Por Aldisio Filgueiras
Está na hora de dizer ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que ele é pai, sim, mas lá dos filhos dele. Em meio à luta pelos direitos civis nos anos 1960-1970, o escritor James Baldwin dizia que os Estados Unidos transformaram os negros em engraxates e agora os americanos brancos acreditavam que os negros não podiam ser mais do que engraxates; não poderiam ser fabricantes de sapatos, por exemplo. No Brasil, o povo brasileiro foi transformado em sem-teto, sem-terra sem-água, sem-pão, e... sem-pai.
Lula e as novelas da Globo acreditam que a paternidade pode eximir o filho ou a filha de suas responsabilidades. O patriarca, enfim, é quem comanda a vida e traça o destino de todos. Ele é o provedor, “nada me faltará”. Não existe novela da Globo em que alguém não esteja preocupado em sabem de quem é filho e, quando encontra o pai, tem um orgasmo múltiplo, e continua vivendo a vida que sempre teve,porque depois de um orgasmo a realidade continua realidade. Não existe um discurso de Lula em que ele não lembra da sua posição de provedor das necessidades crônicas do povo brasileiro. Agora, ele também arranjou uma mãe, que subitamente também já é avó, para o povo brasileiro. O ciclo está completo.
Os brasileiros não são engraxates, mas seres carentes de pai, de mãe e de avó. O Bolsa Família não me deixa mentir, ele alimenta as carências do povo brasileiro sem-pai, sem-mãe, sem-terra etc. Com isso, permanece a castração de todas as camadas sociais, não interessa quanto esses estratos se mobilizem e passem de Z a A (Caetano Veloso lembro que não existe nada mais Z do que uma classe; o inverso é verdadeiro), por meio de expedientes absolutamente artificiais. O Brasil tem Bolsa Família, mas o Nordeste não tem reforma agrária e a transposição do rio São Francisco não beneficiará os pequenos produtores, mas os grandes latifundiários, donos da terra e agora da água; o Sul e o Sudeste têm Bolsa Família, mas sofre um processo letal de desindustrialização; o Centro-Oeste continua bem, obrigado, devastando o semiárido e expandido sua fronteira agrícola para o sul da Amazônia. O Norte continua com seu empreendedorismo de seringalista. O PIB brasileiro é um Pibão à base de viagra importado do Paraguai.
A carência do povo brasileiro faz o sucesso de Lula e das novelas da Globo. Claro, não foi o Lula nem a Globo que inventaram o mito da paternidade. Eles apenas “modernizaram” (para usar a palavra mágica, ressuscitadora de Lázaros) essa tradição política, temperando-a com um certo freudismo equivocado. Como se saber ou não o nome do pai fizesse alguma diferença, a não ser que seja um pai rico de quem se possa extorquir uma pensão generosa, capaz de levar o anônimo de hoje à fama emergente da coluna social e dos salões de novos-ricos, onde se arrota para anunciar que a barriga está cheia.
Conheci meu pai e duvido muito que minha vida tivesse outro rumo se não o conhecesse, afinal, nunca lemos pela mesma cartilha; sempre preferi fazer as minhas opções, o que foi muito bom para ele: eu o livrei da culpa pelos meus acertos e desacertos. Creio que ele morreu me abençoando como um bom filho; morreu sem culpa e sem arrependimento, pelo menos quanto a mim. Jamais se senti carente de paternidade em qualquer sentido que esse conceito ultrapassado possa ainda ser reaproveitado. Sempre a condição humana do livre arbítrio. Eu também morrerei sem culpa e sem arrependimento. É o que tento fazer entender aos meus três filhos: não posso traçar o destino de vocês, e se pudesse, não faria. Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima. Esse é o sentido de responsabilidade que os governos caudilhos do Brasil têm negado aos seus “filhos”. É uma democracia com mão de ferro. Eu sou de uma geração que aprendeu a dizer não e a desafinar e a desatinar o coro dos contentes.
Eu digo não ao patriarcado de Lula e ao matriarcado de Dilma. Eu digo não à esquerda brasileira que acredita “levar as massas” ao Paraíso, aliando-se ao que há de mais podre na sociedade brasileira (e não é pouco). Eu digo não aos oportunistas de última hora, que não acreditam em bruxas, mas por via das dúvidas, não abdicam da “ajuda de Deus” para chegar lá, onde se emanciparão das suas promessas e olharão o eleitor de cima para baixo.
Eu digo não. E meu voto tem o objetivo de levar estas eleições para o segundo turno. Eu voto Artur. Eu voto Marina. Eu voto em tudo que disser não ao patriarcado de Lula. Chega de pai. Chega de cabresto. A vida é minha. Eu decido. Eu me respeito.
