Leilão de obras de Edemar Cid Ferreira vende Miró por 30 vezes o lance inicial

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

21/09/2020 21h34 — em Arte e Cultura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Como esperado, o primeiro dia do leilão de quase 2.000 de obras de arte que pertenciam ao ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira, nesta segunda (21), teve trabalhos vendidos por valores muitas vezes maiores ao preços iniciais pedidos, que foram estabelecidos há quase 15 anos e estavam defasados.

Uma gravura do surrealista espanhol Joan Miró, por exemplo, com lance inicial de R$ 3.000, foi arrematada por R$ 88,1 mil, quase 30 vezes mais. Três litogravuras do concretista Amílcar de Castro saíram a uma média de R$ 24 mil cada uma, seis vezes mais do que o lance inicial, de R$ 800.

Este é o maior leilão já realizado pela casa paulistana James Lisboa, venda que se estende até o dia 2 de outubro, com lances dados por telefone e online. Está em liquidação a coleção de obras que estavam sob a guarda do Museu de Arte Contemporânea da USP, o MAC, em São Paulo -antes de chegarem à instituição, as peças faziam parte do acervo do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira, do banco Santos.

O objetivo do pregão é arrecadar fundos para os credores da massa falida da instituição, que deixou um rombo de mais de R$ 3 bilhões quando quebrou. O pagamento das obras é feito à vista, com o valor depositado direto na conta da massa falida, acrescido de 5% de comissão para o leiloeiro.

O acervo sendo vendido tem seu forte na área de fotografia, com cerca de mil imagens que contam a história dessa arte, desde o final do século 19 até o presente, segundo Helouise Costa, curadora de fotografia do MAC. As obras chegaram ao museu público há 15 anos, por ordem judicial, após o banco Santos, de Cid Ferreira, ter a falência decretada. A coleção do banqueiro foi apreendida e distribuída para sete museus brasileiros.

Durante o período em que ficaram sob a guarda do MAC, o museu investiu R$ 20 milhões em dinheiro público para a conservação e catalogação das obras, mas uma decisão judicial do ano passado só reverteu ao museu R$ 37 mil desse montante. A instituição pedia o ressarcimento em obras, sobretudo as que foram expostas nas 17 mostras organizadas a partir do acervo.

Na semana passada, o próprio Cid Ferreira pediu ao juiz Paulo Furtado de Oliveira, da 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da cidade de São Paulo, que cancelasse o leilão e doasse as obras ao MAC. Ele argumentou que as vendas vão esquartejar a coleção, desvalorizando o conjunto e fazendo com que as obras percam valor de mercado.

Na petição, Cid Ferreira afirma ainda que os eventuais recursos financeiros trazidos aos credores pela liquidação das obras de arte são inferiores em relação à importância da coleção, que considera "patrimônio nacional". A estimativa de arrecadação do leilão é da ordem de R$ 10 milhões, segundo Vânio Aguiar, o administrador da massa falida do banco. Ainda faltam ser ressarcidos R$ 1,2 bilhão aos credores.

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