Paulo Miyada, curador da exposição, que ocupa as três salas superiores do instituto, conta que foi aqui, em 1961, ao frequentar cursos e ateliês da Escola Nacional de Belas Artes do Rio, que sua obra começou a tomar forma. "Ela frequentava o grupo integrado por artistas da Nova Figuração, como Antonio Dias, Roberto Magalhães e Rubens Gerchman (com quem foi casada), participando de mostras históricas como Nova Objetividade Brasileira, em 1967", lembra Miyada. Trabalhos dessa época, como a tela O Herói (1966) ocupam a segunda sala do instituto, onde estão reunidos trabalhos críticos ao regime ditatorial brasileiro. Na mencionada pintura, um esqueleto vestido com uniforme militar encara o espectador de modo ameaçador.
A biografia de Anna Maria Maiolino é cheia de percalços que justificam esse engajamento. Na mesma sala, a artista apresenta uma instalação concebida em 1992 e só realizada agora, Las Locas, com eram conhecidas as mães da Plaza de Mayo, em Buenos Aires, que tiveram seus filhos mortos pela ditadura militar que governou a Argentina entre 1976 e 1983. É uma obra de grande impacto e fruto de real identificação de Maiolino com o sofrimento dessas mulheres - a experiência do exílio e da perseguição política a levou a explorar em seu trabalho temas como pertencimento, o papel da mulher na sociedade e, principalmente, a questão da alteridade.
Dito assim, pode parecer que a dela é uma obra de caráter panfletário. Não é. Como já observou a historiadora de arte Maria de Fátima Lambert, os desenhos e as instalações de Anna Maria Maiolino não são unicamente obras visuais. São peças para serem "lidas" - e, não por acaso, muitos desenhos da artista remetem ao universo poético (e aos traços) do belga Henry Michaux (1899-1984), que viveu no Brasil por volta de 1939.
Prova disso é a série Propícios, assinada pela artista em 2011. Michaux criou um personagem literário chamado Plume (pena ou caneta), que migrava de um estado a outro, perdendo sua forma e incorporando outras, mas nunca sua essência. Maiolino é como Plume: indestrutível. E ela sofreu um bocado: nasceu numa família pobre de dez filhos, viveu no exílio e sofreu a incompreensão de críticos até o começo dos anos 1990.
O ponto de virada, segundo o curador Paulo Miyada, foi sua participação numa mostra organizada em 1992 pela crítica belga Catherine de Zegher, America - Bride of the Sun, montada no Royal Museum of Fine Arts de Antuérpia. De lá para cá participou de exposições internacionais como a Documenta de Kassel e pelo menos sete bienais de São Paulo.
Foi mais ou menos pela época da exposição belga que Maiolino incorporou o vídeo em sua obra, após suas experiências em super 8 nos anos 1970 - e há na mostra um curta em que alterna passos de um gorila na jaula aos de soldados marchando. Paralelamente a comentários cheios de humor estão peças delicadas que sintetizam a trajetória da artista. O curador destaca o caráter "espiralar" de sua obra, apontando, na primeira sala, para uma xilogravura de 1967 com o nome-palíndromo da artista. Nela, duas bocas pronunciam Anna não como exercício narcísico, mas espelhando a "vida-obra" de Maiolino, que surge em diferentes papéis sociais. Exemplar, nesse sentido, é o trabalho Por um Fio da série Fotopoemações, de 1976, onde aparece ao lado da mãe e da filha mastigando uma linha (genealógica).
Mas é na terceira sala (a mais bela da mostra) que Anna Maria Maiolino apresenta a síntese dessa vida-obra. Lá está o resultado de suas experiências de moldar em esculturas recentes como a da série Hilomorfos (2016), que parecem desafiar a gravidade e, a exemplo das esculturas de Giacometti, evocam seres à beira de uma metamorfose, de um colapso existencial. Ou as quatro peças da série In-Rosso (2018) que o curador, num feliz lance associativo, instalou ao lado de obras em vidro soprado de formas adaptáveis ao suporte de metal. Um epílogo simplesmente magistral.



