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'Carro Rei' tem um Uno que fala, transa e ecoa um Brasil distópico

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

02/07/2022 13h05 — em
Arte e Cultura



FOLHAPRESS - Quando se trata da construção estética de um filme, é difícil rivalizar com o rigor de Renata Pinheiro, diretora de arte premiada por trabalhos como "Zama", de Lucrecia Martel, "Tatuagem", de Hilton Lacerda e "A Febre do Rato", de Cláudio Assis. Em "Carro Rei", vencedor de quatro prêmios em Gramado em 2021, ela acumula direção, direção de arte e coautoria do roteiro e dá um passo adiante não só na ambição visual como na escala imaginativa de uma fantasia distópica que dialoga estranhamente com a realidade antinatural do Brasil contemporâneo.

Na cidade de Caruaru, em Pernambuco, cenário da história, a diretora se apropria de elementos realistas, como as ruas em que os jumentos, como afirma um personagem, foram substituídos por motocicletas e também por automóveis, para compor uma fábula sombria em torno da estranha relação simbiótica entre homens e máquinas.

O carro é o ganha-pão da família central, proprietária da frota Carroaru Táxi. Dentro de um desses veículos, nasceu o filho do casal -interpretado por Adélio Lima e Ane Oliveira-, Uninho -papel de Alexandre Lima-, um garoto que, desde pequeno, mostra a capacidade de comunicar-se com os carros, ouvindo uma voz de suas engrenagens que parece somente ao seu alcance.

Num carro, também, morre esta mãe, desencadeando a separação do núcleo familiar, que inclui o irmão da morta, o mecânico Zé Macaco -vivido por Matheus Nachtergaele- que, por seu gestual símio, parece situar-se na fronteira entre as espécies.

Isolado num ferro-velho na periferia da cidade, Zé Macaco será redescoberto pelo sobrinho agora adulto -interpretado por Luciano Pedro Jr.-, vendo revalorizada sua perícia na reforma dos carros antigos que, por um decreto estadual, serão do dia para a noite proibidos de circular -numa metáfora tanto dos caprichos dos governos autoritários quanto da obsolescência forçada de um vicioso consumismo.

Uninho carrega em si a natureza dividida de confidente das máquinas e aluno de agroecologia, abrindo-se aqui uma vertente dissonante da mecanização que toma conta do ambiente.

Tal como uma versão debochada do computador HAL de "2001 - Uma Odisséia no Espaço", de Stanley Kubrick, o Uno Mille falante que foi palco de um nascimento e uma morte torna-se um equipamento cada vez mais envolvente e dominador.

Torna-se ainda capaz de articular um movimento de tomada de poder dos automóveis sobre os homens e até de manter uma vida amorosa com a performer Mercedes -Jules* Elting, que é uma pessoa trans não-binária-, cuja participação em sequências eróticas entre humano e máquina injeta uma beleza singular, que faltou às cenas similares vistas em "Titane", de Julia Durcournau, vencedora da Palma de Ouro em Cannes 2021.

Não será por acaso, aliás, que, nesta distopia mecânica, venham de mulheres, a própria Mercedes e também Amora -Clara Oliveira-, colega de Uninho na faculdade, as iniciativas de enfrentamento a esta tentativa de dominação automotiva impregnada de clichês patriarcais e fatalmente fascistas. Mercedes, recorrendo à sensualidade, Amora, a uma técnica de fortalecimento das plantas, o elemento orgânico colocado em ação contra uma mecanização radical da vida e das mentes.

Se há êxito tanto nesta ousadia imaginativa, que torna o roteiro -assinado por Renata, Sergio Oliveira e Leo Pyrata- complexo e rico de inúmeros elementos da realidade contemporânea brasileira, também se notam alguns desacertos tanto na composição dos diálogos, eventualmente um tanto artificiais, quanto na direção de atores -com desequilíbrios de tons de interpretação. Isto não priva, porém, "Carro Rei" da condição de avis rara incômoda e intrigante a desafiar os sentidos do público para descobrir seus múltiplos significados.

CARRO REI

Onde Em cartaz nos cinemas

Classificação 14 anos

Elenco Matheus Nachtergaele, Luciano Pedro Jr., Jules* Eltingm

Produção Brasil, 2021

Direção Renata Pinheiro

Avaliação Bom



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