Por Ana Celia Ossame, Especial para Portal do Holanda
Mesmo com o registro de mortes por Covid-19 em crianças menores de cinco anos, o índice de vacinação nessa faixa etária continua baixo em todo o país, conforme alerta da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Apenas cerca de 28,1% dessa faixa etária finalizou o esquema vacinal com duas ou três doses, o que indica uma cobertura vacinal completa de apenas 11,4% para esta faixa etária.
No Amazonas, a cobertura vacinal primária contra Covid-19, com duas doses ou dose única é de 19,8% nas crianças de seis meses a 4 anos de idade, segundo dados do site da Fundação de Vigilância em Saúde Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP).
No Brasil, entre janeiro até o último dia 11 de julho deste ano, foram registrados 80 óbitos por Covid-19 de crianças até 4 anos de idade, de acordo com o “Boletim Epidemiológico Especial: Covid-19” da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, dado que gerou alerta da Fiocruz.
Do total de óbitos, 23 foram de crianças entre 1 e 4 anos, o que representa uma média de aproximadamente 1 óbito semanal neste grupo etário. Durante o mesmo intervalo, foram contabilizadas 2.764 hospitalizações pela doença, sendo que 994 delas envolveram crianças de 1 a 4 anos. No Amazonas, o índice de óbitos na faixa etária menor de cinco anos é de 0,6%.
A queda na cobertura vacinal de crianças tanto para Covid quanto para outras doenças faz parte de uma trágica realidade no Brasil, anterior a pandemia de Covid-19 e passa pelo gradativo estrangulamento do Sistema Único de Saúde (SUS) e pela má gestão do Programa Nacional de Imunizações (PNI), afirma o epidemiologista da Fiocruz Amazônia, Jesem Orellana.
Esses índices, no entanto, foram ainda mais acentuados durante a pandemia, com um anômalo padrão de baixíssima cobertura para a vacina que, comprovadamente, protege contra casos graves e mortes por Covid-19, observa ele.
“É algo realmente paradoxal, pois estamos falando de uma doença que vitimou fatalmente cerca de 705 mil pessoas no Brasil e cerca de 7 milhões no planeta, incluindo crianças”, argumenta ele, afirmando que entre as causas das baixas coberturas da vacina está a falsa crença de que a doença não mata criança pequena, o que contrasta com as centenas de crianças que morreram pela doença no Brasil, ao longo da epidemia.
Outra informação enganosa é que a vacina pode gerar efeitos adversos graves ou até mesmo matar essas crianças, especialmente as menores de 2 anos.
“Na realidade, ocorre exatamente o contrário, pois crianças vacinadas são crianças protegidas com o aval da ciência e dos dados do mundo real”, assegura Orellana.
O epidemiologista cita outros fatores que contribuem para esse quadro que podem estar relacionados aos serviços de saúde, pois muitas crianças não conseguem ser captadas para vacinação nem dentro e nem fora dessas unidades, o que é agravado pela baixa efetividade de campanhas.
Há também o fracasso do Estado brasileiro encontrar mecanismos efetivos para fazer com que pais e responsáveis vacinem essas crianças, seja na escola ou em contato com programas e outras estruturas do poder público ou mesmo privado”, afirma.
Para Orellana, é mais difícil mudar esse quadro diante da facilidade com que foram descontruídas as crenças positivas em relação às vacinas, sobretudo em tempos de polarização política e caótica disseminação de toda sorte mentiras sobre a eficácia e segurança dessas vacinas.
Por isso, defende a intensificação de campanhas, dentro e fora das unidades de saúde, escolas, igrejas, shoppings, redes sociais, meios de transporte, bem como melhorar as condições de infraestrutura e de trabalho do pessoal de saúde nos “postos de vacinação”.
Ao finalizar, ele sugere às autoridades da área da saúde a implementação de medidas mais duras para induzir pais e responsáveis a vacinarem seus filhos, incluindo penalidades diversas, pois estamos falando de medidas de saúde pública que protegem o coletivo. “Portanto, algo que está muito além de impressões ou opiniões particulares”, assegura.

