Início Variedades Urbanismo social nasce no Rio, inspira combate ao crime no exterior, mas é raro no Brasil
Variedades

Urbanismo social nasce no Rio, inspira combate ao crime no exterior, mas é raro no Brasil

Envie
Envie

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Inaugurado em 2011 como um marco da retomada pelo poder público de um território dominado pelo narcotráfico, o teleférico do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, está desativado desde 2016 por falta de manutenção.

Inoperante, o equipamento simboliza como o país tem dificuldade em dar continuidade a projetos de urbanismo social, a estratégia que integra áreas vulneráveis à cidade com a intenção de reduzir atividades criminosas.

Vem da colombiana Medellín a mais reconhecida experiência nesse sentido. Atribui-se ao que foi realizado no território dominado pelo cartel de Pablo Escobar até os anos 1990 o surgimento da expressão urbanismo social, conta Carlos Leite, diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie.

Conexões via teleférico a comunidades marginalizadas e, nelas, a instalação dos chamados "equipamentos âncora", prédios com arquitetura de alta qualidade para ofertar ampla gama de serviços públicos, formaram a base desse plano.

A pacificação de Medellín é, porém, um processo multifacetado. Antes da adoção da estratégia urbanística na gestão do ex-prefeito Sergio Fajardo -de 2003 a 2007-, houve uma controversa atuação de grupos paramilitares ilegais aos quais também se atribuiu a desestabilização local do cartel.

Foi a continuidade do projeto de transformação urbana, porém, o principal responsável pela redução contínua da taxa de homicídios, caindo de mais de 390 por 100 mil habitantes em 1991 -época em que a cidade era a mais violenta do mundo- para 11 no ano passado, quase metade da taxa do Rio de Janeiro, de 20 mortes violentas intencionais por 100 mil pessoas.

O Rio deu sinais de que tomaria um caminho semelhante ao de Medellín há 15 anos, quando o Complexo do Alemão foi retomado pelo Estado após uma ampla ação envolvendo policiais civis, militares, federais, além de integrantes das Forças Armadas.

A reboque da operação, chegaram o teleférico e a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), modelo de polícia comunitária descontinuado diante da necessidade dos altos investimentos para sustentar a sua permanência em áreas muito amplas.

As 121 mortes na operação policial no final de outubro passado na mesma região evidenciam que as estratégias de pacificação e integração não alcançaram seus objetivos.

O Governo do Rio de Janeiro informou que investiu R$ 240 milhões no teleférico do Alemão, que será restabelecido no próximo ano. A gestão de Cláudio Castro (PL) também afirmou ter aplicado mais de R$ 170 milhões em habitação na região, além de levar desde 2022 o conceito de urbanismo social a comunidades como Jacarezinho, Manguinhos, Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, Rio das Pedras, Corredor Itanhangá e Cesarão.

Copiar o modelo colombiano não basta para fazer o plano funcionar, diz o ex-gerente-geral da Empresa de Desenvolvimento Urbano da gestão Fajardo, o urbanista Alejandro Echeverri.

"Não é funcional simplesmente copiar a experiência de um lugar para outro. Nós, na Colômbia, também aprendemos muito com o Brasil. O importante é entender o processo que levou cada cidade a resolver seus problemas. Se você entende isso, então você pode trazer essa ideia e a adaptar", diz o urbanista.

Echeverri foi literal ao afirmar que a Colômbia aprendeu com o Brasil. Medellín buscou inspiração no Rio. Precisamente no projeto Favela-Bairro, implantado nos anos 1990 pela prefeitura. O programa apoiado por financiamentos internacionais levava o básico às favelas: abertura de vias de acesso seguras, água, esgoto e drenagem.

Antes da criação do conceito de urbanismo social, portanto, a iniciativa carioca colocava pela primeira vez no planejamento urbano áreas vulneráveis onde à época vivia quase um quinto da população de 5,5 milhões de pessoas do município.

Com a proposta de arruamentos desenhada pelo arquiteto Sérgio Magalhães para integrar comunidades carentes aos bairros, o Rio alcançou razoável sucesso em localidades como Vigário Geral, diz Eliana Sousa Silva, professora do Centro de Estudos das Cidades do Insper.

Mas a descontinuidade do projeto, nos início dos anos 2000, deixou de fora vastas áreas, como o Complexo da Maré, onde ela fundou a ONG Redes de Desenvolvimento da Maré. "A violência territorializada resulta da falta de reconhecimento dessas regiões como locais que precisam de investimentos básicos", afirma.

Existem, porém, dois projetos brasileiros apontados pelos especialistas como exemplos de urbanismo social que, embora estejam em capitais com elevados índices de mortes violentas, se destacam por permanecerem ativos e com resultados nos bairros específicos em que foram implantados.

O mais recente deles foi instituído em 2019 pelo governo do Pará. A política de inclusão social e redução da violência no estado foi batizada de Territórios pela Paz, hoje mais conhecida pelo nome dos seus equipamentos âncoras, as Usinas da Paz.

A instalação dos equipamentos também foi precedida por uma ação policial tática, depois convertida em policiamento comunitário. A presença constante do poder público por meio da oferta de serviços, lazer e cultura é, no entanto, considerada a responsável por alguns bons resultados contra a criminalidade em Belém, como a queda de 31% nos roubos no bairro da Cabanagem de 2021 a 2022.

Com a mesma proposta de prevenir a violência pela oferta de serviços públicos e atividades recreativas, a Prefeitura do Recife criou o Compaz (Centro Comunitário da Paz) em 2016, escolhido pela organização Oxfam em 2019 como o melhor projeto do país para a redução da desigualdade.

Ex-secretário de Segurança Cidadã responsável pela implantação do projeto, Murilo Cavalcanti acaba de retornar da sua 50ª viagem à Colômbia, cuja capital Bogotá e, claro, Medellín serviram de inspiração para o projeto recifense.

Cavalcanti é considerado por alguns urbanistas como o principal especialista brasileiro da estratégia colombiana de combate à criminalidade. Mas a explicação dele para um projeto social urbano de combate à violência é simples: a iniciativa deve apresentar alternativa ao tráfico para os mais jovens.

"Um projeto como o Compaz mostra uma luz para crianças e adolescentes outrora oferecida apenas pelo nacortráfico", diz Cavalcanti.

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?