Por Ana Celia Ossame, especial para Portal do Holanda
Os primeiros casos de hanseníase, uma das doenças mais estigmatizadas do Planeta, foram notificados no Brasil nos anos de 1600, mas hoje o país é o segundo do mundo em número de casos. No Brasil em 2022, foram diagnosticados 19.635 casos novos de hanseníase, com uma taxa de detecção de 9,67/100 mil habitantes. No Amazonas, em 2023 foram detectados 310 casos novos, inclusive em adolescentes.
Esse cenário só reforça a importância das campanhas de conscientização e educação em saúde, afirma dermatologista Silmara Navarro Pennini, médica e pesquisadora da Fundação Hospitalar de Dermatologia Tropical e Venereologia Alfredo da Matta (Fuham), centro de referência mundial na área, no lançamento da campanha Janeiro Roxo, com uma série de ações que vão culminar no Dia Mundial de Combate à Hanseníase, celebrado no último domingo de Janeiro.
Silmara, que tem é doutora em tratamento de leishmaniose, destaca os projetos de pesquisa que vêm sendo desenvolvidos na Fuham, alguns há décadas, e lamenta que a hanseníase ainda seja uma doença negligenciada, como define a Organização Mundial de Saúde (OMS).
Um dado importante é a redução do tempo de tratamento no Brasil, que era de 10 anos e agora está em um ano. “Trabalhamos com pesquisas e oferecendo aos pacientes as novas oportunidades e a redução do tratamento permite ao paciente tomar o remédio regularmente em um período mais curto, evitando a interrupção, que torna o bacilo mais resistente ao antibiótico”, explica Silmara.
Outro indicador que merece destaque é o alto percentual de cura dos pacientes, que no Amazonas é superior ao do Brasil. Em 2022 o Brasil alcançou 76,2%, resultado considerado regular, enquanto do Amazonas o percentual de 94,3% de cura, sendo o melhor resultado no Brasil.
Para a médica, no entanto, ver crianças e jovens se contaminando ainda hoje é um indicativo de que a doença não foi controlada, isso porque como o período de incubação é grande, demonstra haver casos de pessoas sem tratamento lançando o bacilo causador da doença
O estigma criado em torno da doença leva ao medo dos pacientes em buscar um diagnóstico e o tratamento, que é gratuito e disponível em todas as unidades de saúde do Estado. “O medo da discriminação leva alguns pacientes a buscar a capital para fazer o tratamento com medo de ser identificado como doente”, explica a médica, chamando a atenção para o fato de muitos nem saberem que a hanseníase é a antiga lepra, que no século passado, quando ainda não havia tratamento, causava muitas sequelas físicas nos doentes.
Hoje, são raros os casos de mutilação, mas ainda existem, segundo ela, porque às vezes as pessoas passam por unidades de saúde e não são diagnosticadas.
Silmara cita o caso de um paciente recente que chegou até a ela com infiltrações, congestão nasal e outros sintomas típicos da doença depois de ter passado por cinco unidades de saúde sem ser diagnosticado. “Ele foi dado como suspeito de rinite, sífilis e muitas hipóteses, mas era hanseníase”, afirmou ela, chamando a atenção para a importância da formação dos agentes de saúde que fazem o atendimento inicial.
A alta rotatividade de agentes de saúde capacitados e a redução do quadro de médicos especialistas, especialmente no interior, é um problema para o diagnóstico e tratamento dessa doença, que está presente em 42 municípios do Estado.
Entre os sintomas iniciais, podem aparecer como uma mancha e placas com bordas elevadas, semelhantes a uma impinge, sem sensibilidade térmica e sem coceira, que depois tornam-se dolorosas. Em casos mais avançados aparecem mais lesões, o que leva o paciente a buscar atendimento.
Nos casos mais avançados, há dormência das mãos e pés e nesse estágio começam os problemas maiores: o paciente começa a se queimar e fazer ferimentos, por não sentir dor e também há diminuição de força.
O importante, segundo a dermatologista, é que ao tomar a medicação como indicado o paciente deixa de transmitir a doença, que atinge hoje mais homens que mulheres, explica a dermatologista.
Para Silmara, diante desse cenário, é preocupante ver a falta de incentivos do Estado aos médicos da área, que são cada vez mais raros e optam por atuar em outras áreas da dermatologia. “Faltam também concursos e planos de carreira e salários para atrair os profissionais para o serviço público”, destaca a médica, para quem uma área tão sensível e importante da saúde deveria ter mais atenção e investimentos da administração pública.

