Mortes de bebês com Covid no Brasil em 2020 podem ter sido o dobro do registrado, dizem pesquisadores

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

31/03/2021 19h05 — em Variedades

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pelo menos 899 crianças com menos de 1 ano de idade podem ter morrido devido a complicações da Covid-19 em 2020 no Brasil. O número, mais do que o dobro do registro oficial de cerca de 400 óbitos para essa faixa etária no mesmo período, foi divulgado por pesquisadores ligados à Vital Strategies, organização internacional voltada para políticas públicas em saúde.

O dado leva em conta os óbitos causados pela síndrome respiratória aguda grave (SRAG) de causa não especificada por meio de um ajuste feito pelos pesquisadores. A estimativa não foi publicada em nenhuma revista científica.

Segundo Fátima Marinho, epidemiologista sênior da Vital Strategies, a análise foi feita com base em dados do Sivep-Gripe, sistema de notificação do Ministério da Saúde.

Desde o início da pandemia no país, especialistas alertam para as falhas nas notificações de casos da Covid-19. Assim, é consenso entre cientistas e médicos que, em um ano de pandemia provocada por um vírus respiratório --o coronavírus Sars-CoV-2-- o excedente de mortes causadas por síndrome respiratória é, muito provavelmente, consequência da infecção por esse patógeno.

O registro de mortes causadas pela Covid-19 em crianças no país está entre os mais altos do mundo. Nos EUA, país com mais óbitos provocados pela doença, houve 52 mortes de crianças de até 4 anos de idade em 2020, segundo o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) --número aproximadamente 10 vezes menor do que o registrado para a mesma faixa etária no Brasil (542, segundo dados oficiais).

Com o ajuste feito pelos pesquisadores da Vital Strategies, as mortes entre crianças de até 4 anos de idade sobem para 1.214 no Brasil em 2020.

Enquanto os EUA registram mais de 550 mil mortes causadas pela doença até esta quarta-feira (31), o Brasil tem cerca de 318 mil óbitos.

Para Marinho, problemas de acesso ao diagnóstico, falta de alerta sobre os sintomas da Covid-19 e de protocolos para tratar os mais jovens estão entre as causas do número elevado dessas mortes no Brasil. A escassez de UTIs para os recém-nascidos (neonatal) também teria contribuído para agravar o problema.

Os mais jovens são os menos atingidos pelo coronavírus. Poucos se infectam, e mesmo quando adquirem a doença, desenvolvem sintomas mais leves na maior parte dos casos. Segundo dados do CDC, as mortes de crianças com Covid-19 em idade escolar representam menos de 1% do total de óbitos.

Levantamentos e estimativas apontam que crianças e adolescentes são menos de 10% dos infectados pelo vírus no mundo, mesmo representando cerca de 25% da população total. Ainda assim, um pequeno número de crianças desenvolve a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P) após a infecção pelo vírus, condição considerada grave e rara pelos especialistas.

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