Por Ana Celia Ossame, Especial para Portal do Holanda
Neste 25 de agosto, quando é comemorado o Dia do Feirante, a rotina de dona Branca Seco da Costa Ferreira, 88, será a mesma que segue há cerca de 60 anos. Levantar antes do amanhecer e se preparar para a ida trabalho no tradicional Mercado Adolpho Lisboa, no Centro de Manaus. Do mesmo modo, Florentino Barbosa da Silva, 68 anos, há mais de 40 anos, também sai de casa nesse horário para ir ao trabalho no Adolpho Lisboa.
Os dois, que são alguns dos feirantes mais antigos em atividade, têm memórias importantes e raras a serem compartilhadas, fazendo jus à importância de ter uma data para celebrar essa profissão.
É importante dizer que o dia 25 de agosto foi escolhido em homenagem à primeira feira livre registrada no país, em 1914, mas o centenário Mercado Adolpho Lisboa começou já organizado e, claro, com características da época.
O acreano radicado em Manaus desde criança, Florentino Barbosa da Silva, orgulha-se de se manter trabalhando há mais de quatro décadas.
Ele começou como feirante no bairro de São José, mas lá ficou sem ponto e acabou convidado pelo então administrador do Adolpho Lisboa a ocupar um box e montar sua relojoaria.
Hoje, além de consertar relógios, vende bolsas tipo pochete, bonés, capa para celular, chapéu e rede. Trabalha de segunda a sábado, porque resolveu ter uma folga semanal. Mas diariamente, acorda às 4h da manhã, se arruma vai para a feira. Às vezes leva o almoço e fica até às 17h.
Nascido em Bom Destino, no Acre, chegou ao Amazonas de canoa, viajando pelo Rio Purus, aos três ou quatro anos. A mãe dele contava que evitava dar de beber a ele a água do Purus, com medo de fazer mal.
Em Manaus, já adulto, ainda chegou a trabalhar como empregado, mas logo veio o convite para vender e nessa profissão, achou seu destino e mantém clientes muitos antigos, alguns que vêm do Janauari, uma comunidade da zona rural da capital.
Divorciado, pai de três filhas, avô de seis netos, ele sustentou a família com o seu trabalho, aprendido na lida, como explica. “A gente aprende devagar essa atividade de vender em feira e a cada dia no mercado aprendo uma coisa nova”, explica Florentino.
Para ele, a receita do sucesso para esse trabalho em feiras e mercados é estar sempre de bom humor e procurar atender da melhor maneira os clientes.
Dona Branca
Quando começou a trabalhar na banca do marido, o também imigrante português Acácio Duarte Ferreira, já falecido, dona Branca Seco Ferreira, lembra-se muito bem de cenas do Mercado Adolpho Losboa que encantavam os turistas à época.
“O mercado era praticamente o comércio de estivas, peixes e carnes de boi, galinhas, tartarugas, carneiros, porcos, tudo devidamente em setores independentes que atraíam muito os turistas europeus”, afirma dona Branca, que veio de Portugal para Manaus aos 23 anos de idade, já formada em magistério, mas ao se casar, decidiu trabalhar com ele na feira.
Mãe de três filhos, dos quais o único homem administra a empresa, que é uma das mais antigas em funcionamento no Estado, dona Branca atribui o sucesso de seu trabalho a dedicação e o cuidado com que oferece os produtos alimentícios aos fregueses, alguns já filhos dos antigos clientes.
“Me dediquei com alma e coração a este trabalho, sei que a vida se tornou diferente do que eu sabia e conhecia, mas eu tinha um ideal e sabe-se que não tem como olhar para trás quando se começa um trabalho”, diz ela, conhecida por vender os melhores tipos de bacalhaus da cidade.
O segredo é escolher os exportadores que sabem a melhor época de pescar o peixe tão apreciado nas cozinhas de todo o mundo e o fazem chegar na venda dela a melhor versão do alimento. Outro segredo dela para ter clientes fiéis é que brinca, conversa e procura saber coisas novas
Há 63 anos em atividade, ela lembra-se do importante pedido a Deus para que nunca a deixasse desocupada e com isso, justifica o fato de continuar trabalhando todos os dias. Lúcida e saudável, não vê motivo para deixar a atividade e não honrar a bênção recebida de Deus.
Com um pouco de nostalgia, dona Branca lamenta o fato de as várias obras de reformas no Adolpho Lisboa terem modificado as características que marcavam o comércio tradicional e atraíam mais turistas estrangeiros.
“Quando eu ia a Portugal, as pessoas perguntavam sobre a fartura daqui de peixes como pirarucu. Naquele tempo, não vinham ver árvores, mas os peixes, isso ajudou muito o turismo”, conta ela.
Para dona Branca, mesmo que nesses tempos o povo do Amazonas viva com medo pela insegurança que domina o Estado, em particular ela se sente abençoada por estar lúcida, na ativa e sempre tendo em foco a máxima dos comerciantes: atender da melhor forma possível os clientes para torná-los bons amigos.





