Empresário quer borboleta, 'agroioga' e aula ambiental para transformar parques da Paulista

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

24/10/2021 4h32 — em Variedades

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Depois de ver naufragarem seus planos para criar um boulevard florido perto da avenida Paulista, o empresário Alexandre Allard agora tem dois parques para chamar de seus na mesma região.

Ou algo assim. Responsável pelo complexo Cidade Matarazzo, ele amealhou, em 5 de outubro, em parceria com o também empresário Michel Farah, a concessão por 25 anos dos parques municipais Prefeito Mário Covas e Tenente Siqueira Campos, o Trianon —incluindo a praça Alexandre de Gusmão, contígua a este.

Suas pretensões para o conjunto a ser formado pelo empreendimento privado e pelos parques não são modestas. A missão, diz Allard, é "criar uma nova consciência para o Brasil".

"O Brasil tem uma oportunidade de virar o líder mundial do verde. O momento de tomar essa oportunidade é agora. O Matarazzo está aqui para mudar a maneira de pensar, seja das elites, dos empreendedores ou do povo, em cima do poder verde que eles têm."

Nos planos de Allard, o parque Mário Covas vai se tornar um "laboratório de permacultura a céu aberto", e o Trianon, um museu dedicado à educação ambiental. Em suma, ele não quer consertar muros e canteiros, mas o mundo.

O discurso de Allard não é surpreendente, considerando sua trajetória.

O empresário é conhecido por ideias mirabolantes e investimentos pesados envolvendo bens de patrimônio cultural, como a proposta, não implementada, de renovação do bairro de Qianmen, no centro histórico de Pequim, e o hotel Royal Monceau, cuja transformação ele iniciou com uma festa em que celebridades destruíram velhas paredes a golpes de martelo.

Em São Paulo, ele escolheu o terreno onde funcionou o hospital Umberto Primo para implantar o Cidade Matarazzo. Ali haverá um hotel da cadeia de luxo Rosewood, a ser inaugurado no fim deste ano, com projeto do arquiteto francês Jean Nouvel, além de apartamentos, centro cultural, lojas e restaurantes.

Para ficar com os parques, o consórcio Borboletas, de Allard e Farah, ofereceu outorga fixa de R$ 3,3 milhões, vencendo o Patrimônio Paulista, de Eduardo Barella —empresário que, com a concessionária Allegra gere o estádio do Pacaembu e havia proposto R$ 2,3 milhões. O valor mínimo proposto pelo edital era de R$ 163 mil.

No entendimento de Allard, as boas intenções não são em nada desvinculadas do lucro. "A economia do Brasil é a extração —minerais, madeira, água, tudo é extração. O Brasil tem que entender que, em cima dessa economia bilionária da extração, tem uma oportunidade que é uma economia trilionária de preservação."

Enumerando as causas da crise climática no mundo —energia, transporte e comida—, vislumbra para o Mário Covas uma participação na terceira variável da equação.

"O parque vai mostrar como gerar uma comida que não gera carbono, mas captura o carbono, e como essa comida também muda totalmente a maneira de viver."

Ele não quer apenas contribuir para combater a crise climática mundial, mas também o grande problema da saúde do país, que ele diz vir da mesa.

"A comida do Brasil é o exemplo caricatural do que você não deve fazer. Tudo é errado, muito açúcar, muito sal, nada é natural, todos produtos da monocultura. Faz a lista do que é pior e você tem a definição da comida brasileira."

O programa do Mário Covas, acredita ele, vai resolver isso. Seu plano se divide em três componentes.

O primeiro serão cursos para crianças, falando do impacto positivo e negativo da comida —alunos de escolas ricas pagarão mais, custeando em parte a formação de alunos de escolas mais pobres.

À noite, nas mesmas salas de aula, conferências para pessoas do ramo da alimentação. E, para o público geral, além de um restaurante que terá menus de chefs da periferia, o "clube de agroioga".

"Os vizinhos têm de pagar para participar desse clube maravilhoso, onde três horas por semana você tem autorização para cuidar da natureza, dessas frutas e aprender a falar com as divindades das frutas. Você aprende a baixar o ritmo sob o ritmo da planta."

As ambições didáticas se expandem para o Trianon, com seu remanescente de floresta nativa. Ali, a ideia será mostrar que "nós pertencemos à natureza, e não o contrário".

Isso vai se dar por meio de algumas instalações físicas, conta, mas sobretudo de programas de realidade aumentada enfocando como as árvores se comunicam. Na opinião do empresário, a organização horizontal da natureza é um ensinamento para a humanidade.

