fazer coisas que queria fazer antes, mas não sabia como. Para mim, é muito mais que uma técnica de dança, é como a própria vida. Não quero apenas dançar, quero viver no mundo do butô.
Além de Tadashi Endo, o Cena Brasil Internacional traz atrações da Itália (“Verso la specie”, da coreógrafa e diretora Claudia Castellucci, e “La vita ferma”, da dramaturga e diretora Lucia Calamaro) e da Alemanha (“The so-called outside means nothing to me”, texto de Sibylle Berg interpretado pelo grupo The Maxim Gorki Theatre). Uma programação que mantém a proposta de intercâmbio do festival, mesmo em tempos de crise e menos recursos disponíveis para a cultura.
— É preciso entender que a crise existe e que precisamos superá-la, e só conseguiremos isso através da educação e cultura. O contato com profissionais de outros países mostra que há vários caminhos a percorrer para viabilizar as produções. Preferimos manter o festival com o tamanho que ele tem para que continue possibilitando estes encontros — acredita Sérgio Saboya.
Entre as produções brasileiras, o evento terá duas estreias nacionais ( “Mortos-vivos: processo para uma ex-conferência”, do grupo Foguetes Maravilha, e “O abacaxi”), uma estreia no Rio (“Real”, do Grupo Espanca!, de Minas Gerais) e um espetáculo em processo (“Em criação: Trajetória sexual”, solo que encerra a “trilogia da perda” de Álamo Facó). Em cartaz até sexta, “O abacaxi” abre a programação nacional e marca a estreia de Veronica Debom como dramaturga. Em cena ao lado do marido Felipe Rocha, Veronica aborda no texto questões sobre relacionamentos que contrapõem expectativas de diferentes gerações.
— A peça traz questionamentos que nós, da geração do meio, nos fazemos diante das referências de longos relacionamentos que herdamos dos nossos pais e das possibilidades encaradas com extrema naturalidade pelos mais jovens, como as formas de amor livre e a diluição da identidade de gênero. O texto traz questões pessoais e também de conflitos de vários amigos que reverberam em mim — explica Veronica, que celebra a forte presença de autoras na programação. — As questões que são discutidas aqui e em várias partes do mundo acabam ficando em evidência na produção contemporânea. Acho que nos cansamos de ouvir histórias contadas apenas por um perfil de autor, homem, hétero, branco, e começamos a dar espaço a outras vozes.

