Por Graça Barreto
ORA PRO NOBIS!
O SONHO ACABOU ...
Senhor, nos livre do Omar “Vim para sanear e moralizar a administração e as finanças dessa Universidade” . A missão está posta em plena execução! O novo modelo de universidade requer realinhamento, decapitação, desmonte e redução. Essas são, sinteticamente, as orientações do Governo do Estado aos “novos” gestores da Universidade do Estado do Amazonas. Para quê curso de Arte (dança e música, isso é coisa de...), de Matemática, de Economia, de Ciências Política, de Arqueologia, de Navegação, de Engenharia Florestal, de Climatologia, de Meio Ambiente? Curso Superior para índios, para quê? Índio é algo muito complexo! Para quê e por que Projetos Especiais? Esses cursos, na ótica dos novos gestores, oneram a Universidade, são os grandes vilões do orçamento.
O orçamento, definido em R$ 194 milhões, deve manter-se perenemente em torno desse valor. Por isso é necessário cortar o pé para caber no novo sapato; bosquejar a floresta para dar a ela um perfil enfileirado conforme a estética da nova ordem.
Se originalmente o orçamento da Universidade havia sido definido em termos de 1% da arrecadação fiscal do Distrito Industrial, os governos recentes congelaram a dotação de verbas para a instituição. Ela tem que se comportar como um organismo congelado!
Hoje a expansão, principalmente dos cursos voltados para a realidade amazônica e para o interior do Estado - função precípua da Universidade conforme seu estatuto original – é visto como algo anárquico e como resultado dos desmandos da gestão anterior. E, em última (ou primeira?) instância, todos os que fizeram parte dessa gestão, desde os seus intelectuais até o mais simples funcionário, que por ventura ali tenha sido encostado, são responsáveis pelos desmandos e devem receber a devida sanção moral: a demissão!
Implanta-se o terror! As palavras chaves que norteiam as ações da nova gestão são: “enxugar a máquina”, “padronizar”, “equalizar custo e ações”.
Não interessa muito sobre o quê incidem os cortes, não há interesse que avance: “seu projeto pode ser muito bonito”, mas não cabe no sapato orçamentário, logo, se deduz, é necessário cortar o pé; nada terá início ou terá continuidade, mesmo que conste no orçamento e tenha sido aprovado em todas as instâncias do poder executivo. Isto é, mesmo que a verba seja contigenciada, constar do orçamento não quer dizer liberação de verba. Então por que o Governo do Estado aprovou e faturou politicamente na mídia o lançamento dos Projetos Especiais?
Foi brincadeira de mau gosto? Quem é o verdadeiro vilão do orçamento, os Projetos Especiais? O que poucos atinam é que os Projetos Especiais se constituem uma parte importante da UEA, a parte dinâmica da Universidade do Estado do Amazonas, aquela que se adequa melhor à realidade interiorana.
Ela obedece a um calendário flexível e se adapta à diversidade da realidade econômica e cultural do Amazonas em toda a sua extensão. Pensar em substituir os projetos por cursos regulares é o mesmo que reduzir o raio de alcance das ações da UEA no interior do Estado.
Os Projetos Especiais foram parte da estratégia utilizada para alcançar, como nenhuma universidade, o imenso território do Amazonas: são eles que permitem a participação de alunos dos mais distantes lugarejos e comunidades nos cursos oferecidos pela UEA. Os cursos regulares, com calendário fixo, além de custosos, dão acesso ao aluno que mora na sede do município e excluem um número considerável de pessoas que não tem como ali se manter.
Subtrair os Projetos Especiais é o mesmo que cortar as artérias que ligam a UEA ao interior propriamente dito. Assim, com a máquina reduzida, a UEA desvia-se das funções que lhes foram destinadas e se torna uma universidade tradicional, elitizada e citadina. Isso, porém, não interessa aos “novos gestores”.
Mas não se pode dizer que os coordenadores dos Projetos Especiais não foram “ouvidos: a “nova gestão” fez questão de reunir, em particular, cada equipe responsável por cada um dos projetos e ordenar o “ritual do corte”. Afinal é preciso ouvir o último suspiro do decapitado, senão de que serviria a guilhotina se não desse ao moralizador algum prazer? Se não lhe revitalizasse o sentimento de vitória ou afirmasse a crença de que está imbuído de uma missão superior? Assim, cada suposto condenado tem que confessar individualmente o que faz, como gasta seu tempo, pra que serve e etc.