Aldísio é Jornalista, escritor, membro da Academia Amazonense de letras e do Teatro Experimental do Sesc – [email protected]
Está na hora de dizer ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que ele é pai, sim, mas lá dos filhos dele. Em meio à luta pelos direitos civis nos anos 1960-1970, o escritor James Baldwin dizia que os Estados Unidos transformaram os negros em engraxates e agora os americanos brancos acreditavam que os negros não podiam ser mais do que engraxates; não poderiam ser fabricantes de sapatos, por exemplo. No Brasil, o povo brasileiro foi transformado em sem-teto, sem-terra sem-água, sem-pão, e... sem-pai.
Lula e as novelas da Globo acreditam que a paternidade pode eximir o filho ou a filha de suas responsabilidades. O patriarca, enfim, é quem comanda a vida e traça o destino de todos. Ele é o provedor, “nada me faltará”. Não existe novela da Globo em que alguém não esteja preocupado em sabem de quem é filho e, quando encontra o pai, tem um orgasmo múltiplo, e continua vivendo a vida que sempre teve,porque depois de um orgasmo a realidade continua realidade. Não existe um discurso de Lula em que ele não lembra da sua posição de provedor das necessidades crônicas do povo brasileiro. Agora, ele também arranjou uma mãe, que subitamente também já é avó, para o povo brasileiro. O ciclo está completo.
Os brasileiros não são engraxates, mas seres carentes de pai, de mãe e de avó. O Bolsa Família não me deixa mentir, ele alimenta as carências do povo brasileiro sem-pai, sem-mãe, sem-terra etc. Com isso, permanece a castração de todas as camadas sociais, não interessa quanto esses estratos se mobilizem e passem de Z a A (Caetano Veloso lembro que não existe nada mais Z do que uma classe; o inverso é verdadeiro), por meio de expedientes absolutamente artificiais. O Brasil tem Bolsa Família, mas o Nordeste não tem reforma agrária e a transposição do rio São Francisco não beneficiará os pequenos produtores, mas os grandes latifundiários, donos da terra e agora da água; o Sul e o Sudeste têm Bolsa Família, mas sofre um processo letal de desindustrialização; o Centro-Oeste continua bem, obrigado, devastando o semiárido e expandido sua fronteira agrícola para o sul da Amazônia. O Norte continua com seu empreendedorismo de seringalista. O PIB brasileiro é um Pibão à base de viagra importado do Paraguai.
A carência do povo brasileiro faz o sucesso de Lula e das novelas da Globo. Claro, não foi o Lula nem a Globo que inventaram o mito da paternidade. Eles apenas “modernizaram” (para usar a palavra mágica, ressuscitadora de Lázaros) essa tradição política, temperando-a com um certo freudismo equivocado. Como se saber ou não o nome do pai fizesse alguma diferença, a não ser que seja um pai rico de quem se possa extorquir uma pensão generosa, capaz de levar o anônimo de hoje à fama emergente da coluna social e dos salões de novos-ricos, onde se arrota para anunciar que a barriga está cheia.
Conheci meu pai e duvido muito que minha vida tivesse outro rumo se não o conhecesse, afinal, nunca lemos pela mesma cartilha; sempre preferi fazer as minhas opções, o que foi muito bom para ele: eu o livrei da culpa pelos meus acertos e desacertos. Creio que ele morreu me abençoando como um bom filho; morreu sem culpa e sem arrependimento, pelo menos quanto a mim. Jamais se senti carente de paternidade em qualquer sentido que esse conceito ultrapassado possa ainda ser reaproveitado. Sempre a condição humana do livre arbítrio. Eu também morrerei sem culpa e sem arrependimento. É o que tento fazer entender aos meus três filhos: não posso traçar o destino de vocês, e se pudesse, não faria. Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima. Esse é o sentido de responsabilidade que os governos caudilhos do Brasil têm negado aos seus “filhos”. É uma democracia com mão de ferro. Eu sou de uma geração que aprendeu a dizer não e a desafinar e a desatinar o coro dos contentes.
Eu digo não ao patriarcado de Lula e ao matriarcado de Dilma. Eu digo não à esquerda brasileira que acredita “levar as massas” ao Paraíso, aliando-se ao que há de mais podre na sociedade brasileira (e não é pouco). Eu digo não aos oportunistas de última hora, que não acreditam em bruxas, mas por via das dúvidas, não abdicam da “ajuda de Deus” para chegar lá, onde se emanciparão das suas promessas e olharão o eleitor de cima para baixo.
Eu digo não. E meu voto tem o objetivo de levar estas eleições para o segundo turno. Eu voto Artur. Eu voto Marina. Eu voto em tudo que disser não ao patriarcado de Lula. Chega de pai. Chega de cabresto. A vida é minha. Eu decido. Eu me respeito.
Aldísio é Jornalista, escritor, membro da Academia Amazonense de letras e do Teatro Experimental do Sesc – [email protected]

