BELÉM, PA (FOLHAPRESS) - Em um momento de escalada de tensão durante a última sexta-feira (21), a China de Xi Jinping defendeu a presidência brasileira da COP30, a conferência sobre mudanças climáticas das Nações Unidas. Os representantes de Pequim pediram que os países chegassem a um acordo e respeitassem o multilateralismo.
O episódio aconteceu no discurso durante uma reunião acalorada, logo após o plano para o fim dos combustíveis fósseis, defendido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ser retirado do rascunho da principal decisão do evento.
A declaração ilustra qual a postura geral da China na primeira edição da COP sem a presença dos Estados Unidos desde a volta de Donald Trump à Casa Branca segundo relato à reportagem de quatro negociadores e cinco observadores.
Segundo eles, o discurso chinês foi um dos raros da reunião, já que o país não se posicionou fortemente sobre os temas mais polêmicos da discussão e buscou apaziguar ânimos.
A diplomacia de Pequim segue defendendo posições políticas tradicionais, mas se tornou mais conservadora, atuando nos bastidores para tentar manter vivo um regime de negociações climáticas alinhado com seus interesses econômicos, na visão destas pessoas.
Desta forma, a posição de Xi contrasta com a política negacionista imposta por Trump. Ao mesmo tempo, ao não se posicionar como país líder das negociações, nem defender um aumento da ambição climática global, evita ampliar as tensões.
Isso é importante, nas palavras de um diplomata, porque os chineses apostam alto no regime do multilateralismo, em um contexto no qual o presidente dos Estados Unidos atua para colocar em xeque a cooperação global.
E essa atuação corresponde aos interesses econômicos de Pequim, hoje o maior investidor em energia limpa em todo o mundo exportando, por exemplo, painéis solares, turbinas eólicas e carros elétricos.
"Se os Estados Unidos estão fora, a China deve pagar a conta deles? Me parece injusto, e isso explica essa postura conservadora. Todos os países são afetados pela saída dos Estados Unidos", afirma Li Shuo, diretor de clima da China no Instituto Asiático de Sociedade e Política e que acompanha COPs desde 2011.
Por isso, apesar de não serem grandes incentivadores do chamado mapa do caminho para o fim dos combustíveis fósseis já que parte de sua matriz energética depende do carvão, os chineses não impõem uma grande barreira a ele.
Tão logo o plano foi retirado do rascunho da decisão final da COP30, os diplomatas de Pequim apoiaram o texto e a presidência brasileira da conferência, por entenderem que era o caminho mais fácil para um acordo, diante da intransigência dos países árabes em tratar deste tema.
"Vou colocar dessa forma: se o mapa do caminho estiver vivo e é um grande se e a maioria dos países não estivesse bloqueando este tema, eu não vejo a China barrando", afirma Shuo.
"Mas é importante entender que estamos falando de duas Chinas. Uma é política, outra é a econômica, que inclui o setor privado", continua.
Enquanto a segunda lidera investimentos em uma nova economia, a primeira atua de acordo com princípios históricos.
"A China tem uma tradição diplomática no regime climático bastante consistente ao longo das décadas, e dificilmente muda de posicionamento com relação a temas conjunturais. Nesses últimos anos, um tema que ganhou muito peso na diplomacia chinesa e nessa COP são medidas unilaterais de comércio, e a China sempre se opôs a isso", diz Maiara Folly, diretora-executiva da Plataforma Cipó.
No contexto da conferência, isso se aplica majoritariamente às taxas de fronteira aplicadas pela Europa em razão de emissão de CO2, mas o tema também se entrelaça ao tarifaço imposto por Trump em todo o mundo.
Os chineses querem trazer essa discussão para dentro das COPs climáticas, mas enfrentam oposição da União Europeia.
"Não é do interesse da China implodir o sistema climático internacional e isso demarca um uma postura que contrasta com os Estados Unidos. Hoje a China entende que não houver consenso na COP30, é uma vitória para aqueles que desejam que o regime climático se imploda", completa Folly.
OUTROS EFEITOS DA SAÍDA DOS EUA
Segundo quatro observadores ouvidos pela reportagem, a saída dos Estados Unidos trouxe outros dois efeitos para as negociações da COP.
Um foi sobre os países árabes, grupo sob o qual a Casa Branca tem grande influência.
Sem os EUA, a Arábia Saudita adotou uma posição agressiva e totalmente intransigente contra qualquer menção a combustíveis fósseis na decisão final da COP30.
Outro impacto recaiu sobre a Europa, que tinha nos Estados Unidos um importante aliado para barrar a discussão sobre metas mais ambiciosas de financiamento climático.
Sem a diplomacia dos EUA, o pleito para tratar deste tema ganhou força, impulsionado justamente pelos árabes.
Segundo negociadores, isso explica por que os europeus passaram a defender que aceitariam falar de financiamento, mas apenas se o mapa do caminho dos fósseis também fosse debatido.
A estratégia da UE, avaliam, seria na verdade barrar um avanço em ambos os itens.
ENCRUZILHADA CHINESA
"Hoje, com a ausência dos Estados Unidos, o bloco europeu tem sido o principal entrave do ponto de vista da ambição por compromissos mais ambiciosos na na área do financiamento", avalia Folly.
Historicamente, a China é um dos países que mais insistem neste tema o que, projetam alguns negociadores, pode mudar no futuro.
No contexto das negociações climáticas, esse embate se dá em torno da obrigação dos países ricos em direcionar recursos para aqueles em desenvolvimento, segundo as categorias da ONU.
A questão é que a China, apesar de ser a segunda maior economia do mundo, ainda é enquadrada nesse segundo grupo e por isso, seria beneficiada por metas de financiamento maiores.
Mas é cada vez mais crescente, por parte dos ricos, a reclamação de que os chineses não deveriam mais se enquadrar na categoria, mas, sim, dentre os já desenvolvidos.
Diplomatas afirmam que, no momento, os chineses ainda devem manter sua posição. Avaliam, porém, é possível que o país passe a adotar posturas mais relativas neste tema, se for para reduzir as tensões nas negociações e contribuir para sobrevivência do regime multilateral.


