SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mais de três semanas após a operação policial que deixou 121 mortos nos complexos da Penha e do Alemão, a mais letal da história, o Governo do Rio de Janeiro não apresentou nenhum plano de retomada das áreas marcadas pelo massacre. A secretaria estadual de Segurança Pública recusa a ideia de uma ocupação do território, hoje sob domínio do CV (Comando Vermelho).
Desde 2022, a gestão Cláudio Castro (PL) tem um programa que combina policiamento com oferta de serviços públicos, o Cidade Integrada. Registros de confrontos armados nos últimos três anos e relatos de moradores apontam, porém, que ele não levou à redução da violência.
Mesmo após o início do programa, os registros de tiroteios cresceram ou mantiveram-se em patamar elevado nos anos de 2023 e 2024 em três comunidades atendidas Jacarezinho, Muzema e Rio das Pedras, mostram dados do Instituto Fogo Cruzado levantados a pedido da Folha.
Foi só neste ano que os confrontos diminuíram nos locais onde o programa foi anunciado, acompanhando uma queda geral no município. Foram registrados 1.863 tiroteios ou disparos de arma de fogo na capital fluminense de janeiro a setembro de 2025, diminuição de 5% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo o Fogo Cruzado.
O Cidade Integrada foi comparado mais de uma vez com a experiência das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), principalmente por ter sido inaugurado com operações policiais nas comunidades de Jacarezinho e Muzema e com a promessa de ocupação dessas regiões pelo Estado.
O plano do governo Castro sofre críticas por não ter conseguido retomar os territórios do crime organizado e por falta de critérios para avaliar suas ações. As UPPs, por sua vez, foram de panaceia a símbolo de fracasso num período de dez anos.
Um total de 38 unidades chegaram a funcionar simultaneamente no ápice do programa. Hoje são 16 UPPs em funcionamento na cidade, após o governo oficializar o fechamento e fusão de bases policiais em novembro do ano passado.
"A maior fragilidade das UPPs foi o gigantismo. Eu cansei de avisar", afirma a professora Jacqueline Muniz, do mestrado em segurança pública da UFF (Universidade Federal Fluminense), que trabalhou no planejamento e na avaliação do programa das UPPs a convite do governo. "Virou uma mercadoria político-eleitoreira, não se importavam mais em seguir o planejamento feito."
Ela explica que a doutrina militar que inspirava as UPPs obedecia à lógica de missões de paz da ONU (Organização das Nações Unidas). Territórios eram tomados por meio da superioridade de tropas e equipamentos da PM, mas a premissa era que a ocupação militar intensiva durasse por tempo limitado, já que o custo para mantê-la é alto.
O modelo se adaptava melhor a favelas menores, segundo especialistas. A progressão para um número maior de favelas deveria ser lenta, já que a diminuição do policiamento num local só deveria ocorrer após a chegada de mais serviços públicos (postos de saúde, escolas, centros culturais, postos de serviços municipais e estaduais) e com a situação de segurança estabilizada.
Na prática, poucos projetos sociais acompanharam a chegada da UPPs, e o dinheiro para manter os policiais e as condições de trabalho adequadas acabou quando grupos criminosos já estavam reorganizados. As favelas acabaram retomadas pelas facções e por milícias, que ganharam fôlego a partir da falência financeira do governo estadual.
No início da implementação, a partir de 2008, a queda nos registros de homicídios nas comunidades ocupadas gerou elogios de especialistas e avaliação positiva da população. Dez anos depois, sob intervenção federal, ocorreram as primeiras desativações de UPPs.
"Arranjos escusos se estabeleceram entre essas guarnições [da PM] e o tráfico local, que acabaram repartindo o território das favelas entre os locais onde a polícia podia circular e aqueles onde os traficantes continuavam mantendo seus pontos de venda de drogas", conta a pesquisadora Carolina Grillo, do Geni (Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos), também da UFF.
O projeto também sofreu desgastes ao longo dos anos pelos excessos cometidos contra a população. Um dos casos mais notórios foi o desaparecimento do pedreiro Amarildo, na Rocinha, cuja suspeita recai sobre os agentes da UPP do bairro.
Procurado, o ex-governador Sérgio Cabral afirmou que as críticas às UPPs são desmentidas pelos "índices criminais nas favelas pacificadas e nos bairros ao redor". Ele lembrou que toda a administração pública sofreu com as dificuldades financeiras após o seu governo, não só a segurança pública.
Cabral rechaçou a ideia de uso eleitoral do programa em seu benefício, "pois nem candidato fui a nenhum cargo em 2014", e recusou a ideia de que houve conluio entre polícia e criminosos. "Impossível comparar um programa de meses [Cidade Integrada] com uma experiência de vários anos como foram as UPPs", disse o ex-governador.
A reportagem procurou Luiz Fernando Pezão por meio de sua assessoria, mas não recebeu resposta.
A Folha conversou com dois moradores da favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio, que inaugurou o programa. Os dois disseram que o CV ainda domina a região, mesmo após o início das atividades do Cidade Integrada, uma das vitrines da gestão Castro.
Um deles, que falou sob condição de anonimato, afirma que a polícia não sobe o morro e mantém apenas uma guarita ocupada na entrada da favela. Ele diz que a saída do efetivo da PM seria, inclusive, a explicação para a queda na violência no Jacarezinho neste ano.
"Nada mudou e nem mudará", disse Antonio Carlos Ferreira Gabriel, outro morador do Jacarezinho. "Insegurança infelizmente sempre fará parte do nosso cardápio. As ofertas de educação, cultura e projetos sociais nunca são estruturais, e sim paliativas. Dessa forma, não haverá nenhum avanço."
Após a operação no Jacarezinho e na Muzema em janeiro de 2022, os anúncios do governo estadual sobre o Cidade Integrada se resumem a obras de urbanização, drenagem, reforma de escolas, mutirões de emprego e atividades culturais. A ênfase no aspecto policial do programa desapareceu.
Para os complexos da Penha e do Alemão, o governo ainda deve apresentar um projeto para oferta de serviços públicos e policiamento. Segundo a gestão Cláudio Castro, a apresentação do plano está prevista no âmbito da ADPF das Favelas, na qual o STF (Supremo Tribunal Federal) e outros órgãos acompanham operações policiais no RJ.
Um documento deve ser entregue até o dia 20 de dezembro, data em que o Judiciário entra em recesso.
"Temos que fazer uma distinção entre o que é retomada e e o que é ocupação. Nós somos contra a ocupação", disse o secretário de Segurança Pública, Victor Santos, durante uma entrevista coletiva no dia 31 de outubro. "Estado nenhum no Brasil tem condições de fazer, de forma permanente, colocando policiais dentro das comunidades."
Procurada, a gestão Cláudio Castro afirmou que o Cidade Integrada "beneficia diretamente cerca de 30 comunidades" nas cinco regiões prioritárias. O governo citou um total de R$ 357 milhões em investimentos em obras, além de R$ 14,5 milhões em oferta de microcrédito a empreendedores.
Sobre as ações de segurança do programa, o governo afirmou que a PM atua nas regiões atendidas pelo programa "através dos respectivos batalhões das áreas, das UPPs locais e com equipes do Comando de Operações Especiais (COE) realizando ações planejadas e estratégicas". Informou, ainda, que "a subida da letalidade na região Muzema nos últimos meses está diretamente ligada à disputa de territórios por facções criminosas na Zona Sudoeste".


