Beijo gay na Bienal do Rio tem efeito rebote e livros sobre o tema lideram vendas

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

02/12/2021 19h07 — em Arte e Cultura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pouco mais de dois anos se passaram desde que Marcelo Crivella, ex-prefeito do Rio de Janeiro, ordenou à Bienal do Livro que cobrisse com sacos pretos a capa de uma revista em quadrinhos da Marvel que trazia o desenho do beijo entre dois rapazes. Para ele, a ilustração era "conteúdo sexual explícito para menores" —os meninos estavam completamente vestidos na imagem.

A partir desta sexta (3), a Bienal do Livro volta à capital carioca. E as preparações para o evento indicam que o clima pouco terá a ver com aquele visto em 2019. Agora, quem for lá irá ver o desenho de dois garotos se beijando estampando um muro com cerca de dois metros de altura.

A ilustração, feita pelo artista Johncito, é capa de "O Primeiro Beijo de Romeu", livro de Felipe Cabral inspirado no embate entre Crivella e Felipe Neto —na época, o youtuber comprou cerca de 14 mil livros LGBTQIA+ para distribuir gratuitamente no evento, fazendo frente à censura do prefeito.

A imagem parece sintetizar um fenômeno maior no mercado editorial, no entanto. Desde aquela Bienal , obras com temática LGBTQIA+ passaram a encabeçar as listas dos livros mais vendidos na categoria infantojuvenil.

Segundo o PublishNews, site especializado em vendas de livros, o romance gay "Vermelho, Branco e Sangue Azul", da editora Seguinte, é o maior sucesso do gênero do ano, com cerca de 47 mil exemplares comercializados até agora.

Já "Aristóteles e Dante Descobrem os Segredos do Universo", outra trama com protagonistas LGBTQIA+ publicada pela mesma editora, está em 16º lugar. Na categoria ficção, "Os Sete Maridos de Evelyn Hugo", best-seller que aborda a bissexualidade publicado pela Paralela, é o terceiro mais vendido do ano.

Para comparação, em 2020 o infantojuvenil campeão de vendas foi um box da saga "Harry Potter", que fez sucesso mesmo com J.K. Rowling sendo acusada de transfobia. Já naquele 2019 da Bienal, livros de youtubers dominaram a lista.

Mas o que fez livros com temática LGBTQIA+ escalarem tanto em vendas?

Rafaella Machado, editora da Galera, selo do Grupo Editorial Record que publica livros para jovens adultos, diz que parte da responsabilidade pode, sim, ser creditada à atitude de Felipe Neto de comprar e distribuir livros LGBTQIA+ de graça. Segundo ela, o grande alcance do youtuber, que tem mais de 43 milhões de inscritos no seu canal, levou essas histórias a um público que antes não as consumia.

O principal propulsor do boom parece ser, no entanto, o TikTok. Mais do que um aplicativo para postar dancinhas, hoje a rede social é também um reduto de leitores adolescentes, que alcançam milhares de pessoas com vídeos curtos nos quais recomendam livros.

"Vermelho, Branco e Sangue Azul", por exemplo, não era novidade por aqui —o livro chegou ao Brasil em 2019 pela Seguinte, o selo de livros para jovens da Companhia das Letras. Segundo o editor Antonio Castro, era um livro que sempre vendeu bem. Mas foi só no meio de 2020, quando o TikTok ganhou força no Brasil, que a obra alcançou mais leitores.

Escrito por Casey McQuiston, o livro narra uma realidade alternativa em que Trump não existe e quem venceu as eleições americanas foi uma mulher. Na trama, o filho da presidente se apaixona por um de seus grandes rivais, o príncipe da Inglaterra. A partir disso, os dois começam uma jornada para entender a própria sexualidade e construir um relacionamento.

Machado, da Record, afirma que o TikTok é o aplicativo que mais converte vendas de livros. Na lista da PublishNews, há seis títulos da Galera na lista dos 20 infantojuvenis mais vendidos do ano —todos indicados frequentemente pelos "booktokers", como são chamados os influenciadores literários da rede.

Há um fator geracional aí. "Há uma preocupação destes consumidores com diversidade nos livros que eles leem", diz Maria Júlia Alves, analista comercial do PublishNews.

Mesmo com essa extensa safra de publicações LGBTQIA+, a maioria delas têm capas e títulos que não revelam seu conteúdo queer. Afinal, ainda um há certo risco mercadológico em estampar beijos gays, vide a recente polêmica envolvendo o gibi em que novo Superman beija outro homem.

