RIO — Sentadas nos extremos de uma mesa, duas mulheres — uma árabe e outra judia — leem e reinterpretam as memórias de Leah Rabin, viúva do primeiro-ministro de Israel Yitzhak Rabin, assassinado por um extremista israelense em 4 de novembro de 1995. Protagonistas da peça “Yitzhak Rabin: Chronicle of an assassination” (“Yitzhak Rabin: Crônica de um assassinato”, em tradução livre), elas inspiram a plateia a voltar no tempo e a explorar a escalada de violência que levou à morte do político, signatário de um acordo histórico com os palestinos e vencedor do Prêmio Nobel da Paz por seus esforços de reconciliação entre os povos.
Concebida e dirigida pelo cineasta israelense Amos Gitai, a peça é um desdobramento do filme “Rabin, the last day” (”Rabin, o último dia”), rodado em 2015, com roteiro coassinado por Maria-Jose Sanselme. E estreia nos palcos americanos na próxima semana, como uma das atrações do Festival do Lincoln Center, em Nova York, com apresentações a partir do dia 19. Lançada no Festival de Avignon, no ano passado, a montagem agora enfrentará os Estados Unidos de Donald Trump, cujo pensamento segregacionista se alinha com a política de ocupação do território palestino defendida pelo atual primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.
Premiado autor de filmes que exploram o conflito entre palestinos e judeus, entre outros aspectos das crises do Oriente Médio, Gitai espera que a peça, assim como o filme que a inspirou, jogue luz sobre um dos episódios mais obscuros da trajetória recente de seu país. O diretor de longas-metragens como “Kadosh — Abençoados” (2009), “O Dia do Perdão” (2000) e “Terra prometida” (2004) vê o atentado contra Rabin como “uma ferida aberta na História de Israel”, que devolveu o mundo à obscuridade e um duro golpe às negociações de paz na região, do qual ainda não se recuperaram.
— Na época do lançamento do filme (nos Estados Unidos), o crítico Thomas Friedman escreveu no “New York Times”: “Parece bastante relevante para a América hoje. É sobre o que pode acontecer em uma sociedade democrática quando os políticos vão longe demais, quando eles não apenas se calam diante de palavras de ódio que cruzam os limites do civilizado e se tornam parte do discurso público, mas, pior ainda, começam a flertar com esse discurso de ódio a seu favor”. E isso foi escrito antes da eleição de Trump! — lembra Gitai, em entrevista ao GLOBO, por email, num intervalo dos ensaios no Lincoln Center.
“Rabin, the last day” estreou na competição do Festival de Veneza, em setembro de 2015, a tempo de lembrar o aniversário de 20 anos da tragédia. O passo seguinte foi extrair da produção, que mistura dramatização com atores e imagens de época, a instalação “Chronicle of an assassination foretold”, composta por trechos do filme, vídeo e fotografias do atentado contra o primeiro-ministro, assassinado por um ultranacionalista contrário aos acordos de paz, durante um comício em Tel Aviv. A obra já foi exibida no centro cultural Bozar, em Bruxelas, e em outros espaços da Europa.
— Desde o momento em que comecei a desenvolver o projeto do filme senti a necessidade de abordar o assassinato de Rabin, um evento decisivo em nossa História, em três diferentes plataformas, e com todas as ressonâncias que o caso poderia trazer para os dias de hoje. Após lançar o longa-metragem e, quase em paralelo, excursionar por algumas galerias com a instalação que ele inspirou, chegou o momento de colocá-lo no palco — explica o realizador de 66 anos, natural da cidade de Haifa. — A ideia desta obra trifacetada é política. É um gesto da comunidade.
Em Avignon, onde a peça foi apresentada pela primeira vez, Leah Rabin foi interpretada pela francesa Sarah Adler e pela israelense Hiam Abbass. A primeira atuou em “Maria Antonieta”, de Sofia Coppola, e em “Tsili”, do próprio Gitai. E a segunda ganhou projeção internacional a partir de “Free zone” (2005) e desde então participa também de grandes produções internacionais, como “Êxodo: Deuses e reis” (2014), de Ridley Scott, e o futuro “Blade Runner 2049”, de Denis Villeneuve, que estreia em outubro no Brasil. Assim como sua versão instalação, a versão teatral se adapta ao espaço em que é montada, absorvendo — ou não — elenco local.
— A peça será apresentada na nova Filarmônica de Paris no ano que vem (não há planos para o Brasil) — adianta Gitai. — Em todos os meus projetos, sejam um filme, uma exposição ou uma performance de teatro, gosto de confrontar o espaço. Como acontecerá aqui no Lincoln Center, onde a viúva de Rabin será vivida por Sarah Adler e Einat Weizman, duas atrizes de origem israelense. A peça é como uma canção de ninar ou uma história que narra um evento mitológico, e elas compartilharão conosco as memórias do assassinato, ao mesmo tempo em que nos narram um conto.
Além do elenco, a montagem prevê músicos no palco, que “trazem uma presença ou um contraponto lírico” ao texto, segundo Gitai. Na versão adaptada para o Lincoln Center, a pianista Edna Stern interpretará prelúdios de Johann Sebastian Bach, e a soprano Keren Motseri interpretará reminiscências de György Kurtág (“Fragmentos de Kafka”), Nono (“Djamila”) e uma oração judaica. A cantora lírica será acompanhada pelo violinista Alexei Kotchekov, que tocará Benjamin Britten (“Suite Nº 8”) e uma série de canções criadas especialmente para o filme “Tsili”, de Gitai.
O cineasta israelense estudava Arquitetura quando foi convocado pelo Exército. Logo no início da guerra do Yom Kippur, em 1973, o helicóptero em que viajava com a equipe médica foi abatido por um míssil sírio. Após o conflito, ele passou a dirigir curtas para a televisão pública local, até que, em 1980, lançou seu primeiro documentário, “Bayit”, sobre palestinos e israelenses que conviviam sob o mesmo teto em Jerusalém. Desde então, o diretor se dedica a fazer filmes que contribuam para a reflexão sobre a situação política e social de Israel e do Oriente Médio.
— Decidimos fazer este projeto sobre o assassinato de Rabin como um gesto de memória e até de esperança — explica ele. — Às vezes, ressuscitar uma lembrança pode fazer as coisas acontecerem. Mas devemos permanecer modestos: a arte não é o modo mais eficaz de mudar a realidade. A política ou as metralhadoras têm um efeito muito mais direto. Mas a arte, às vezes, preserva a memória no momento em que os poderes desejam apagá-la. Porque eles querem obediência, não querem ser perturbados ou desafiados.




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