SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ainda está longe de essa via de trânsito pesado e barulhento se transformar em exemplo de ambiente urbano ecologicamente sustentável, mas ao menos uma parte da avenida Nove de Julho, ligação entre o Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, à avenida Cidade Jardim, está se tornando menos cinza.
Um projeto-piloto começou a ser tirado do papel no mês de junho, quando foi assinada uma portaria. A partir dela, um trecho de 4,5 km da avenida inaugurada no início da 1940 está sendo transformado, desde outubro, em corredor verde de ônibus -vai do terminal Bandeira, no centro, à rua Groenlândia, na região dos Jardins.
Ao todo, o projeto prevê o plantio de 177 mudas de árvores nativas -de acordo com a administração municipal, cerca de 45% das 400 existentes no trecho atualmente.
Também fazem parte do corredor verde 500 m² de jardins de chuva, 6.000 m² de paisagismo em canteiros centrais e 1.000 m² de ampliação de esquinas, com objetivo de facilitar a circulação de pedestres e criar espaços para plantio.
Serão alargadas esquinas de acesso à Nove de Julho, nas vias de ligação à avenida. Das 17 paradas de ônibus ao longo do trecho, 12 delas, as de grande porte, terão uma reformulação mais completa. Além da pintadas de verde, essas estruturas serão equipadas com placas de energia solar para alimentar painéis eletrônicos com informações climáticas.
De acordo com a prefeitura, haverá uma espécie de pequena estação climática, que vai aferir temperatura, umidade do ar e velocidade do vento. Essas informações poderão ser transmitidas para órgãos de análise meteorológicas
"Será uma comunicação para estimular o usuário daquela parada a ser inserido no ambiente de conscientização ambiental", diz Pedro Fernandes, presidente da SP Urbanismo, um dos órgãos da administração municipal que está tocando o projeto-piloto -há outras secretarias envolvidas.
Na atual fase, os trabalhos são realizados no sentido centro-bairro. Pelos menos três esquinas e dois canteiros permeáveis estão com obras avançadas, entre o terminal bandeira e a praça 14 Bis, na Bela Vista. Também ocorrem retrofits em algumas paradas de ônibus.
Haverá sinalização especial para o corredor. O asfalto deverá ser demarcado de verde pela CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), assim como ocorre com as faixas azuis de motos.
Um estudo que consta no projeto do corredor verde mostra alta incidência de poluição sonora no entorno do terminal Bandeira.
Mas, por enquanto, a maioria dos ônibus que circularão pelo corredor verde serão movidos a diesel, que emitirem mais poluição, inclusive sonora, por causa dos barulhentos motores.
Atualmente, a cidade de São Paulo conta com pouco mais mil ônibus elétricos (820 a bateria e 189 trólebus). O número, atingido recentemente e mostrado no último dia 3, representa menos de 10% da frota de cerca de 12 mil coletivos que circulam pela cidade.
Mesmo sem autorizar a compra de ônibus a combustão desde outubro de 2022, a gestão Ricardo Nunes (MDB) está longe de atingir a meta prometida para dezembro do ano passado, de ter há um ano 20% da frota movida a por veículos não poluentes.
Apesar de seguir a passos lentos, entretanto, a eletrificação dos coletivos apresenta resultados. Dados levantados pela SPTrans, empresa pública responsável pela administração do transporte público municipal, a pedido da reportagem, mostram que no primeiro semestre deste ano o sistema de ônibus emitiu 477.935 toneladas de CO2 (dióxido de carbono) contra 509.734 toneladas do mesmo período de 2024.
Para Fernandes, o corredor verde pode se transformar em um aglutinador de políticas públicas ambientais, vindas de diferentes áreas da gestão municipal.
Cerca de 700 mil pessoas usam atualmente os corredores de ônibus da avenida Nove de Julho e é nesse público que o projeto aposta. "Tem um potencial de divulgação da integração de polícias ambientais", afirma.
O trecho entre o terminal Bandeira e a praça 14 Bis conta com placas de alerta por aquela ser uma região com riscos de alagamentos.
A instalação de jardins de chuva e outras intervenções não pretende resolver o problema das enchentes dali. Porém, para o arquiteto André Andreis, do núcleo da SP Urbanismo e que trabalhou no projeto do corredor verde, o sistema de drenagem daquela região vai ter ganhos com essas ações pontuais.
"Não é uma solução para a macrodrenagem, mas quanto à microdrenagem, mas é um recurso para desacelerar e retardar a velocidade da água", afirma.
Por enquanto, não há prazo para replicar o projeto em outros corredores de ônibus da cidade, apesar de terem sido analisados. Os resultados da Nove de Julho nortearão investimentos semelhantes.