Cada um vale pelo que serve! Mas, apriori todos parecem ser ineficientes para tratar os temas que envolvem os próprios projetos: “índios é uma questão complexa, por isso é necessário que haja gente que entenda do assunto...”.
Quem será essa gente? Não interessa discutir com os autores dos projetos e as equipes a natureza dos projetos, como já disseram os novos gestores: “[...] o projeto pode ser bonito, mas onera o orçamento, transgride as normas de gerência” e podem representar o risco de processos sobre uma gestão que está enjaulada na burocracia e nas ordens do governador. É, portanto, preciso bosquejar a floresta, uma forma de enfileirá-la para o corte. Afinal o que é mesmo que está em questão?
O ato moral define a ética ou a ética antecede a moral? O moralista está sempre tendente a confundir as coisas e inverter o jogo pensando não estar sendo percebido.
Essas perguntas dão as chaves para abrir as portas que escondem o real projeto dos novos gestores: eles estão cerrando o universo futuro dessa Universidade, reduzindo-a, desmontando-a para realinhá-la em uma perspectiva velha e caduca, para matar o que fazia da UEA algo diferente.
É, na distinção entre a ética e a moral, imperceptível para um grande número de pessoas, que se desvelam as incongruências dos “novos gestores”. Para desvelar as ações é necessário desvelar os fins, as razões pelas quais os atos dos “novos gestores” se movem. São essas razões que revelam o momento exato em que a ação moral se descola inteiramente da ética e se transforma em atos constrangedores e autoritários, pautados na moral.
O discurso moral foi freqüentemente utilizado para fazer valer interesses de grupos que estão distantes de um projeto ético. Aliás, o discurso moral sempre fez parte do rol de ações de estados autoritários, como os fascistas. Os fascistas fizeram questão de confundir o plano ético submetendo-o ao plano moral. A discussão sobre a ética, tantas vezes interpretada como sinônimo de moral aparece exatamente na hora em que estamos frente às arbitrariedades que estão sendo cometidas na UEA, em nome da moral.
Se o fim indiscutível de toda ação humana é a felicidade, a tarefa da ética é averiguar como se chega a esse fim. Pois bem, por moral entende-se uma forma específica de comportamento humano, individual ou coletivo que se dá ou que se propõem como as coisas deveriam se ocorrer frente aquilo que se considera bem ou mal. A moral, submetida ao pensamento maniqueísta, um solo pantanoso feito de areias movediças (valores e preconceitos), está sempre exposta a equívocos, pois está mais aproxima do plano dogmático (indiscutível) ou ideológico, por isso mais próxima dos aspectos estáticos do que dos aspectos dinâmicos da sociedade.
Nessa perspectiva, o plano moralizador da “nova gestão” da UEA tem um sabor conservador e também um sabor político rançoso, porque se identifica com o “trabalho de grupos que agem em razão de interesses próprios, mesmo sacrificando as instituições públicas: não se está saneando, mas sangrando toda a capacidade orçamentária dos órgãos públicos para investir no jogo monetário das eleições.
Esse é o real significado do plano moralizador. Desvendada a irracionalidade que move o ato moralizador, demonstra-se como ele se distancia e está descolado da ética. A ética, ao contrário de acentuar as tendências dogmáticas da moral, é reflexiva, teórica e crítica à moral. A ética, ao apontar o ideal, revela-se como utopia cujo fim para todos os homens, como dizia Aristóteles, é indiscutivelmente a felicidade. Mas, nesse momento da UEA, parece que Deus e a História disputam a clarividência dos fatos e a explicação completa do curso predeterminado dos acontecimentos: uma razão de natureza misantropa rivaliza-se de modo obscurantista com a ciência e a filosofia, retirando da primeira o sentido dos fatos e da segunda a necessidade das idéias.
O moralizador transforma-se, desse modo, no verdugo: se à ética interessa a crítica, o desvelamento explicativo das razões que movem a ação moral; ao moralizador interessa suprimir a razão crítica, apostando na irracionalidade e no silêncio, na impossibilidade da justificativa de seus atos: “[...] você entende? Tudo é muito complexo! Assim diz o moralizador enquanto afaga os ombros daqueles que lhe parecem ingênuos.
