Detetive Espinosa de Lázaro Ramos é o oposto do Capitão Nascimento

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

22/09/2021 15h06 — em Arte e Cultura

FOLHAPRESS - O livro que introduziu no mundo literário brasileiro o delegado Espinosa, "O Silêncio da Chuva", em sua versão cinematográfica oferece ao ator Lázaro Ramos uma nova oportunidade de testar sua conhecida vocação de camaleão.

Mesmo contando com escritores consagrados no gênero policial, caso de Luiz Alfredo Garcia-Roza, o pai de Espinosa, e Rubem Fonseca, entre outros, o cinema brasileiro ainda não produz muitos filmes do tipo e, não raro, peca em sua realização, apostando numa cópia pasteurizada de seus similares americanos. Felizmente, não é o caso aqui.

O veteraníssimo diretor Daniel Filho, redimindo-se do tom pesado de "Boca de Ouro" (2020), uma infeliz adaptação de Nelson Rodrigues, entrega neste novo filme um trabalho elegante, que faz jus ao universo sofisticado do premiado Garcia-Roza, falecido em 2020.

Apostando em valores de produção impecáveis, a começar pela fotografia de Felipe Reinheimer, que estabelece desde a primeira sequência um clima de filme noir, o diretor imprime ritmo e personalidade à sua história. Ao mesmo tempo, não perde de vista um tempero tipicamente brasileiro, não só nos cenários, como no comportamento dos personagens, que não se esgota na roda de samba vista no início.

Batizado com o nome do filósofo racionalista holandês, Espinosa --papel de Ramos-- é um delegado sutil, amante dos livros e da investigação dedutiva, uma espécie de Sherlock Holmes tropical. Cabe à sua parceira, a investigadora Daia --Thalita Carauta--, a função de piadista e emissora de comentários sexuais de duplo sentido, que sacodem a fleuma do delegado e injetam, de tempos em tempos, uma energia cômica que atenua o impacto de episódios violentos, envolvendo assassinatos, tortura e até estupro.

A morte inicial, do alto executivo Ricardo Vasconcelos --Guilherme Fontes--, une as duas pontas da cidade partida do Rio de Janeiro, quando uma pasta, milhares de dólares e uma arma roubados do carro dele circulam pelo submundo.

Como toda história policial que se preze, as mulheres fatais têm seu lugar garantido e há pelo menos duas --a viúva do morto, Bia, vivida por Cláudia Abreu, e a secretária dele, Rose, papel de Mayana Neiva--, nenhuma delas sucumbindo além da medida aos clichês ambíguos de suas posições. Há humanidade em seus retratos e coerência em seus atos, sem que a narrativa resvale numa satanização vulgar de nenhuma delas, que é muito habitual no gênero mas é evitada aqui.

Personagens secundários, como o ladrão Max --Peter Brandão--, o michê Júlio --Bruno Gissoni--, o ex-policial Aurélio --Otávio Müller--, entram de tempos em tempos para virar a roda da ação, garantindo uma tensão que a montagem de Diana Vasconcellos não esmorece.

Todo o tempo, o centro de gravidade permanece em Espinosa, investigando um crime misterioso com a dedicação racional de um filósofo. Recusando o jogo bruto que filmes como "Cidade de Deus" e "Tropa de Elite" normalizaram, por tanto tempo, no cinema brasileiro. Lançado numa época em que a realidade social e política parece superar diariamente a ficção, "O Silêncio da Chuva" sintoniza uma busca de racionalidade que resiste a seus eventos mais sangrentos.

Compondo com gravidade e carisma este delegado paternal em quem todos parecem confiar -não sem razão-, Lázaro Ramos dá mais um passo para ocupar o lugar, no nosso cinema, que pertence a Denzel Washington no cinema americano. Ou seja, uma referência no meio de qualquer apocalipse, tranquilo e humano, sem a mais remota semelhança com o truculento Capitão Nascimento, imortalizado por Wagner Moura em "Tropa de Elite".

O SILÊNCIO DA CHUVA

Avaliação: Muito bom

Quando: Estreia nesta quinta (23), nos cinemas

Classificação: 16 anos

Elenco: Lázaro Ramos, Cláudia Abre e Otávio Müller

Produção: Brasil, 2020

Direção: Daniel Filho


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