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Andréa G. Ribeiro

A Amazônia também se veste de identidade

Andréa G. Ribeiro
Por Andréa G. Ribeiro
01/09/2026 12h28 — em Andréa G. Ribeiro

Existem momentos em que uma terra revela sua identidade não pelo que dizem

sobre ela, mas pelo que é capaz de criar. E existem eventos que ultrapassam o instante em

que as luzes se acendem e as passarelas se movimentam, porque deixam, para além da

beleza, uma reflexão. O Amazon Poranga, realizado neste último fim de semana, em sua

4ª edição, idealizado por Jessilda Furtado e com a passarela conduzida por Eduardo Costa,

foi um deles. Ao colocar a moda amazônica em evidência, o evento fez mais do que

apresentar criações, mostrou uma Amazônia que se reconhece, se reinventa e transforma

sua identidade em expressão, talento e potência.

O Amazon Poranga foi palco, na sua 4a edição, de uma moda amazônica versátil

e com diferentes origens. O evento teve a apresentação de artistas consolidados no

mercado, como Sioduhi com criações impactantes, e as artesãs Rita Prossi e Renata

Sampaio com novas coleções, sempre com estilo e identidade.

Os desfiles são naturalmente vocacionados a serem celeiros de revelações. O

projeto Retalhos da Cultura vem afirmando, a cada edição, as escolas de arte de Parintins.

Já Ales Design fez estreia na passarela, com uma amostra de coleção de acessórios de

madeira de reaproveitamento, diretamente de Novo Airão.

Não podem passar despercebidas as criações em conjunto, que uniram roupas e

acessórios. Houve grande destaque na atuação em vídeo de Sapopema, marca de

acessórios produzidos por mulheres ribeirinhas de Mamirauá, a direção criativa de

Sioduhi e a fluidez de escamas de pirarucu da Gigantio. Esse projeto foi idealizado pela

Fundação Amazônia Sustentável (FAS).

A moda apresentada mostrou que a estética amazônica está muito além do

imaginário de estampas tropicais ou referências folclóricas. Há pesquisa, técnica,

criatividade, ancestralidade e, sobretudo, identidade. Designers, artesãos e marcas vêm

construindo uma linguagem própria, transformando elementos do território em criações

contemporâneas. A floresta, nesse contexto, deixa de ser apenas cenário e passa a ser

autoria; deixa de ser inspiração distante e se transforma em matéria de criação,

pertencimento e expressão.

Outro aspecto que merece atenção é a relação entre moda, sustentabilidade e

valorização dos saberes locais. Quando materiais, técnicas e histórias de comunidades

amazônicas chegam às passarelas, uma peça deixa de ser apenas objeto de consumo e

passa a carregar memória, território e significado. É também nesse ponto que a moda

pode cumprir um papel econômico importante, gerar renda, fortalecer cadeias produtivas,

valorizar talentos e criar oportunidades para que os criadores permaneçam e prosperem

na própria região.

Mas valorizar a moda amazônica não pode se resumir a aplaudi-la quando ela

ganha visibilidade. É preciso reconhecê-la, consumi-la, divulgá-la, investir nela e ampliar

seus espaços de circulação. Existe uma contradição em uma região que possui uma das

identidades culturais mais ricas do planeta e, ainda assim, muitas vezes precisa da

validação de fora para reconhecer aquilo que produz. O Amazon Poranga ajuda a inverter

essa lógica ao mostrar que sofisticação também pode nascer do território, que inovação

pode caminhar ao lado da ancestralidade e que contemporaneidade não significa

abandonar as raízes.

Talvez essa seja a grande mensagem deixada pelo evento, a Amazônia não precisa

deixar de ser Amazônia para ocupar novos lugares. Pode levar consigo suas cores,

texturas, histórias, saberes e símbolos. Quando a floresta chega à passarela pelas mãos de

seus próprios criadores, não está apenas apresentando moda. Está afirmando identidade,

movimentando economia, preservando cultura e dizendo, com elegância, que aquilo quenasce aqui não precisa pedir licença para ser reconhecido como referência. Afinal, a

Amazônia também se veste de identidade, e talvez seja justamente essa a sua forma mais

nasce aqui não precisa pedir licença para ser reconhecido como referência. Afinal, a

Amazônia também se veste de identidade, e talvez seja justamente essa a sua forma mais bonita de desfilar pelo mundo.

Andréa G. Ribeiro

Andréa G. Ribeiro

Advogada • Cirurgiã-Dentista • Especialista em Direito Médico, Odontológico e da Saúde • Conselheira do CRO-AM • Membro da Comissão de Ética do CRO-AM • Membro da Comissão de Direito Odontológico Nacional da ABA • Membro da Comissão da Mulher em Odontologia do Conselho Federal de Odontologia (CFO) • Membro da ALACA • Dama Comendadora Grã-Cruz da CBC • Escritora

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