Tornados só podem ser previstos com até 20 minutos de antecedência, diz especialista
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Tornados como o que atingiu a cidade de Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, durante uma tempestade severa na última sexta-feira (7), se formam rapidamente e só podem ser previstos com precisão, no máximo, com 20 minutos de antecedência, segundo especialistas.
"Uma vez que as tempestades já se formaram, os radares permitem identificar ventos com rotação que podem dar origem a tornados", diz Ernani Nascimento, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e integrante do Prevots, grupo independente de meteorologistas que acompanha a formação de tempestades severas no país.
Nesta segunda-feira (10), o Simepar (Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná) confirmou que o estado foi atingido por três tornados, nas cidades de Rio Bonito do Iguaçu, Turvo e Guarapuava. O órgão estadual classificou o tornado de maior intensidade como F3, com ventos estimados entre 300 km/h e 330 km/h, diferente da análise do Prevots -a escala vai de F0 a F5.
A região devastada pelos ventos na última sexta é propícia à formação desse fenômeno meteorológico por ser local de encontro da umidade da Amazônia com o tempo seco e frio que vem da Argentina por meio de massa de ar polar da frente fria que atingiu a região. "A umidade é parte do combustível das tempestades por deixar a atmosfera instável", diz o pesquisador Nascimento.
Quando esse encontro acontece, há movimento vertical do vento, que fica fraco ao nível da superfície e extremamente forte a uma altura de até 1.000 metros, o que favorece a formação dos tornados. "Nos últimos 40 anos, observamos aumento da frequência desses fenômenos na primavera, com situações atmosféricas favoráveis a tempestades severas", diz Nascimento.
Para a professora Ana Ávila, pesquisadora no Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas em Agricultura (Cepagri) da Unicamp, a previsão dos tornados é dificultada pela imprevisibilidade dos fatores responsáveis pela sua formação.
"O tornado forma o giro rápido devido ao cisalhamento do vento, que circula de forma intensa em correntes ascendentes e descendentes, da superfície para a atmosfera e vice-versa, e em diferentes direções", diz. "Para ter uma tempestade como essa, há atuação de vários fatores", continua.
Apenas uma parte deles são detectados pelos radares meteorológicos, de acordo com a professora, como o ciclone extratropical que deixou a atmosfera fria ao se chocar contra o ar úmido e quente. "É um choque muito grande que gera o tornado e micro-explosões de vento."
Além do favorecimento da região para a formação de ciclones, o desmatamento acentuado devido ao avanço da agricultura nessa pode levar à maior frequência de ocorrências desses eventos, segundo Francisco Mendonça, coordenador do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação em Emergências Climáticas da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Ele cita que Rio Bonito do Iguaçu, onde ocorreu a maior devastação, é ocupada atualmente por 24% de floresta nativa, e em 1985 era 56,8%. "Com a maior urbanização, os ventos adquirem maior velocidade já que as cidades servem como anteparo para os vendavais que, quando atinge esses lugares, causam grande destruição."
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