SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Neste domingo (29) nas urnas, o atual prefeito de São Paulo enfrenta o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, o MTST. No que diz respeito à cultura, ambos expressam suas divergências, mas se assemelham sobretudo num ponto --ambos querem distância do modelo de gestão cultural do governo Bolsonaro. Bruno Covas, do PSDB, demonstra um olhar da cultura sob o ponto de vista da geração de renda e inovação. Guilherme Boulos, do PSOL, vê a cultura como parte de um "conjunto das lutas por uma sociedade sem desigualdades". De diferentes formas, ambos prometem esforços para fazer chegar às periferias o que cada um entende como cultura. Também têm em comum a dificuldade de achar soluções claras para as constantes crises na Cinemateca Brasileira e no Theatro Municipal de São Paulo. Se Bruno Covas (PSDB) tenta se distanciar de Bolsonaro no que diz respeito à cultura, Guilherme Boulos (PSOL) tenta se colocar como o extremo oposto. "O bolsonarismo é um desastre completo para a cultura brasileira, seja na gestão ou do ponto de vista simbólico", diz o candidato. "Se não existe censura, é porque os movimentos democráticos de todo país vêm resistindo bravamente." Se eleito, ele promete aumentar o orçamento para a cultura, fazer contratações "massivas" de espetáculos via chamadas públicas e fugir da lógica de grandes eventos. O pesolista diz que tentará solucionar a crise da Cinemateca com ajuda de empresa municipal, o que deve encontrar obstáculos burocráticos. A Virada Cultural numa possível gestão Boulos só acontecerá se a população estiver vacinada contra o coronavírus e teria mais foco na periferia e pretende fugir da lógica dos grandes eventos. Boulos não se opõe à contratação de entidades provadas para gestão de equipamentos culturais municipais, desde estas sejam capacitadas. Com uma possível reforma tributária aumente o preço dos livros, o candidato diz que apostará na retomada de projetos de biblioteca itinerante. Para ele, um dos principais efeitos mais nefastos da gestão Bolsonaro é a crise na Cinemateca Brasileira, que não recebeu recursos do governo federal este ano. Boulos diz que vai buscar solucionar o problema instituindo uma gestão provisória da instituição pela Spcine, empresa municipal que desenvolve o audiovisual na cidade de São Paulo. Essa empreitada, porém, deve encontrar sérios obstáculos burocráticos, uma vez que a Cinemateca está sob a administração direta do Ministério do Turismo, e eventuais convênios entre município e União dependem da anuência do governo federal. Prova disso é que, em julho deste ano, um grupo de vereadores da capital paulista separou R$ 580 mil em verbas de emenda parlamentar para serem gastos na Cinemateca --sendo que antes o dinheiro passaria pela Spcine. O valor, porém, nunca chegou até a ponta final. O organizador da "vaquinha", o vereador Gilberto Natalini (PV), diz que o motivo é que o governo federal não se manifesta e não dá a sua anuência, o que impossibilita a destinação do dinheiro à Cinemateca. Sobre a aparente recusa de receber dinheiro, o Ministério do Turismo apenas afirma, em nota, que "questões relacionadas à Cinemateca Brasileira estão seguindo os trâmites legais". Boulos diz que a reforma de Paulo Guedes que pode resultar em maior taxação e aumento do preço dos livros no país é "lamentável". "Um governo que quer liberar armas e restringir livros", diz. Para tentar contornar o possível encarecimento do livro em São Paulo, o candidato pretende "fortalecer ainda mais as bibliotecas municipais, retornando projetos de biblioteca itinerante", sem dar mais detalhes. Ele também afirma que aumentar o horário de funcionamento das bibliotecas municipais, para que possam funcionar também de noite. O candidato critica a escolha da atual entidade privada que administra o Theatro Municipal, o Santa Marcelina Cultura, organização social (OS) que foi escolhida em caráter de urgência. "O teatro não pode ser gerido de maneira permanente por uma entidade contratada sem edital", diz Boulos. A situação, contudo, é temporária e é prevista na lei e aconteceu após o edital que escolheria a próxima entidade privada gestora do complexo ter sido suspenso pelo Tribunal de Contas do Município. Além disso, a então gestora do teatro, o Instituto Odeon, teve seu contrato com a prefeitura rompido antes do previsto, após um grupo de trabalho ter apontado irregularidades nas contas do teatro. "A gestão errática do teatro tem gerado muita instabilidade no quadro funcional e no corpo artístico, bem como nas escolas de artes, apequenando a própria dimensão do Theatro Municipal, que é um patrimônio cultural da maior relevância não só para São Paulo, mas para o país", diz o candidato. Boulos, que em setembro postou no Twitter que a gestão Covas queria "entregar serviços que deveriam ser públicos para organizações sociais" na área da educação, afirma apoiar a contratação desse tipo de entidade privada, desde que capacitada, para a gestão de equipamentos culturais municipais. "Mas também têm aquelas que só drenam recursos em contratos escusos. Essas não vão ter vez na nossa gestão", diz, sem especificar. Ninguém sabe quando o fim da pandemia será decretado, mas quando isso ocorrer, o candidato promete "um amplo plano municipal de retomada cultural", por meio de chamadas públicas para contratação de espetáculos de diferentes linguagens se apresentarem em teatros municipais, CEUs e espaços culturais conveniados. Segundo Boulos, "vai ser um programa massivo de contratação". O pós-pandemia também deve trazer de volta a Virada Cultural. "Se a gente tiver vacina, vai ter a Virada e ela vai ser mais plural e diversificada do que nunca", diz. O candidato afirma que pretende fugir da lógica dos grandes eventos e que "vai trabalhar para que haja um calendário de eventos culturais em toda a cidade, durante todo o ano e não só uma vez". "A periferia já produz cultura, o povo já produz cultura nos quatro cantos de São Paulo, Cabe à prefeitura fomentar e valorizar mais." Boulos diz que vai apostar na cultura que é produzida na cidade e que vai fazer "os eventos da Virada chegarem às periferias". No evento de 2019, na gestão Covas, a Virada teve shows em bairros como Cidade Tiradentes e Grajaú. Em seu programa, Boulos diz que vai aumentar gradativamente as verbas da cultura até chegar em 3% do total do orçamento da cidade, até 2024. Ele afirma que conseguirá isso com a cobrança da dívida ativa do município. No orçamento de 2020, a cultura representa 1,17%.
