Manaus/AM - Uma nova espécie de palmeira na Amazônia, que é um dos grupos de plantas mais abundantes na região, foi descoberta por cientistas brasileiros e estrangeiros com participação do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI).
A nova espécie, do gênero Mauritiella, da família Arecaceae, foi denominada Mauritiella disticha, mas mesmo sendo recém-descoberta, a distribuição da espécie preocupa cientistas pelo fato de ocorrer em parte no Arco do Desmatamento, região sujeita à degradação por abertura de estradas, desmatamentos, queimadas e ocupação irregular por grileiros.
Somado ao fato da aparente baixa densidade populacional da espécie, nos levou a categorizá-la como Vulnerável, de acordo com os critérios da Lista de Espécies Ameaçadas da International Union (IUCN), explica a bióloga Thaise Emilio.
Conhecida na bacia do médio Madeira, na região da BR-319 a oeste do Rio Madeira, e na região do rio Aripuanã Transamazônica (Apuí), a leste, no Amazonas, a espécie é encontrada em campos abertos e florestas baixas em ecossistemas de areia branca – as campinas e campinaranas, incluindo florestas secundárias próximas a estradas.
A nova palmeira, de pequeno a médio porte, alcança até sete metros de altura, possui caule coberto de espinhos, folhas que seguem o modelo em leque (flabeliforme) e frutos ovais parecidos com os do buriti.
Não há relatos sobre formas de consumo do fruto, mas por ser muito similar às demais buritiranas e ao buriti é muito provável que seja consumido ou pelo menos adequado ao consumo humano.
PAISAGISMO
A nova espécie pode ser usada também no paisagismo: a inserção das folhas no caule é sempre no mesmo plano e em direções opostas, formando um padrão muito bonito e exclusivo desta espécie no gênero, uma das características que a distingue das outras espécies do gênero.
A planta foi encontrada pelos pesquisadores pela primeira vez na BR-319 (Manaus-Porto Velho-RO), em 2007, durante um levantamento de inventários florísticos. Um ano depois foi achada na rodovia Transamazônica.
O trabalho com a nova descoberta foi publicado recentemente em artigo da revista da americana Systematic Botany, assinado por egressos dos cursos de Doutorado em Botânica e em Ecologia do Inpa, Eduardo Prata e Thaise Emilio, vinculados ao Laboratório de Ecologia e Evolução de Plantas da Amazônia (Labotam/Inpa), e Universidade de Campinas, respectivamente, pelo pesquisador Mario Cohn-Haft (Coleção de Aves/Inpa), e outros 13 autores de instituições do Brasil, Suécia, Alemanha, Holanda, Camarões, França e Reino Unido.
A primeira autoria é compartilhada por Eduardo Prata e Maria Fernanda Jiménez, do Gothenburg Global Biodiversity Centre e do Department of Biological and Environmental Sciences, University of Gothenburg, ambos na Suécia.
Prata destaca que o achado científico no bioma mais biodiverso do planeta revela o quanto ainda há para se conhecer na flora Amazônica.
Outro fator importante no caso da Mauritiella disticha é que ela apresenta diferenciações morfológicas marcantes, ou seja, é relativamente fácil diferenciá-la pela aparência, de indivíduos de outras espécies.
O processo de descoberta e descrição da nova espécie levou quase 15 anos, e foi possível por meio de financiamento de trabalhos de campo e de laboratório, como análise de DNA. O estudo envolveu uma equipe multidisciplinar e internacional, formada por ecólogos, botânicos, biogeografos e bioinformatas, que acessaram áreas remotas da floresta amazônica. A coleta de referência da espécie encontra-se depositada no Herbário do Inpa.





