Amazonas é um substantivo feminino que, no plural, assume uma conotação masculina singular, quando refere uma unidade federativa de um país chamado Brasil – um travesti, por assim dizer e respeitar os cânones do politicamente correto. Esse transtorno bipolar, tanto quanto me lembro data da transformação do nomadismo indígena em sedentarismo, por obra e graça de Jurupari, um deus (por assim dizer) indígena que dizia aos seus fiéis (por assim dizer): parem de vadiar por essas matas estilosas e comecem a plantar mandioca e coisas de comer, não façam como os Cambeba que usam a seringueira (não era exatamente assim, na época, que não tinha calendários da Pirelli ou relógio de parede, o nome dessa árvore da medicina financeira, mas vá lá) para se divertir com aquilo que um dia será chamado de futebol pelos brasileiros que chegaram depois dos portugueses etc.
Jurupari era um deus (digamos assim) reformador e não criador (ao chegar à região do Alto Rio Negro, o mundo já existia e as amazonas nem conheciam o cavalo, se algum dia o conheceram) que anunciava essa verdade soprando uma imensa vara, cuja visão só era permitida aos homens – sempre que uma mulher se deparasse com uma vara deveria fechar os olhos, para não quebrar o encantamento, costume que ainda hoje se adota (para evitar a curiosidade feminina, apaga-se a lamparina de breu ou a lâmpada elétrica, embora alguns prefiram dar-lhe um soco no olho).
Os indígenas viram que era bom plantar e colher, mais do que ficar catando sementes nem sempre disponíveis ou esperar que o verão ou o inverno lhes trouxessem ou tirassem o seu de-comer. E gostaram da ideia de soprar a vara, horas sem fim, enquanto as mulheres, isoladas, matutavam “o que esses homens fazem ali, só eles?”, e contavam as mulheres ao redor, à procura de uma ausência, e continuavam sua rede de perguntas – ainda hoje esse costume é atual: ao notar (quando nota) a ausência de um marido, a mulher liga para a melhor amiga (Ufa! Ela está em casa) e, resolvida essa dúvida, fica mais aliviada em saber que o marido da melhor amiga também não está em casa. Uma pergunta para a outra: “Você acredita que um monte de homem fique sem mulher à noite toda, apenas bebendo ou jogando futebol ou dominó ou porra nenhuma?”. “Nããããããooo!”. As índias, já naquele tempo, também acreditavam que soprar a vara só resulta em encher o saco.
Ao chegar por essas bandas e por essa época, a Igreja Católica tentou disputar com Jurupari a primazia do (por assim dizer) espírito dos índios e o transformaram num diabo, segundo a interpretação cristã, que os nativos não conheciam, pelo menos dessa maneira. As mulheres adoraram sacanear com Jurupari. E se converteram. Mas Jesus, segundo a nova lei do território, não era muito chegado à comunhão de homens e mulheres – cada macaco e macaca no seu galho. Nada mudou, a não ser o vestuário das índias e das índias, que tinham de cobrir, “aos olhos de Deus”, as partes pudendas (palavra mais imoral que as partes a que se referiam, os órgãos genitais externos, como se mulher tivesse e tenha órgão genital externo).
As mulheres são cartesianas, nada lhes soa pior do que não saber o que está acontecendo, além da linha reta. A Igreja Católica se aproveitou da ambigüidade que os sofistas (quem disse que o platonismo não é sofista?) legou à sua teologia e deixou as mulheres ainda mais raivosas (internamente, porque as mulheres sempre são uma questão interna). As indígenas viraram empregadas domésticas e aprenderam a resmungar contra o que consideravam, já naquela época, uma injustiça. “O que tu está resmungando aí, sua desgraçada?”. “Estou rezando”, dissimulam ainda hoje as degradadas filhas de Eva.
E agora continuando com o nosso assunto: Amazonas é um substantivo feminino que, no plural, assume uma conotação masculina singular, quando refere uma unidade federativa de um país chamado Brasil – um travesti, por assim dizer e respeitar os cânones do politicamente correto. Tudo que se ouve em Manaus ou de Manaus traz essa marca da ambiguidade. Manaus é a TPM, a rádio difusora em circuito cidadão do(das) Amazonas, aquelas, aqueles, que nunca escolheram o cavalo e apagam a luz para não ver quem sopra a vara. Quem não gostou que conte outra.
*Jornalista, escritor e membro da Academia Amazonense de Letras e do Teatro Experimental do Sesc – [email protected]

