NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS) - Em 2012, o furacão Sandy atingiu a cidade de Nova York, deixou 43 mortos, inundou 132 km² (cerca de 18 mil campos de futebol) e causou um prejuízo estimado em US$ 19 bilhões (R$ 103 bi, na conversão atual). 98% das construções destruídas eram antigas, de antes de 1983.
A prefeitura, então comandada pelo bilionário Michael Bloomberg, encomendou um estudo para tentar descobrir como evitar que aquilo acontecesse novamente e descobriu que, com o aumento do nível do mar e os efeitos da mudança climática, caso a mesma tempestade passasse pela cidade no ano de 2050, o dano seria de quase US$ 90 bilhões (R$ 487 bi).
Isso ligou o alerta e deu início a um trabalho para adaptar Nova York, alterando as áreas que devem ser habitadas e a forma de se construir prédios e casas, para fazê-la mais resiliente.
O Grupo de Engenharia das Forças Armadas dos EUA ficou com a missão de descobrir como evitar que a cidade fosse engolida por enchentes, tanto na passagem de furacões, mas também pelas projeções de elevação no nível do mar.
Em 2023, como parte deste trabalho, o grupo anunciou um projeto de US$ 52 bilhões (R$ 281 bi) para criação de diques e a reconstrução da zona costeira de Nova York --e que agora está sob risco.
Duas pessoas que atuam com adaptação na cidade relataram à Folha, sob anonimato, o temor de que essa iniciativa seja suspensa pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Isso porque ele já fez isso, durante sua primeira passagem pela Casa Branca, entre 2017 e 2021, e há o temor que isso se repita --os estudos foram reiniciados durante a gestão de Joe Biden,
Desde que Trump voltou à presidência, em 2025, ele vem implementando uma agenda antiambiental ainda mais rígida do que durante o seu primeiro mandato, cancelando iniciativas de combate às mudanças climáticas e de transição energética.
No início de outubro, a Casa Branca suspendeu o financiamento de US$ 18 bilhões (R$ 97 bi) a um projeto de Nova York que pretende expandir o metrô e construir um túnel por baixo do rio Hudson, para conectar a cidade à Nova Jersey.
A justificativa oficial para a medida foi o apagão econômico do governo federal e não há notícias até agora de que o empreendimento dos militares tenha sido afetado, mas o temor das pessoas que atuam nesta área é de que, mais cedo ou mais tarde, isso aconteça.
O aumento do impacto e da frequência dos eventos climáticos extremos fez com que o tema de adaptação ganhasse espaço inédito tanto na Assembleia-Geral, quanto na conferência de clima da ONU (Organização das Nações Unidas), a COP30.
Dentre as diversas áreas de financiamento climático, é nessa em que existe a maior lacuna entre o investimento global real e o que seria necessário para lidar com o a atual realidade ambiental --de US$ 359 bilhões (R$ 2,03 trilhões).
Mesmo com este custo bilionário, o empreendimento costeiro daria conta de proteger apenas 50% da cidade contra enchentes.
A prefeitura calcula que, para cada dólar investido em adaptação, seis são economizados em custos futuros com os impactos da mudança climática.
O Grupo de Engenharia atualmente ainda está na fase preliminar para este projeto. Quando isso acabar (não há uma previsão), o início das obras dependerá da liberação dos US$ 52 bilhões, o que precisa passar pelo Congresso dos EUA.
"Apesar da incerteza política, o que é certo são os impactos que a mudança climática terá no nosso cotidiano se mantivermos o status quo. Já estamos vendo e sentindo isso", afirma Brendan Pillar, diretor de clima e sustentabilidade do Departamento de Planejamento da Prefeitura de Nova York.
Atualmente, 400 mil pessoas e 71 mil edifícios estão nas regiões consideradas de alto risco para alagamentos, o que abarca toda a costa de Nova York.
As projeções dão conta de que em 2050 essa zona de maior perigo será equivalente a 1/4 da área total da cidade, chegando a atingir 795 mil pessoas e 122 mil edifícios.
Desde o furacão Sandy, a cidade passou a revisar todas as suas diretrizes para infraestrutura.
No início deste mês, por exemplo, o Conselho de NY (equivalente da Câmara Legislativa) aprovou o novo plano de habitação do bairro Jamaica, a maior reorganização urbanística em mais de duas décadas.
O local tem maioria de população negra e hispânica, é considerado periferia da cidade e sofre constantemente com inundações.
Há a previsão de investir US$ 413 milhões ( R$ 2,2 bi) em obras de infraestrutura na região, inclusive com a construção de quase 4.000 casas que podem servir para realocar pessoas que moram em locais de maior vulnerabilidade.
As novas regras (parte já em vigor, outra ainda em tramitação e elaboração) demandam uma série de medidas contra as enchentes.
Os prédios, por exemplo, precisam ser elevados em 2 metros; os pisos térreos não devem ser usados para moradia; estacionamentos subterrâneos também estão vetados; todo o maquinário, como sistemas de aquecimento, precisa ser alocado no topo das construções, diferentemente do que acontece hoje.
As áreas mais próximas aos rios também devem ser destinadas prioritariamente a espaços comuns, como praças. É necessário evitar que zonas de maior risco abriguem espaços como hospitais ou casas de repouso.
Há também uma preocupação estética, uma vez que elevar todas as construções em 2 metros poderia fazer com que toda a paisagem à altura dos olhos dos pedestres se tornasse de muros de concreto.
Por isso, o planejamento incentiva que as fachadas tenham, por exemplo, jardins. Há também previsão de que construções já existentes sejam adaptadas para esses novos parâmetros.
Além da economia em prejuízos futuros, outro argumento usado para tentar convencer as pessoas a adotar essas transformações é de que o valor dos seguros contra enchentes também será menor para construções mais resilientes.