São nas ações e nos gestos que as razões que regem “nova gestão” da UEA revelam-se: é necessário transformar o complexo em simplório, decompor, desmontar, tornar tudo mais simples pra governar. No lugar desta universidade que desafia a realidade amazônica, uma universidade simples gerenciável, empreendedora, “tradicional” e restrita ao âmbito citadino; uma universidade regida por razão pragmática e instrumental. Onde ficam os Projetos Especiais? Como não podem ser guilhotinados de imediato, pois isso implica em supressão de direitos dos alunos envolvidos, os projetos serão reduzidos e submetidos de um “escritório de projetos”, dotado um sistema tecnológico e gerencial pronto para administrar, pragmaticamente, as demandas de cada projeto: a questão pedagógica ficará reduzida a responder as demandas quantitativas de cada um desses projetos, independentes da sua especificidade qualitativa: “o coelho já nasce preparado para o corte”; não há necessidade de intelectuais, perda de tempo ou lucubração, as metas e os meios estão postos, basta cumpri-los.
A Universidade Aberta, que já era relativamente fechada, fica reduzida à “educação à distância”, o escritório de administração tecnológica deixará os alunos à mercê do autodidatismo. “Salve-se quem puder”! Pra que “mediação”? As máquinas por si falam, e o sucesso ou fracasso ficará sob responsabilidade de cada um. Se o sinal da internet não chegar até a sua comunidade e você não estiver plugado, corra para o centro mais próximo, por conta própria, e aceite um “aconselhador” virtual para tirar as dúvidas. Enfim, a nova gestão expõe a força do mito tecnológico onde as máquinas substituem as pessoas.
A máquina é limpa, não cobra encargos sociais, não reclama, não protesta, só processa. O coelho posto na “entrada” da máquina se encarregará de levar até você a “carne processada”, pronta para o consumo: mágica modernidade! Assim teremos um prédio vazio, limpo e enxuto e, se duvidarem, para fazer essa tarefa basta algumas poucas pessoas: um administrador para avaliar a entrada e saída monetária dos recursos em termos de custo/benefício; um engenheiro florestal para bosquejar a floresta e impedir que as ervas daninhas nasçam; a escritório de projetos dotado de tecnologia capaz de gerenciar e avaliar as demandas, vendáveis ou executáveis. Salve ó grande mestre. “Ora pro nobis”.
Graça Barreto é professora da Universidade Estadual do Amazonas. Atualmente se encontra na região de Braga, na cidade de Barcelos, Portgual, onde participa de um curso de doutorado
ORA PRO NOBIS!
O SONHO ACABOU ...
Senhor, nos livre do Omar “Vim para sanear e moralizar a administração e as finanças dessa Universidade” . A missão está posta em plena execução! O novo modelo de universidade requer realinhamento, decapitação, desmonte e redução. Essas são, sinteticamente, as orientações do Governo do Estado aos “novos” gestores da Universidade do Estado do Amazonas. Para quê curso de Arte (dança e música, isso é coisa de...), de Matemática, de Economia, de Ciências Política, de Arqueologia, de Navegação, de Engenharia Florestal, de Climatologia, de Meio Ambiente? Curso Superior para índios, para quê? Índio é algo muito complexo! Para quê e por que Projetos Especiais? Esses cursos, na ótica dos novos gestores, oneram a Universidade, são os grandes vilões do orçamento.
O orçamento, definido em R$ 194 milhões, deve manter-se perenemente em torno desse valor. Por isso é necessário cortar o pé para caber no novo sapato; bosquejar a floresta para dar a ela um perfil enfileirado conforme a estética da nova ordem.
Se originalmente o orçamento da Universidade havia sido definido em termos de 1% da arrecadação fiscal do Distrito Industrial, os governos recentes congelaram a dotação de verbas para a instituição. Ela tem que se comportar como um organismo congelado!
Hoje a expansão, principalmente dos cursos voltados para a realidade amazônica e para o interior do Estado - função precípua da Universidade conforme seu estatuto original – é visto como algo anárquico e como resultado dos desmandos da gestão anterior. E, em última (ou primeira?) instância, todos os que fizeram parte dessa gestão, desde os seus intelectuais até o mais simples funcionário, que por ventura ali tenha sido encostado, são responsáveis pelos desmandos e devem receber a devida sanção moral: a demissão!
Implanta-se o terror! As palavras chaves que norteiam as ações da nova gestão são: “enxugar a máquina”, “padronizar”, “equalizar custo e ações”.
