'Lar em Chamas' tem um estilo tão imaturo quanto seus personagens

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

17/10/2021 13h03 — em Arte e Cultura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Isma, muçulmana de origem paquistanesa nascida na Inglaterra, consegue uma bolsa para estudar nos Estados Unidos. Sua mãe e avó estão mortas. Seu pai jihadista também está morto, e sua lembrança é um tabu doloroso na família.

Seus irmãos Aneeka e Parvaiz, os gêmeos que Isma criou como se fossem seus filhos, agora estão por conta própria. Aneeka continua em Londres, e Parvaiz, o que deixa as duas irmãs perplexas e furiosas, também se torna jihadista.

Em Amherst, Massachusetts, Isma conhece Eamonn, filho do Ministro do Interior britânico -um homem muçulmano que passou a vida renegando sua origem a fim de abrir espaço na política, de quem a família de Isma nunca gostou. Há algo no ar entre os dois jovens, que, no entanto, nunca chega a passar de uma possibilidade.

Ele então volta à Inglaterra, onde inicia um romance com Aneeka. Aneeka, que de início o seduziu justamente por conta do cargo que o pai de Eamonn ocupa -com a intenção de salvar a pele do irmão gêmeo-, descobre que de fato o ama.

As famílias mantêm posições e valores distintos, mas os filhos se aproximam e descobrem uma afinidade insuspeita em que um amplia e altera o modo de pensar do outro: já deu certo antes, pode dar mais uma vez, certo? Pode, mas não aqui. "Lar em Chamas" apresenta quatro narradores cuja voz varia entre o muito ruim (Isma) e o passável (Parvaiz).

As questões morais complicadas em jogo não combinam com a superficialidade com que são demarcadas e abordadas. Isso porque os flertes juvenis do início do livro dão o tom que vai continuar por várias páginas -o de um filme adolescente genérico.

A artificialidade da prosa é mais visível nos três personagens que levam vidas razoavelmente comuns: Isma, Eamonn e Aneeka. É como se o próprio estilo da autora fosse por si só uma espécie de franquia da Starbucks, onipresente e padronizada.

Quando o cenário é Amherst ou Londres, Shamsie se esmera na tentativa de criar interações repletas de diálogos pretensamente sagazes e de gestos que deveriam passar por corriqueiros -mas que não são nada além de literatura ruim, mais um pastiche de uma narrativa do que propriamente uma narrativa. Num café decorado com samambaias, Isma pode ser vista "estalando a língua contra os dentes em um protesto autopiedoso".

Shamsie tenta -e às vezes consegue- encontrar uma voz consistente para alguns dos personagens. É o caso de Parvaiz, que, ávido por uma figura paterna, carente de propósitos e de respostas, se sente acolhido pelos jihadistas que pouco a pouco o cooptam para os bastidores da luta armada na Síria. Dizer que Kamila Shamsie se inspira em Zadie Smith é dizer pouco, embora sua escrita não alcance, aqui, a mesma força que a da autora de "Dentes Brancos". A de Shamsie é por vezes tão tateante, clichê e juvenil quanto os personagens a que procura dar vida.

A parte de Parvaiz é de longe a melhor do livro, e a única responsável por salvá-lo de ser uma nulidade completa. Mas a complexidade bem elaborada é um vislumbre fugaz, e a autora parece mais à vontade com o rame-rame superficial e cheio de chavões dos outros três narradores.

A voz da personagem Antígona, aqui recriada num romance contemporâneo em quase tudo medíocre, soa incrivelmente fora do tom. A releitura parece ainda mais esganiçada e caricata quando se considera as partes anteriores, com tudo o que há nelas de lugar-comum.

Imaturidade parece, no fim das contas, a palavra ideal para definir "Lar em Chamas". É imaturo no estilo, imaturo nos caminhos óbvios que escolhe trilhar e imaturo na imprudência de apostar em uma versão mambembe de uma personagem tão bem cristalizada no imaginário da maioria dos leitores quanto Antígona.

A complexidade do tema de "Lar em Chamas" acaba diluída nas páginas constrangedoras em que o que se tem é sobretudo um romance açucarado, e em que o mais importante -a ambiguidade da posição de cada um dos personagens, que, se bem elaborada, renderia uma narrativa rica e intricada -acaba esvaziada para dar lugar a uma trama que é quase toda de consumo fácil.

Entre a sensação de estar protegido (Eamonn) ou ameaçado (Isma, Aneeka) pelo Estado, entre a decisão de seguir ou não uma tradição, entre a opção por uma suposta e ilusória lealdade filial havia -o que a trama deixa apenas entrever- uma série de possibilidades narrativas abertas. Toda gravidade se perde num mar (aí sim) profundo de prosa ruim.

LAR EM CHAMAS

Avaliação: regular

Preço: R$ 59,90 (288 págs.); R$ 42 (ebook)

Autor: Kamila Shamsie

Editora: Grua

Tradutora: Lilian Jenkino


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