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Livro retrata linha de ônibus do Rio alvo de crimes

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Linha do inferno, linha do terror e 47-crack (alusão ao som de "quatro") são apenas algumas das expressões vinculadas aos ônibus com o número 474 no letreiro, que ligam o Jacaré, bairro da zona norte do Rio de Janeiro, a Copacabana, na zona sul.

O trajeto revela um Rio de contrastes. Durante a semana, o trabalhador domina o coletivo. O perfil muda nos fins de semana de sol, quando o público é majoritariamente formado por jovens moradores do subúrbio e de comunidade que vão rumo às praias da zona sul.

A rota marcada por lotação, arrastões, depredação e até surfe no teto dos veículos inspirou o arquiteto e também passageiro Gabriel Weber, 28, a lançar o livro "474 Jacaré/Copacabana".

Procurada, a prefeitura, responsável pelo serviço, disse que a segurança dos ônibus é responsabilidade da Polícia Militar. A corporação também não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Gabriel é usuário da linha desde a adolescência. Nas férias, pegava o coletivo para ir à praia e, durante as greves do colégio, para fazer serviços de office boy. Anos depois, como aluno da UFRJ, a linha também passou a fazer parte da rotina de visitas aos colegas que moravam na zona sul.

Antes de transferir o curso para a Universidade do Porto, em Portugal, após um incêndio atingir o campus da UFRJ em 2016, era comum ouvir a pergunta "como você sai vivo do 474?", diz o ex-morador do Riachuelo, bairro vizinho ao Jacaré.

"Ele [o ônibus] tem essa fama de maldito, mas meu trabalho como arquiteto era analisá-lo espacialmente. A pesquisa me levou a considerar o 474 como um anti-herói". A rota inspirou o carioca a fazer sua dissertação de mestrado sobre a linha, que resultou no livro, lançado em outubro deste ano.

Segundo o autor, o livro faz o que ele chama de radiografia crua do apartheid social carioca. Quando voltou ao Rio para fazer a pesquisa, Gabriel fez várias viagens, nas quais registrou situações e interações com passgeiros das mais variadas.

"Vi crianças cheirando cola, micro baile funk de caixinha de som, surfe no teto e até garotas descolorindo os pelos". Outras situações comuns ao 474, sobretudo no verão e relatadas no livro, são vandalismo, roubo e tumulto.

A comerciante Josi Moreira, 45, moradora de Triagem, fica aflita precisa pegar o ônibus. "O medo é constante, até para nós que moramos em comunidades", contou ela, que recorre à linha para ir à praia.

Outras linhas de ônibus do Rio também ganharam destaque nacional. Em 2000, Sandro Barbosa do Nascimento, um sobrevivente do massacre da Candelária, manteve reféns em um ônibus da linha 174. O Ele matou uma refém e morreu por estrangulamento dentro de uma viatura da PM após ser rendido.

Em 2019, o sequestro de um ônibus com 38 passageiros e o motorista a bordo na ponte Rio-Niterói terminou com a morte do suspeito, Willian Augusto da Silva. Ele foi atingido por um atirador da polícia ao deixar o veículo e não resistiu aos ferimentos . O desfecho foi festejado pelo então presidente Jair Bolsonaro (à epoca no PSL), e pelo ex-governador Wilson Witzel (PSC).

LIMITE ENTRE DOIS EXTREMOS

A linha existe desde os anos 1950, diz Gabriel, mas a origem da reputação negativa remete aos anos 1980. No livro, em vez de fotos de flagrantes, o autor optou por ilustrações e colagens que traduzem o caos no 474 durante o verão.

Para ele, os desenhos afastam julgamentos sobre as ações ocorridas no transporte, "até porque o 474 do fim de semana não é o mesmo que circula de segunda a sexta", diz.

Cruzar os 22 quilômetros que separam dois universos é visto como um ato de determinação em uma tarde quente de verão.

Na visão do autor, as fiscalizações contra arrastões também são uma forma de reforçar preconceitos, uma vez que os alvos na maioria são negros sem camisa revistados fora do veículo, podendo ou não seguir viagem. Também não é incomum a linha ser escoltada até o ponto final, na divisa entre Copacabana e Ipanema na praia do Arpoador. A ideia de a praia ser um local para todos, diz Gabriel, é posta em xeque. "Para chegar, passa-se por experiências antidemocráticas".

474 JACARÉ/COPACABANA

- Preço R$ 56 (128 págs.)

- Autoria Gabriel Weber

- Editora Sobinfluencia

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