Para ver as peças criadas por artistas sobre a conexão das plantas, "a única coisa que você tem que fazer é baixar nosso app", diz. Allard se refere ao aplicativo batizado de Super App, que vai ser usado nos parques e no Cidade Matarazzo e permitirá captar o perfil dos visitantes.

É uma atividade que Allard conhece bem. Nos anos 1990, montou um banco de dados de consumo de clientes de supermercado, que lhe forneciam informação em troca de descontos. Em 2000, vendeu sua firma, a Consodata, por centenas de milhões de euros para a Telecom Italia.

Segundo o empresário, nos parques como na Casa Bradesco de Criatividade, futuro centro cultural do Cidade Matarazzo, o preço das atividades dependerá "da origem social das pessoas".

Com dados como o CPF e o endereço, diz Allard, já é possível saber muito sobre um visitante.

"É dificílimo para alguém que mora nos Jardins me explicar que é pobre. Talvez tenha algumas [pessoas pobres] lá, nós temos sistemas para identificar. E também é dificílimo ter um bilionário morando na zona norte. Só com o endereço já temos muitas informações."

O advogado Christian Perrone, do ITS Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio), pondera que a triagem pelo CEP tem potencial para arrastar consigo, de forma indireta, dados sensíveis, aqueles que, pela Lei Geral de Proteção de Dados, poderiam fomentar discriminações.

O endereço, exemplifica, "pode ser uma região de descendentes de alemães, de poloneses, uma região que tem um maior número de judeus, de refugiados".

Allard afirma que o CEP é apenas um primeiro passo. A exemplo de outras experiências imersivas —como redes sociais ou Netflix—, quanto mais se usa o Super App, mais ele aprende sobre o usuário. A ideia, diz, é oferecer experiências diversificadas.

"Se você é um adulto de 45 anos, é óbvio que você não quer assistir ao programa das crianças no Trianon. Se você quiser, você tem a opção. Mas você quer talvez uma voz diferente? De um adulto, tipo [o ator Antonio] Fagundes. As crianças gostam mais da voz do Bambi."

Perrone diz que, embora não haja nada de ilegal nisso, é preciso atentar ao princípio da prevenção, isto é, quando o risco pode ser maior que o ganho. "Será que ele precisa desse tipo de dado para atingir essa finalidade?"

Ele acrescenta que ter perfis de pessoas permite modular a oferta não só de experiências. O Facebook, por exemplo, "vive disso, de oferecer o produto que você quer naquela hora".

Os parques, frisa Allard, vão continuar abertos ao desfrute normal dos visitantes, mas as atividades pagas se somarão aos patrocínios de empresas que ele espera angariar para bancar a manutenção.

Empresas, diz, que vão querer se mostrar antenadas ao "novo caminho" da sustentabilidade. "A empresa não pode só aproveitar, tem que contribuir. Isso se chama ESG."

Em um período de 120 a 180 dias, o consórcio Borboletas deve assumir a gestão dos parques. A partir de 2022, começarão a ser preparadas as mudanças de que Allard fala. Os novos programas devem estar funcionando em abril ou março de 2023.

Ele estima que no ano que vem o visitante do Mário Covas deva "ver os primeiros tomates, frutas demoram mais tempo". No Trianon, as mudanças devem começar pelos esforços por ampliar a biodiversidade. "Tem a floresta original, mas não tem a fauna."

As borboletas que dão nome ao consórcio têm um papel especial para Allard. O número de diferentes espécies do inseto serve como um marcador da biodiversidade.

Ele diz que vão ser criadas nos três espaços uma espécie de "maternidade" de borboletas, que só sobreviverão se houver flora adequadas. "Se esse tipo de borboleta sobreviveu, significa que nós trouxemos todas as plantas que ela precisa, que nós recriamos a biodiversidade."

O objetivo, diz, é alcançar, no corredor entre o Cidade Matarazzo e os parques, 560 espécies de borboletas.

Ele conta ter contratado quatro experts nos insetos lepidópteros, "com técnicas e filosofias diferentes" e que terão bônus de acordo com as variedades que conseguirem sobreviver lá.

"Você acha que eu faço isso por dinheiro, que vou abusar dos pobres, mas queremos realmente fazer as coisas bem. Trazer a borboleta é um desafio. O mundo está cheio de gente chorando, que o planeta está horrível, cheio de ativistas. É melhor fazer que chorar. Estou trabalhando com os melhores."


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