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Crítica: Sem medo do panfleto, sambista passeia por gêneros como o rap e o frevo

RIO - Martinho José Ferreira — e, consequentemente, a Unidos de Vila Isabel, agremiação que lhe empresta o sobrenome — nunca escondeu suas preferências políticas e jamais deixou de misturar arte e ativismo. Produzindo muito e bem aos 80 anos, completos na avenida, no abre-alas da Vila, em fevereiro, ele canta, samba e baila por gêneros como o fado e o frevo neste “Bandeira da fé”, que não tem medo de ser panfletário nem no nome. Raça, política, religião, o vascaíno nascido em Duas Barras, no interior fluminense, em 1938, não evita temas espinhosos, unindo-os ao amor e ao lirismo de sempre.

Com seu jeito de cantar patenteado há mais de meio século, Martinho, na gravação, poderia ter 80, 60 ou 40 anos, com os “ar” dos verbos aspirados e as vogais alongadas — no que é acompanhado pela filha Mart’Nália, que aparece na bela “A tal brisa da manhã”, uma das canções “inocentes” do disco. A família Da Vila, quer dizer, Ferreira, aliás, está por todo lado: além de Tinália, Maíra Freitas, Analimar Ventapane, Dandara, Raoni, Juju, todos batem ponto.

A sonoridade é relativamente simples — diferente de muitos discos de samba recentes, até do próprio Martinho, temperados com teclados e sopros mil: o violão fica com Gabriel de Aquino; o baixo, com João Rafael. Com a base firme, brilham o cavaquinho do virtuoso Alaan Monteiro, uma espécie de Yngwie Malmsteen das quadro cordas de aço, e as percussões de Gabriel Policarpo e Bernardo Aguiar. Martinho assina a produção, variada e criativa, sem se prender a amarras estéticas e musicais.

O disco começa bem, com uma homenagem ao samba, “O rei dos carnavais” de autoria do próprio Martinho — ele assina as doze faixas, quatro com parceiros e oito sozinho. Percussão e cordas bem marcadas embalam uma letra que traça a origem do gênero, dos tumbeiros que vinham da África (“Dos batuques sou sequela”, canta ele) até homenagear nomes como Moreira da Silva e Zé Kéti. “Bandeira da fé” é outro sambaço, composto pelo cantor com Zé Katimba, outro octogenário do balacobaco. Talvez a letra mais política do disco, chama o ouvinte a resistir e sambar: “Pra reconquistar os direitos/Temos que organizar um mutirão/Derrubar os preconceitos e a lei do circo e pão/ E ao mesmo tempo cantar, sambar, amar, curtir/ Só assim tem validade, minha gente, este nosso existir”. A filosofia martinesca resumida em um samba.

Em estado mais puro, o gênero está em mais ou menos a metade do disco, apenas. Traquinas, o menino Martinho dá seus pulinhos musicais.

Das canções mais afastadas do samba tradicional, o rap “O sonho continua” traz o cantor em dueto com Rappin Hood. Com pandeiro e cavaco segurando o ritmo, a dupla bebe na escola Marcelo D2 de samba-rap (com direito a uma guitarra rock-blueseira no fim) para falar do racismo e lembrar nomes de ativistas, com firmeza e frescor musical. Ainda no tema da raça — um dos mais caros ao criador do enredo “Kizomba”, que deu à Vila seu primeiro título do carnaval carioca, em 1988, com o clássico samba-enredo de Luiz Carlos da Vila, Rodolpho e Jonas — “Zumbi dos Palmares, Zumbi” é um momento épico da coleção: uma guitarra se soma à batida arrepiante dos atabaques, com um riff hipnótico do cavaco, meio ibérico, meio celta, e a voz grave de Martinho louvando o herói dos Palmares. Talvez a melhor do disco.

Mais próxima do samba é “Baixou na avenida”, homenagem a Miguel Arraes, o Pai Arraia (olha a política aí, sempre presente!). O político pernambucano (nascido no Ceará) foi enredo da Vila em 2016, com um samba assinado por Martinho e parceiros. Não satisfeito, ele pegou outra ideia, abandonada à época, e compôs um delicioso samba-em-frevo sobre o ídolo.

Um disco com tantas faixas de peso também comporta algumas mais bobinhas, que não chegam a comprometê-lo. Mas a declaração de amor à Barra da Tijuca (“Minha nova namorada”) e as bem-intencionadas “Ser mulher” (em que a jornalista Glória Maria fala sobre os desafios e a força femininos) e “Não digo amém”, sobre a religião, não alcançam o nível das outras. Normal. Nem Martinho mantém o sarrafo à altura de si mesmo o tempo todo.

Cotação: Bom

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