'McCartney 3, 2, 1' é uma das melhores séries sobre o rock já feitas

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

27/09/2021 17h34 — em Arte e Cultura

FOLHAPRESS - Está aqui um dos melhores documentários já produzidos sobre o mundo do rock. Com um total de três horas de duração e gravado de uma só vez em preto e branco, mas apresentado no streaming em seis episódios, “McCartney 3, 2, 1” entrega um Paul McCartney empolgado e divertido, lembrando histórias de como algumas das melhores músicas dos Beatles e de sua carreira solo foram criadas.

O show é comandado por Rick Rubin, um produtor musical que foi copresidente da Columbia Records e que, com sua barba e barriga, parece um Papai Noel. A dupla trabalha em torno de uma mesa de som, na qual eles conseguem dissecar as canções e escutar instrumento por instrumento —numa gravação, os instrumentos são registrados separados e, depois, são mixados em uma coisa só.

Por exemplo, no fim do primeiro episódio, eles atacam “While My Guitar Gently Weeps”, composição do guitarrista George Harrison. Rubin aumenta o baixo em relação aos outros sons e a música ganha uma dimensão nunca ouvida. É a senha para McCartney lembrar como compôs aquela linha, e lembrar curiosidades de Harrison e John Lennon e Eric Clapton —que gravou o solo de guitarra nessa canção.

São inúmeras as canções lembradas, cada qual com uma história fascinante, como “Michelle” —“usei um acorde fá louco que não sei o nome”—, “Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club Band” —“um roadie me pediu no avião para eu passar o sal e a pimenta, salt and pepper, e eu entendi sergeant pepper”— e “Band on the Run” —“fomos assaltados em Lagos, na Nigéria, e levaram todas as fitas gravadas”.

Ele também fala de “All My Loving”, “Back in the USSR”, “Lucy in the Sky with Diamonds”, “Dear Prudence”, “A Day in the Life”. É uma preciosidade atrás da outra, sempre com Rubin levantando um instrumento ou abaixando todos os outros para que ouçamos detalhes que provavelmente passaram desapercebidos.

A história do trompete piccolo em “Penny Lane” é incrível, assim como a cara de McCartney atentando para uma nota que seria impossível de o instrumento alcançar. O músico aparece muito feliz, cantado junto e, às vezes, até se levantando para dançar.

Uma das características mais interessantes e conhecidas dos Beatles era o fato de eles criarem efeitos incomuns nas gravações, experimentando aparelhos, tocando bigornas, colocando gravações para tocar de trás para a frente, picotando fitas com uma tesoura e juntando de novo em ordem aleatória e por aí vai.

É claro que “McCartney 3, 2, 1” aborda esses truques de estúdio. “Nowhere Man”, por exemplo, teve a guitarra base de Lennon equalizada em diversos aparelhos sucessivamente, para ir ficando cada vez mais aguda.

Curioso saber que eles já faziam isso no início da carreira. A canção “A Hard Day’s Night”, gravada em abril de 1964, tem um solo complicado de George Harrison lá pela metade da música. Complexo principalmente porque há um trecho em que duas ou três notas se alternam de forma muito rápida.

“Para que fazer George sofrer assim?”, pergunta McCartney. “O que fizemos foi gravar o solo com a metade da velocidade normal, e depois aceleramos o trecho para caber no espaço reservado ao solo”, conta.

Mas havia um porém. Quando se acelera a velocidade de uma gravação, ela fica mais aguda. “Por isso”, continua ele, “George gravou o solo uma oitava abaixo [mais grave] e, quando aceleramos, o trecho ficou no tom certo”. “Pura matemática”, diverte-se McCartney, em mais de um momento do documentário.

“McCartney 3, 2, 1” é quase perfeito, mas não chega lá. Um problema vem das legendas. Como em milhares de filmes, quando uma canção começa, a legenda para. Quem não sabe inglês precisa ir ao Google ou vai deixar de compreender. Num filme sobre a construção musical de canções clássicas, isso é imperdoável.

Outro ponto crítico é que o produtor Rick Rubin é muito puxa-saco de McCartney. De sua boca saem apenas “genial”, “incrível”, “maravilhoso”, "fascinante” e outros adjetivos lambe-botas. Uma abordagem mais jornalística seria desejável.

Por fim, uma amiga se incomodou com o fato de que McCartney passa as três horas do programa mascando chicletes. Pode chatear alguns, mas é um preço pequeno a se pagar ao assistir a esse grande documentário.

MCCARTNEY 3, 2, 1

Avaliação Ótimo

Onde Star+

Classificação 14 anos

Produção EUA, 2021

Direção Zachary Heinzerling

*

VOCÊ SABIA QUE...

1 - Dois dias após 'Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club Band' ser lançado, Jimi Hendrix já estava tocando a canção ao vivo em show em Londres

2 - Paul McCartney nunca aprendeu a ler partituras. Ele toca de memória mesmo

3 - Roy Orbison foi o cara que ensinou aos Beatles que as músicas deveriam ter um final, e não ir diminuindo o som até acabar, para o público saber que é a hora de aplaudir

4 - 'Dear Prudence' foi feita por John Lennon na Índia para uma irmã de Mia Farrow chamada Prudence. Ela estava hospedado no mesmo ashram (templo) que os Beatles

5 - A primeira versão de 'Come Together', de John Lennon, era uma cópia descarada de 'You Can’t Catch Me', de Chuck Berry

6 - Paul McCartney aprendeu um acorde fá 'louco' com um cara que tocava jazz. Anos depois, ele o usou na harmonia de 'Michelle'

7 - As maiores influências vocais dos Beatles foram os Beach Boys e os Everly Brothers

8 - Ringo Starr era o único integrante dos Beatles que já conseguia viver de música antes de entrar na banda

9 - Os Beatles se recusaram a ir dar show nos EUA antes que tivessem uma música em primeiro lugar nas paradas americanas, o que aconteceu em 1964 com 'I Wanna Hold Your Hand'

10 - Todas as partes orquestradas nas músicas dos Beatles ficavam a cargo do produtor da banda, George Martin


O Portal do Holanda foi fundado em 14 de novembro de 2005. Primeiramente com uma coluna, que levou o nome de seu fundador, o jornalista Raimundo de Holanda. Depois passou para Blog do Holanda e por último Portal do Holanda. Foi um dos primeiros sítios de internet no Estado do Amazonas. É auditado pelo IVC e ComScore.

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