Não interessa muito sobre o quê incidem os cortes, não há interesse que avance: “seu projeto pode ser muito bonito”, mas não cabe no sapato orçamentário, logo, se deduz, é necessário cortar o pé; nada terá início ou terá continuidade, mesmo que conste no orçamento e tenha sido aprovado em todas as instâncias do poder executivo. Isto é, mesmo que a verba seja contigenciada, constar do orçamento não quer dizer liberação de verba. Então por que o Governo do Estado aprovou e faturou politicamente na mídia o lançamento dos Projetos Especiais?
Foi brincadeira de mau gosto? Quem é o verdadeiro vilão do orçamento, os Projetos Especiais? O que poucos atinam é que os Projetos Especiais se constituem uma parte importante da UEA, a parte dinâmica da Universidade do Estado do Amazonas, aquela que se adequa melhor à realidade interiorana.
Ela obedece a um calendário flexível e se adapta à diversidade da realidade econômica e cultural do Amazonas em toda a sua extensão. Pensar em substituir os projetos por cursos regulares é o mesmo que reduzir o raio de alcance das ações da UEA no interior do Estado.
Os Projetos Especiais foram parte da estratégia utilizada para alcançar, como nenhuma universidade, o imenso território do Amazonas: são eles que permitem a participação de alunos dos mais distantes lugarejos e comunidades nos cursos oferecidos pela UEA. Os cursos regulares, com calendário fixo, além de custosos, dão acesso ao aluno que mora na sede do município e excluem um número considerável de pessoas que não tem como ali se manter.
Subtrair os Projetos Especiais é o mesmo que cortar as artérias que ligam a UEA ao interior propriamente dito. Assim, com a máquina reduzida, a UEA desvia-se das funções que lhes foram destinadas e se torna uma universidade tradicional, elitizada e citadina. Isso, porém, não interessa aos “novos gestores”.
Mas não se pode dizer que os coordenadores dos Projetos Especiais não foram “ouvidos: a “nova gestão” fez questão de reunir, em particular, cada equipe responsável por cada um dos projetos e ordenar o “ritual do corte”. Afinal é preciso ouvir o último suspiro do decapitado, senão de que serviria a guilhotina se não desse ao moralizador algum prazer? Se não lhe revitalizasse o sentimento de vitória ou afirmasse a crença de que está imbuído de uma missão superior? Assim, cada suposto condenado tem que confessar individualmente o que faz, como gasta seu tempo, pra que serve e etc.
Cada um vale pelo que serve! Mas, apriori todos parecem ser ineficientes para tratar os temas que envolvem os próprios projetos: “índios é uma questão complexa, por isso é necessário que haja gente que entenda do assunto...”.
Quem será essa gente? Não interessa discutir com os autores dos projetos e as equipes a natureza dos projetos, como já disseram os novos gestores: “[...] o projeto pode ser bonito, mas onera o orçamento, transgride as normas de gerência” e podem representar o risco de processos sobre uma gestão que está enjaulada na burocracia e nas ordens do governador. É, portanto, preciso bosquejar a floresta, uma forma de enfileirá-la para o corte. Afinal o que é mesmo que está em questão?
O ato moral define a ética ou a ética antecede a moral? O moralista está sempre tendente a confundir as coisas e inverter o jogo pensando não estar sendo percebido.
Essas perguntas dão as chaves para abrir as portas que escondem o real projeto dos novos gestores: eles estão cerrando o universo futuro dessa Universidade, reduzindo-a, desmontando-a para realinhá-la em uma perspectiva velha e caduca, para matar o que fazia da UEA algo diferente.
É, na distinção entre a ética e a moral, imperceptível para um grande número de pessoas, que se desvelam as incongruências dos “novos gestores”. Para desvelar as ações é necessário desvelar os fins, as razões pelas quais os atos dos “novos gestores” se movem. São essas razões que revelam o momento exato em que a ação moral se descola inteiramente da ética e se transforma em atos constrangedores e autoritários, pautados na moral.
O discurso moral foi freqüentemente utilizado para fazer valer interesses de grupos que estão distantes de um projeto ético. Aliás, o discurso moral sempre fez parte do rol de ações de estados autoritários, como os fascistas. Os fascistas fizeram questão de confundir o plano ético submetendo-o ao plano moral. A discussão sobre a ética, tantas vezes interpretada como sinônimo de moral aparece exatamente na hora em que estamos frente às arbitrariedades que estão sendo cometidas na UEA, em nome da moral.
