Nova técnica de cirurgia com dois corações salva paciente

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

04/12/2021 3h05 — em Variedades

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Eu não acreditava que estava com dois corações no meu tórax." É assim que Lincoln Paiva, pesquisador de urbanismo e doutorando na Universidade Mackenzie, descreve os primeiros momentos depois de um procedimento inédito que envolveu dois corações funcionando em seu corpo para, depois, passar por outra cirurgia que o deixaria somente com um órgão sadio.

Para ter esses dois corações em seu peito, Paiva enfrentou uma longa jornada. Tudo começou em fevereiro de 2020, quando ele teve um infarto que deixou seu coração muito debilitado.

"Do jeito que você está aqui, só aguenta mais três meses", foi o que ele ouviu de um médico à época, segundo conta.

Nessa situação, foi necessário entrar para a fila de transplante de coração --algo que por si só demora muito. Segundo Fábio Gaiotto, cirurgião cardiovascular do Incor (Instituto do Coração) do Hospital das Clínicas da USP e responsável pelo desenvolvimento da nova técnica, o Brasil realiza, em média, 380 transplantes por ano, mas seria necessário fazer entre 2.000 e 2.500 para suprir toda a demanda.

Em junho de 2021, ainda à espera do transplante, ele precisou ser internado pelo estado crítico ao qual havia chegado.

Já hospitalizado, Paiva realizava constantemente exames para acompanhar seu estado de saúde. Em um desses procedimentos de rotina, foi descoberta uma outra complicação: sua pressão pulmonar estava muito alta, uma consequência do infarto.

Essa circunstância faz com que o coração fique mais fraco, o que diminui a capacidade de escoar o sangue vindo dos pulmões. A partir daí, o pulmão acumula uma quantidade exagerada de sangue, fazendo a pressão pulmonar subir.

Gaiotto explica que a hipertensão pulmonar inviabiliza o transplante de um novo coração porque há a probabilidade de o "paciente morrer na cirurgia [ou em alguns meses] ".

"Quando fica muito difícil de o sangue sair e entrar nos pulmões, se essa resistência está muito alta, percebe-se que o lado direito está sofrendo. Se eu colocar um novo coração, não vai dar certo porque ele vem de uma pessoa sadia. O lado esquerdo até se adapta muito rápido, mas o direito não", conta Gaiotto.

Normalmente, um paciente com esse diagnóstico precisaria de um ventrículo artificial, equipamento que age como um coração mecânico. Ele funcionaria como o lado esquerdo do órgão e diminuiria a pressão pulmonar para possibilitar que o transplante pudesse ser feito, diz ainda Gaiotto.

O preço desse equipamento, no entanto, é de aproximadamente R$ 800 mil, o que dificulta o acesso a essa alternativa no Brasil.

Sem o coração mecânico, Paiva teria poucos meses de vida e provavelmente seria encaminhado para os cuidados paliativos. Gaiotto conta que, só no Incor, são de três a quatro pacientes por mês nessa situação.

Para contornar esse quadro clínico, o cirurgião pesquisou sobre transplante cardíaco heterotópico, procedimento no qual se implantam dois corações no paciente. Segundo ele, desde a década de 1970 essa técnica é utilizada, mas não é adequada para pessoas com pressão pulmonar alta.

"[Colocar dois corações, seguindo a técnica antiga,] não dá certo [para quem tem hipertensão pulmonar] porque, entre seis meses ou um ano, os doentes falecem, já que o coração antigo continua lá dentro e em algum momento ele para de funcionar, [desenvolvendo] coágulo e infecções", explica.

Assim, percebeu que seria necessário fazer adaptações no procedimento. "O que eu pensei foi em mudar a cirurgia de dois corações, de modo que o coração novo imitasse [um coração artificial], porque nós aprendemos que, com um coração mecânico, depois de três a seis meses, a pressão do pulmão pode cair."

Assim, para que a ideia se concretizasse, foi preciso uma primeira cirurgia para implantar um coração saudável em Paiva. Dessa forma, ele ficou com dois corações.

Gaiotto também desenvolveu um modelo em "que todo o sangue que vem da cabeça e dos braços passasse pelo coração novo, entrasse no antigo e fosse direto para os pulmões".

Essa estratégia foi necessária porque o cirurgião desejava conservar o lado direito, normalmente mais frágil, do novo coração para que ele pudesse, posteriormente, trabalhar sozinho no peito do paciente.

Depois da primeira cirurgia, Paiva continuou internado no Incor para acompanhamento de como seu corpo se adaptava aos dois órgãos. "Eu sentia que tinha dois corações porque eles batiam em sincronias diferentes, mas, no começo, meu organismo tinha dificuldade de entender", diz.

No planejamento de Gaiotto, o paciente ficaria com os dois corações por dois a três meses. Era esperado que, nesse meio tempo, a pressão pulmonar diminuísse e seria possível então fazer a segunda cirurgia --para retirar os dois corações e depois colocar somente o coração novo e sadio para funcionar como um coração comum.

Como já era esperado, a pressão pulmonar realmente deu sinais de queda, mas o coração doente parou antes do que tinha sido planejado. Sendo assim, a segunda cirurgia foi adiantada para ser realizada 45 dias após a primeira. Apesar do susto, no fim, os dois procedimentos funcionaram.

Atualmente, Paiva vive somente com um coração, aquele novo e que ainda está saudável. Ele está em processo de recuperação, mas já nota a melhoria na qualidade de vida.

"Ele tem chance de 70% a 80% de continuar vivo daqui a 15 anos. Daqui a 20 anos, a chance é de 40% a 50%, que é a sobrevida de um transplante cardíaco", explica Gaiotto.

No momento, três outros pacientes estão sendo avaliados como candidatos para passarem pelas duas cirurgias, mas Gaiotto ressalta que esse é um procedimento de exceção e que pode ser feito só quando não existem outras possibilidades.

"O procedimento que estamos propondo não compete com o coração mecânico, que faz o trabalho do lado esquerdo, porque ele é a melhor opção e tem mais indicações, mas ainda é muito cara", conclui.


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