Compartilhe este texto

Império das big techs vai da distopia ao ridículo como assunto de literatura quente

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

27/05/2022 16h06 — em
Arte e Cultura



SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Uma cultura inteira fora seduzida. Via minha fé cega nos rapazes ambiciosos, agressivos, arrogantes dos subúrbios benevolentes dos Estados Unidos como uma patologia pessoal, mas não era nem um pouco pessoal. Ela havia se tornado uma angústia global."

Da mesma forma que tende a acontecer com todo cataclismo cultural, a literatura voltou seus olhos para o mundo tecnológico que se abriu a partir do Vale do Silício. As lentes são variadas, indo do distópico ao satírico, e equilibram a análise de como chegamos a essa concentração de poder em megacorporações tão novas e tão pouco compreendidas com reflexões sobre aonde diabos isso está nos levando.

O relato que abre esta reportagem vem do autobiográfico "Vale da Estranheza", da americana Anna Wiener, de 34 anos. Na capa do livro, a escritora Rebecca Solnit classifica a autora como "Joan Didion numa start-up", e dá para entender o que ela quer dizer.

Ao narrar como trocou, de 2013 a 2018, um trabalho analógico no mercado editorial por empregos que quebravam as barreiras de inovação na Califórnia, Wiener mostra como se sedimentou a dominação econômica, política e, sim, cultural das big techs e quem são os homens responsáveis por tomar decisões que guiam nossas vidas desde então.

"Empresários e investidores do Vale do Silício são ótimos contadores de histórias", diz a escritora, em entrevista por telefone. "Dessa cena de start-ups, surgiu um tipo de marketing muito bom. Muitas empresas vendiam ideias e visões de mundo, e era só isso."

Para combater essas narrativas heroicas, o relato de Wiener decidiu omitir quase todos os nomes de pessoas --e absolutamente todos os nomes de marcas. Dessa forma, os personagens de "Vale da Estranheza" trabalham no "gigante dos motores de busca", alugam quartos na "plataforma de compartilhamento de casas" e têm perfis na "rede social que todo mundo odiava".

"Quis enfatizar o que há de genérico nessas empresas", aponta ela. "E focar o ambiente e as estruturas que permitiram que elas empilhassem tanto dinheiro e influência política. Se Mark Zuckerberg não tivesse existido, por exemplo, outra pessoa teria fundado o Facebook."

Essa despersonalização vale para ela mesma, que afirma que sua vida é o aspecto menos interessante do livro. A decisão de contar a história em primeira pessoa, e não como uma reportagem distanciada, foi pragmática. "Tudo naquela cultura parece um pouco ridículo. Se eu não contasse dessa forma, ninguém acreditaria. Pensariam que era sátira."

É compreensível. "Vale da Estranheza" apresenta os leitores aos donos de uma start-up de ebooks que escrevem "Hemingway" errado; a um retiro hippie de milionários que parece um simulacro da liberdade retirado de algum filme dos anos 1960; e a pessoas que querem saber umas das outras, a sério, "quais livros constituem o cerne do seu sistema operacional".

Mas nem toda literatura em torno das big techs é tão espirituosa. "Ecologia", romance da portuguesa Joana Bértholo, carrega nas tintas distópicas ao se infiltrar num mundo em que as empresas de tecnologia passam a controlar a linguagem humana. E a cobrar pelo uso de palavras.

A escritora se esforçou, como ela diz a este repórter, para que essa ideia fantasiosa soasse o mais verossímil possível, por isso aliou uma sólida base teórica a uma implementação prática que fosse lenta e gradual.

"As pessoas não acordam um dia e a linguagem se torna paga", aponta ela. "A possibilidade vai entrando no cotidiano. Primeiro, são só umas palavrinhas. Depois se começa a perceber vantagens nesse tipo de consumo. Línguas mortas são recuperadas, a comunicação humana é estudada como nunca antes. E, quando se vê, estão todos pagando por algo que sempre tiveram de graça."

O próprio romance explica isso numa boa síntese. "Quando a tecnologia estiver pronta para a transição almejada, pagar por falar já será um hábito assimilado, uma coisa natural e livre de questionamento. Então, o mais inexplicável será a linguagem ter sido gratuita durante tanto tempo."

Quase não há em "Ecologia" uma força que não seja econômica, afirma Bértholo. "Ou seja, no fundo, é o retrato da forma como nós acabamos por ceder aos mercados. E é uma contradição -como é que temos uma discussão moral acerca de uma estrutura que se apresenta como amoral?"

Nisso a escritora se diferencia de outras distopias célebres, como "1984", em que a força opressora vem do Estado. Aqui, o totalitarismo é das grandes corporações.

A ideia tem eco em outras produções recentes. Por exemplo, o premiado quadrinho "Árduo Amanhã", de Eleanor Davis, pensa um futuro não muito distante em que Zuckerberg é presidente dos Estados Unidos -e, spoiler, a coisa não é lá promissora para o ativismo político.

Tudo isso lembra uma passagem inspirada da narrativa de Anna Wiener -um relato de não ficção, vale lembrar. "Jornais de referência tinham repórteres cobrindo o gigante dos motores de busca como se fosse uma área de atuação, como um governo estrangeiro, um novo tipo de nação."

"Vale da Estranheza" não tira seu título só do trocadilho com Vale do Silício. É uma expressão consolidada no campo da estética para nomear um efeito bem particular.

"Descreve o sentimento das pessoas diante de algo que parece realista, mas não é exatamente real, como um robô humanoide", descreve Wiener, uma mulher que passou anos entre os pioneiros da meca da tecnologia. "Quanto mais realista, mais inquietante se torna. É um desconforto que parte da sensação de que as coisas não são exatamente o que parecem ser."



O Portal do Holanda foi fundado em 14 de novembro de 2005. Primeiramente com uma coluna, que levou o nome de seu fundador, o jornalista Raimundo de Holanda. Depois passou para Blog do Holanda e por último Portal do Holanda. Foi um dos primeiros sítios de internet no Estado do Amazonas. É auditado pelo IVC e ComScore.

ASSUNTOS: Arte e Cultura

+ Arte e Cultura