SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O valor das hospedagens para a COP30, em Belém, se transformou em uma crise internacional que, no momento, tem chamado mais atenção do que o tema que a cúpula das Nações Unidas sobre mudanças climáticas se propõe a discutir.
Redes hoteleiras e proprietários de imóveis na capital paraense têm estabelecido preços exagerados, muito acima do praticado em outras edições do evento.
Nos últimos quatro anos, as COPs aconteceram em: Baku, no Azerbaijão (COP29), Dubai, nos Emirados Árabes Unidos (COP28), Sharm el-Sheik, no Egito (COP27), e Glasgow, na Escócia (COP26). Em todas, via de regra, o preço das diárias subiu de duas a até cinco vezes o valor usual, de acordo com um levantamento feito pela Folha com base em relatos de fontes, notícias e portais especializados.
O caso mais extremo foi o da COP escocesa, em 2021, um ano depois do previsto inicialmente, devido à pandemia de Covid-19. Além das dificuldades pelas restrições sanitárias e pela desigualdade no acesso à imunização ao redor do mundo, a falta de hotéis em Glasgow foi um grande problema.
Muitos precisaram se hospedar em cidades vizinhas, como Edimburgo, e, assim como Belém, houve a contratação de navios de cruzeiro para serem usados como hotéis.
A plataforma Airbnb chegou a oferecer um bônus para quem se dispusesse a ser anfitrião durante a COP26, e houve uma campanha para os locais hospedarem ativistas gratuitamente.
À época, eram esperados 30 mil participantes, mas Glasgow tinha apenas 15 mil leitos disponíveis. Com isso, as tarifas dispararam.
O jornal local The Scotsman reportou que hotéis estavam cobrando diárias de até 888 libras (cerca de R$ 6.300, na cotação da época) em quartos que, em outro momento, custavam cerca de 50 libras (R$ 350), uma alta de 1.676%.
Em Belém, o caso de um estabelecimento que mudou de nome de Hotel Nota 10 para Hotel COP30 e aumentou as tarifas foi revelado pelo jornal O Globo e confirmado pela Folha. Em 2023, segundo imagens do Google Street View, o pernoite no local custava R$ 70; durante a cúpula da ONU, o valor está em R$ 2.500 -crescimento de 3.471%.
"É a primeira vez em 33 anos, desde que a Convenção do Clima [da ONU] foi adotada, que a logística se torna um assunto tão central", analisa Claudio Angelo, coordenador de política internacional do OC (Observatório do Clima). Países chegaram a mandar uma carta para o governo brasileiro pedindo que o evento aconteça em outro lugar.
"Logística de COP é igual à roupa íntima: ela existe para não aparecer. Se aparecer, tem alguma coisa errada. Foram poucas as COPs em que a logística teve alguma proeminência e é a primeira vez que isso é o principal tema sendo discutido", diz ele.
Na COP de Sharm el-Sheik, cidade litorânea repleta de resorts, não houve falta de hospedagem.
Apesar disso, as diárias subiram por orientação da associação hoteleira egípcia, que ordenou tarifas mínimas de US$ 120 em hotéis duas estrelas e de US$ 500 em hotéis cinco estrelas, segundo reportagem do portal Climate Home News. Assim como em Glasgow, houve vários casos de reservas sendo canceladas para, na sequência, o valor da estadia no mesmo lugar aumentar.
"Os preços vinham crescendo nos últimos anos, mas nada tão ruim quanto o que estamos vendo em Belém", diz Mariana Paoli, líder global de advocacy da organização beneficente Christian Aid, que acompanha as negociações há mais de uma década.
"O país anfitrião tem o dever de fornecer hospedagem para pessoas vindas de quase 200 nações. Não ter preços acessíveis exclui a sociedade civil e prejudica a participação dos países em desenvolvimento em um processo cujo progresso é essencial para suas vidas e meios de subsistência", ressalta.
Em 2023, a COP de Dubai teve um público estimado de 70 mil pessoas, o maior já registrado. Com isso, muitos precisaram se hospedar longe do centro de eventos, mas a logística não foi um assunto proeminente.
No ano passado, nos preparativos para a COP de Baku, houve acusações, ainda que não provadas, de interferência nos preços dos hotéis pelo governo do Azerbaijão, que teria bloqueado as reservas de hotéis para o período da COP29 por meses. Quando finalmente ficaram disponíveis, as diárias estavam bem acima do valor normal.
De acordo com análise da Lighthouse Intelligence, empresa voltada ao setor hoteleiro, as tarifas chegaram a subir 380% na capital azeri, mas, mais uma vez, abaixo do patamar praticado em Belém.
Nesta quinta-feira (7), o Ipam (Instituto de Pesquisa da Amazônia), sediado no Pará, emitiu nota em defesa da realização da cúpula na capital do estado.
"COPs passadas, sediadas em lugares como Dubai ou em capitais europeias, talvez tenham deixado uma impressão fantasiosa da reunião. Estamos aqui para falar sobre a realidade e é preciso abrir mão de experiências passadas para seguir em frente. Na amazônia, não há cenários artificiais", afirma o documento.
"Se em Dubai táxis chegavam a custar R$ 800; se em Sharm el-Sheikh hotéis eram cancelados com hóspedes à porta; se em Glasgow grupos ficavam acomodados em trailers a mais de uma hora do local do evento; e se em Madri não havia alimentação acessível... Conclui-se o desafio como rotina em um evento como este", diz o Ipam.
Na última semana, o próprio presidente da COP30, o embaixador André Corrêa do Lago, chamou os valores de "completamente abusivos". Afirmou também que é normal que os preços dobrem ou tripliquem durante as COPs, mas que as diárias em Belém estão até dez vezes mais caras do que o normal. No entanto, garantiu que a conferência acontecerá em Belém e que o governo não trabalha com um plano B.
Atualmente, na plataforma oficial de hospedagem da COP30, o valor de diária mais baixo é de US$ 163 (R$ 890) para um apartamento de dois quartos, com estadia mínima de dez noites. O mais alto é de US$ 9.811 (R$ 53,5 mil) em um apartamento de três quartos, também com estadia mínima de dez noites.
Em uma plataforma privada de hospedagens, a opção mais cara encontrada pela reportagem é um apartamento de um quarto no bairro Batista Campos.
O proprietário está cobrando R$ 1,5 milhão pelas 13 noites de duração das negociações. Na comparação com ofertas encontradas em sites de venda de imóveis, seria possível comprar até dois apartamentos na região com esse mesmo valor.

