Contar histórias é oferecer, sobretudo aos mais novos, ao mesmo tempo um espelho retrovisor e um para-brisas, limpo e transparente, para que a vida não se perca no caminho da modernidade e não negue e nem apague o passado.
Com essa proposta, os irmãos José Dantas Cyrino Júnior, mais conhecido como Zeca, e Públio Caio Bessa Cyrino, lançam, no próximo dia 29, o livro de memórias “O Porão da Casa 380”, no qual situam um período da infância deles na rua, no bairro e na cidade de Manaus, vivida entre os anos de 1960 a 1970 do século passado semelhante a de muitos manauaras.
Com criatividade, humor e muita habilidade na escrita e nas lembranças, Zeca Cyrino, professor aposentado da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com larga história nos movimentos sociais pela educação, inclusive tendo sido secretário municipal de Educação, e Públio Caio, que hoje é procurador de Justiça do Ministério Público do Amazonas (MPAM), reuniram no livro que, segundo eles, estava pronto, faltava apenas ser editado, saborosas memórias que precisavam da escrita para serem eternizadas.
De acordo com Zeca Cyrino, o livro é contextualizado na década de 1960 até a 1970, num corte temporal feito em função da infância deles até a morte do pai.
Na casa 380 nasceram os seis irmãos, por mãos de parteiras. Cinco anos mais velho que Públio, Zeca conta que a infância foi de momentos felizes. “Não éramos ricos, mas tínhamos tudo, até porque não se precisava de muito naquele tempo, não precisava de carro, íamos a pé para escola, para igreja”, diz ele.
Com apresentações do escritor Élson Farias e do professor aposentado da Ufam, João Bosco Bezerra de Araújo e será lançado no dia 29, a partir das 19h, no Centro Cultural Palácio Rio Negro, na Avenida Sete de Setembro, Centro.
A obra está dividida em três cortes temporais, sendo o primeiro situando geograficamente na rua Monsenhor Coutinho, nº 380, no bairro de Aparecida, lugar privilegiado onde, segundo Zeca, moraram empresários, professores e artistas, destaca Públio Caio.
Tanto que, apesar de ser de memória familiar, traz alguns elementos históricos da cidade, mostrando por exemplo quem foi Monsenhor Coutinho, que deu nome à rua, além de relatos sobre prédios históricos que foram demolidos.
A rua era calçada de paralelepidedo e a iluminação a gás. “Naquela época, o fornecimento de energia elétrica era limitado às 22h e 15 minutos antes a companhia elétrica piscava três vezes para avisar que iria cessar o fornecimento”, conta o professor.
A inexistência da televisão estimulava o lazer e as relações entre as famílias, pois sobrava tempo para brincadeiras e conversas nas calçadas e e ruas. “Isso favorecia nossa criatividade, éramos cientistas muitas vezes, construíamos coisas e inventávamos histórias engraçadas”, lembra Zeca.
No segundo capítulo, estão as crônicas das peraltices, algumas da rua e da família. E no terceiro, cada autor escreveu textos de homenagens à mãe e pai, ambos funcionários públicos, de acordo com as vivências de cada um.
Uma 'peraltice' destacada da obra era tocar a campainha de uma casa “misteriosa” situada da esquina da Rua 10 de Julho até a Monsenhor Coutinho e se esconder, até que foram flagrados com um balde de água fria lançado de uma das janelas.
Sobre o porão da casa 380 é definido como “lugar de encantarias”, onde aconteciam as brincadeiras que reuniam não só os irmãos, mas os vizinhos dos arredores, principalmente para as criações de brinquedos como “perna de pau”, “latas com alças de arame”, “telefones sem fios feitos de copos plásticos”, “jogos de botões feitos de caroço de tucumãs” e “carrinhos de rolamentos” hoje chamados de carrinhos de rolimã. Com os brinquedos surgiam os campeonatos de disputas entre eles.
À noite, a pouca iluminação da Rua Monsenhor Coutinho, passagem dos estudantes do antigo Instituto de Educação do Amazonas (IEA), era a senha para a criatividade. Uma das traquinagens era amarrar uma cédula de 1 cruzeiro em uma linha fina que não aparecesse devido à baixa iluminação e deixá-la na calçada como se fosse perdida.
Quando o estudante se abaixava para pegar a nota, era puxada rapidamente, deixando-o com as mãos ao ar ouvindo gritaria dos autores da brincadeira.
Outras lembranças deliciosas foram da merenda da tarde, composta sempre por bolachas doce e ki suco, da chegada da primeira geladeira Frigidaire e do asfaltamento da rua, que reuniu testemunhas incansáveis no acompanhamento do trabalho.
Após a morte do pai ocorrida em 1969, a família mudou-se para a casa 88 do Beco da Indústria, no Bairro de Aparecida, onde continuaram as aventuras cujas lembranças estão registradas no livro.
Para os irmãos José Cyrino e Públio Caio, o livro que faz rir, emociona e traz especialmente como mensagem a importância de contar histórias, hábito que se perdeu após o aparecimento da televisão e pelo pragmatismo da vida velocidade da informação. Mesmo assim, deixam o ensinamento. “Para ser alguém tem que ter história para contar histórias e por isso, tem que ouvir e viver histórias”.