À frente da publicação de "O Primeiro Beijo de Romeu", a Galera faz questão de ostentar o discurso de que é a primeira grande editora a lançar uma capa com dois garotos se beijando explicitamente.

O selo chegou a lançar um livro com um beijo homossexual pouco explícito na capa, em 2015, quando publicou o romance "Dois Garotos se Beijando". Mas o desenho das silhuetas de dois rapazes encostando os lábios não foi bem recebido pelo mercado —uma rede de livrarias se recusou a expor o título, segundo Rafaella Machado, a editora do selo.

Vale notar que a Galera que tem um histórico problemático nessa seara. Parte de seus leitores vai constantemente às redes sociais apontar problemas na tradução dos livros.

Há cerca de um ano, a editora recebeu críticas por tornar heterossexual um personagem no livro "Os Pergaminhos Vermelhos da Magia" —no texto original, ele dizia não ser gay nem hétero. Na mesma página aparece o termo "opção sexual", uma expressão antiquada para se referir a sexualidade.

Houve ainda outra polêmica envolvendo a edição nacional de "Will e Will: Um Nome, Um Destino", em que a editora trocou "assexual" por "assexuado", termo considerado ultrapassado e ofensivo.

Questionada sobre os episódios, Machado diz que a lição foi dura, mas necessária. Hoje eles contratam profissionais para fazer o que chamam de "leitura sensível", espécie de revisão do texto integral para identificar possíveis problemas com a tradução de termos que tocam em causas sociais.

Ela exemplifica com o caso do romance "Os Garotos do Cemitério", que foi traduzido por um homem transexual, gay e latino —características compartilhadas com o protagonista da história.

Cabral conta que sempre soube que queria um beijo gay na capa de "O Primeiro Beijo de Romeu". Ele diz que a ideia foi bem recebida pela editora mesmo havendo um certo receio de que os leitores mais jovens não se sentissem confortáveis em pedir o livro aos pais. Eles consideraram criar uma sobrecapa, mas acabaram optando por manter o beijo à mostra.

A trama do romance é uma resposta bem direta à medida repressora de 2019. Na história, um menino é arrancado do armário ao mesmo tempo em que o lançamento de um livro com temática LGBTQIA+, escrito por seu pai, é censurado pelo prefeito carioca numa Bienal do Livro. É, nas palavras do escritor, um "final feliz" à tentativa de censura de Crivella.

A história traz ainda uma youtuber, chamada Kita Star, que compra 15 mil livros LGBTQIA+ para protestar contra a atitude do prefeito, numa alusão à ação de Felipe Neto. Cabral conta que decidiu dar esse papel de importância na ficção a uma personagem negra e travesti em vez de uma figura branca, cisgênero e heterossexual.

O youtuber Felipe Neto diz que não se vê como paladino da justiça. Em entrevista por email, ele afirma que tomou aquela atitude para lutar contra o autoritarismo. "Aquele poderia ser o início de uma repressão e censura que culminaria na perseguição de todo conteúdo LGBTQIA+", diz. "Fiz o que achava que era necessário na luta contra a imposição da extrema-direita e na preservação dos nossos valores de igualdade e inclusão."

Para ele, a cultura no Brasil hoje vive uma perseguição ideológica por parte da direita. "O secretário de Cultura, junto de sua equipe, está comandando o setor pensando única e exclusivamente em expandir o projeto fascistóide."

BIENAL DO LIVRO DE 2021

Quando De 3 a 12 de dezembro

Onde No Riocentro - av. Salvador Allende, 6.555, Barra da Tijuca

Preço Entrada inteira sai a R$ 40 e a meia custa R$ 20

Mais informações https://bienaldolivro.com.br/

SÁBADO, 04/12

17h

Sessão de autógrafos de 'O Primeiro Beijo de Romeu'

Com Felipe Cabral, no estande do Grupo Editorial Record

DOMINGO, 12/12

19h

Mesa: Vozes LGBTQIAP+: O que vem pela frente?

Mediada por Felipe Cabral, no espaço Estação Plural


O Portal do Holanda foi fundado em 14 de novembro de 2005. Primeiramente com uma coluna, que levou o nome de seu fundador, o jornalista Raimundo de Holanda. Depois passou para Blog do Holanda e por último Portal do Holanda. Foi um dos primeiros sítios de internet no Estado do Amazonas. É auditado pelo IVC e ComScore.

+ Arte e Cultura