Início Variedades Filantropia brasileira não quer correr risco, mas na ciência isso é fundamental, diz CEO de instituto
Variedades

Filantropia brasileira não quer correr risco, mas na ciência isso é fundamental, diz CEO de instituto

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A filantropia brasileira prefere não correr riscos e tende a optar por investimentos em projetos que já têm evidências sobre seu sucesso. Contudo, na filantropia científica, o risco é essencial, na avaliação da CEO do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), Paula Maria de Jancso Fabiani.

Ela participou do 2º Seminário Internacional "Ciência encontra Filantropia: Filantropia no Ecossistema Brasileiro da Ciência", realizado na USP, na zona oeste da capital paulista, na última segunda (24). O encontro foi organizado pelo Grupo de Estudos de Modelos de Apoio à Ciência (Gema Filantropia) do IEA (Instituto de Estudos Avançados), pela Fundação José Luiz Setúbal e pela Science Philanthropy Alliance.

Fabiani destacou que o filantropo tem liberdade de escolher onde deseja colocar seu dinheiro e que muitos deles trazem o desejo de inovar e provocar mudanças. Isso, porém, requer assumir riscos.

"Muitas vezes até empresários que correm muitos riscos em seus negócios quando vão para filantropia querem investir em um projeto que já sabem que dá certo", diz. Ela lembra que encontrou muitas dificuldades enquanto buscava captar recursos para estimular apoio para a aprovação de uma lei. Apenas no ano em que a lei foi aprovada foi possível captar os recursos. "Mas eu precisava do dinheiro para fazer isso acontecer, e não quando a gente tem realmente o sucesso."

Na avaliação dela, no caso da filantropia científica a necessidade de doadores dispostos a correr riscos é ainda mais sensível, já que muitos experimentos científicos não vão dar os resultados esperados. "Para chegar em um experimento que dá certo, muitas vezes você tem vários que não vão funcionar, mas que podem solucionar desafios muito importantes da nossa sociedade", argumenta a executiva.

O diretor-presidente do Instituto Serrapilheira, Hugo Aguilaniu, também participou do evento e ponderou que uma das maiores contribuições da filantropia à ciência é a tolerância ao risco. Ele ressaltou, porém, que muitos investidores receiam aplicar recursos na ciência em razão da distância entre a população e o conhecimento produzido, o que constrói uma ideia de que a ciência é de difícil compreensão.

"Muitos dos potenciais doadores que eu cruzei durante os anos no Serapilheira gostam de ciência, querem investir, mas têm medo", diz.

Aguilaniu avalia que a ciência tem a importante função de ser uma força estabilizadora da ciência em períodos políticos turbulentos. De acordo com o presidente do Serrapilheira, o Brasil, durante o mandato de Jair Bolsonaro (PL), e os Estados Unidos, agora com a presidência de Donald Trump, mostram a fragilidade da pesquisa diante da instabilidade política.

Isso indica a necessidade de uma abordagem transnacional para filantropia na ciência, por meio de redes que possam auxiliar na continuidade da pesquisa mesmo quando países estão passando por momentos difíceis, opina Aguilaniu.

"Quantos pesquisadores tiveram que quase parar suas atividades durante o [governo] Bolsonaro e quantos americanos neste momento estão com grandes dificuldades. Eu conheço muitos ecólogos americanos que adorariam que houvesse um acordo entre o Serapilheira e uma fundação americana da qual eles dependem para fazer um intercâmbio."

REGULAÇÃO PARA PROMOVER FILANTROPIA

A presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Procópio Garcia, defendeu que a regulação pode ser uma forma de atrair investimentos privados para a ciência, "até por uma questão de histórico da sociedade".

Isso fornece uma segurança jurídica de que a doação vai servir ao propósito mencionado. Além disso, por meio da regulação, seria possível estabelecer mecanismos de incentivos para filantropia dentro da ciência.

O diretor-geral do centro de oncologia A.C.Camargo Cancer Center, Victor Piana, acrescenta que instituições científicas em busca de doações precisam colaborar mais e competir menos. Isso tem potencial de aproximá-las dos filantropos que passariam a ver essas instituições como "um grupo de alta performance, que sabe para onde quer ir".

Piana argumenta que, para isso, é necessária uma iniciativa que agrupe os atores da ciência, cuja cadeia é bastante fragmentada e de difícil entendimento para quem vem de fora. "Eu acho que para quem doa não é fácil entender o ecossistema da pesquisa e acho que mais transparência, criando mais confiança, não vai ser ruim para ninguém."

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?