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Sociólogo diz que cultura do ódio na sociedade estimula o aumento da violência

Sociólogo diz que cultura do ódio na sociedade estimula o aumento da violência
Sociólogo diz que cultura do ódio na sociedade estimula o aumento da violência

Manaus/AM - O recrudescimento da extrema direita que estimula o discurso de ódio e uso da violência como forma de resolução de conflitos é a causa principal de atos como o do homicídio e tentativa de homicídio praticado por um adolescente na escola em São Paulo, ontem (27), na avaliação do sociólogo Luiz Antônio Souza, professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Para Luiz, é um erro atribuir esse tipo de ato ao bullyng, que é uma prática histórica existente nas escolas e que sempre atingiu os negros, os pobres, as mulheres, pessoas com alguma deficiência. Faltam programas como o que existiu em 2002, o Galera Nota 10 e a criação de espaços de lazer nos bairros, sugere. 

“Esse tipo de atitude violenta não existe só em São Paulo nem no Brasil, mas está no mundo, como resultado do avanço da extrema direita”, afirma o sociólogo, para quem aquela frase usada pelo ex-capitão Jair Bolsonaro no Acre, ainda na presidência da República, quando pegou um equipamento fotográfico e o manejou como uma metralhadora afirmando que “ia eliminar os petralhas”, foi a expressão máxima dessa cultura neofacista que estimula essas pessoas a resolver seus problemas mediante o uso da violência.

Um dado preocupante, segundo Luiz Antônio, é uma espécie de concessão, de legitimação dessa violência, por conta de uma representatividade que essas pessoas têm, achando que está tudo bem “porque o presidente age assim”. 

O professor chama a atenção para o ambiente onde vive o garoto que matou uma professora e feriu colegas, argumentando que um adolescente de 13 anos de idade não é capaz de produzir a interpretação do mundo. 

“Essa interpretação que permitiu, autorizou que ele usasse uma faca para eliminar quem o contrariava é resultado de uma construção social”, explica Luiz Antônio, destacando que não seria novidade descobrir, numa análise da árvore genealógica do agressor, um ambiente onde a cultura da violência é não só autorizada, mas também promovida.

Como vivem em ambientes socioculturais nos quais não se sentem representados, esses adolescentes ficam “confortáveis por trás das redes sociais onde a promoção da violência é livre”, explica o professor.

“Se na escola eles se sentem escanteados, nas redes sociais se sentem fortes, podendo fazer tudo o que querem”, afirma Luiz Antônio, destacando que o problema não é a rede social, mas o uso dela por organizações societárias que garantem a esses meninos, que passam horas e horas nas redes sociais, se alimentar da cultura de ódio, da lógica violenta, por meio das redes sociais.

“A gente acha que eles podem usar desde que fiquem em casa, no quarto, ‘em segurança’, mas os próprios criadores da Internet, como o Mark Zuckerberg, criador do Facebook, o Bill Gattes, criador da Microsoft e o da Windons, não deixaram seus filhos usarem a Internet com liberdade até os 14 ou 15 anos”, argumenta.
Galera Nota 10

Para o professor, a solução para reduzir esses atos não passa por armar a população e nem colocar policiais nas escolas ou armar os professores. 

“A violência é opção, é cultura social, por isso precisamos promover outras culturas, a da cooperação, da solidariedade, da mediação de conflitos, da responsabilidade, da aplicação dura e severa da lei”, garante ele.

Nesse aspecto, critica o uso da Guarda Municipal armada em Manaus pela Prefeitura, afirmando que o enfrentamento da violência pelo executivo municipal seria eficiente com experiências exitosas como a que teve o programa ‘Galera Nota 10, que no ano de 2002 contribuiu para a redução da violência e criminalidade juvenil.

“A Prefeitura poderia criar, ao redor da cidade, comitês de mediação de conflitos, capacitando as pessoas que têm relação orgânica com o bairro, para receber as demandas de conflitos, como as que chegam em delegacias, Juizado Especial Cível e Procon, para se buscar uma mediação”, sugere.

Para o sociólogo, não se pode depositar nas escolas, nem nas delegacias, todas as nossas mazelas da sociedade e nem dá para esperar demais da família, que está mais vulnerável e fragilizada, basta ver os indicadores econômicos e sociais do Amazonas, com os níveis de desemprego que não permitem aos pais terem alteridade ou autoestima suficiente para fazer esse papel.  

Uma ação mais eficaz contra a cultura da violência é criar espaços de sociabilidade e lazer na cidade, para que as crianças aprendam, na brincadeira, o que é viver na sociedade.

As pessoas quando brincam, jogam, se divertem, não pensam em socar a cara das outras, porque convivem e experimentam a existência do outro como idêntico a ele, argumenta. 

“Onde existem esses espaços de sociabilidade, a chance de que as pessoas usem a violência para resolver suas questões é menor”, garante o Luiz Antônio, lembrando a importância das pessoas aprenderem novas estratégias para resolução de conflitos sem o uso da violência, que vem ganhado cada vez mais espaço na mídia, nas redes sociais, nas televisões e jornais sensacionalistas.

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