Se o fim indiscutível de toda ação humana é a felicidade, a tarefa da ética é averiguar como se chega a esse fim. Pois bem, por moral entende-se uma forma específica de comportamento humano, individual ou coletivo que se dá ou que se propõem como as coisas deveriam se ocorrer frente aquilo que se considera bem ou mal. A moral, submetida ao pensamento maniqueísta, um solo pantanoso feito de areias movediças (valores e preconceitos), está sempre exposta a equívocos, pois está mais aproxima do plano dogmático (indiscutível) ou ideológico, por isso mais próxima dos aspectos estáticos do que dos aspectos dinâmicos da sociedade.
Nessa perspectiva, o plano moralizador da “nova gestão” da UEA tem um sabor conservador e também um sabor político rançoso, porque se identifica com o “trabalho de grupos que agem em razão de interesses próprios, mesmo sacrificando as instituições públicas: não se está saneando, mas sangrando toda a capacidade orçamentária dos órgãos públicos para investir no jogo monetário das eleições.
Esse é o real significado do plano moralizador. Desvendada a irracionalidade que move o ato moralizador, demonstra-se como ele se distancia e está descolado da ética. A ética, ao contrário de acentuar as tendências dogmáticas da moral, é reflexiva, teórica e crítica à moral. A ética, ao apontar o ideal, revela-se como utopia cujo fim para todos os homens, como dizia Aristóteles, é indiscutivelmente a felicidade. Mas, nesse momento da UEA, parece que Deus e a História disputam a clarividência dos fatos e a explicação completa do curso predeterminado dos acontecimentos: uma razão de natureza misantropa rivaliza-se de modo obscurantista com a ciência e a filosofia, retirando da primeira o sentido dos fatos e da segunda a necessidade das idéias.
O moralizador transforma-se, desse modo, no verdugo: se à ética interessa a crítica, o desvelamento explicativo das razões que movem a ação moral; ao moralizador interessa suprimir a razão crítica, apostando na irracionalidade e no silêncio, na impossibilidade da justificativa de seus atos: “[...] você entende? Tudo é muito complexo! Assim diz o moralizador enquanto afaga os ombros daqueles que lhe parecem ingênuos.
São nas ações e nos gestos que as razões que regem “nova gestão” da UEA revelam-se: é necessário transformar o complexo em simplório, decompor, desmontar, tornar tudo mais simples pra governar. No lugar desta universidade que desafia a realidade amazônica, uma universidade simples gerenciável, empreendedora, “tradicional” e restrita ao âmbito citadino; uma universidade regida por razão pragmática e instrumental. Onde ficam os Projetos Especiais? Como não podem ser guilhotinados de imediato, pois isso implica em supressão de direitos dos alunos envolvidos, os projetos serão reduzidos e submetidos de um “escritório de projetos”, dotado um sistema tecnológico e gerencial pronto para administrar, pragmaticamente, as demandas de cada projeto: a questão pedagógica ficará reduzida a responder as demandas quantitativas de cada um desses projetos, independentes da sua especificidade qualitativa: “o coelho já nasce preparado para o corte”; não há necessidade de intelectuais, perda de tempo ou lucubração, as metas e os meios estão postos, basta cumpri-los.
A Universidade Aberta, que já era relativamente fechada, fica reduzida à “educação à distância”, o escritório de administração tecnológica deixará os alunos à mercê do autodidatismo. “Salve-se quem puder”! Pra que “mediação”? As máquinas por si falam, e o sucesso ou fracasso ficará sob responsabilidade de cada um. Se o sinal da internet não chegar até a sua comunidade e você não estiver plugado, corra para o centro mais próximo, por conta própria, e aceite um “aconselhador” virtual para tirar as dúvidas. Enfim, a nova gestão expõe a força do mito tecnológico onde as máquinas substituem as pessoas.
A máquina é limpa, não cobra encargos sociais, não reclama, não protesta, só processa. O coelho posto na “entrada” da máquina se encarregará de levar até você a “carne processada”, pronta para o consumo: mágica modernidade! Assim teremos um prédio vazio, limpo e enxuto e, se duvidarem, para fazer essa tarefa basta algumas poucas pessoas: um administrador para avaliar a entrada e saída monetária dos recursos em termos de custo/benefício; um engenheiro florestal para bosquejar a floresta e impedir que as ervas daninhas nasçam; a escritório de projetos dotado de tecnologia capaz de gerenciar e avaliar as demandas, vendáveis ou executáveis. Salve ó grande mestre. “Ora pro nobis”.
Graça Barreto é professora da Universidade Estadual do Amazonas. Atualmente se encontra na região de Braga, na cidade de Barcelos, Portgual, onde participa de um curso de doutorado
