SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma pesquisa científica começa com um passo a passo: fazer uma pergunta, testar uma hipótese, refutá-la (ou não) e seguir para a próxima experimentação. Às vezes, esse caminho pode ser surpreendido por uma descoberta inovadora que com alguma sorte pode mudar algum paradigma científico.
"Começamos muitos projetos que não levam a nada e é preciso reverter o curso. E isso faz parte da natureza da ciência: se você quer fazer grandes descobertas, então também precisa assumir alguns riscos. O desafio é reconhecer quando o seu projeto está diante de um beco sem saída antes que seja tarde demais."
Este é o conselho do neurocientista e professor do Instituto Kavli de Neurociência de Sistemas, em Trondheim (Noruega), Edvard Moser, para os jovens interessados em fazer ciência. Ele foi laureado em 2014 com o Nobel em Fisiologia ou Medicina.
Moser veio ao Brasil nesta semana a convite da Nobel Prize Inspiration Initiative (NPII), uma iniciativa global do Nobel Prize Outreach, que conecta laureados com estudantes, e tem patrocínio da AstraZeneca. Após uma agenda intensa em São Paulo, incluindo uma conferência em parceria com a USP e uma palestra na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), ele conversou na última terça-feira (25) com a reportagem por videoconferência.
Após quase três décadas da chamada pesquisa "básica", onde ele buscou entender as bases cognitivas do desenvolvimento cerebral a partir de experimentos com ratos em laboratório, ele e sua ex-mulher, May-Britt Moser que dividiu o Nobel com o seu ex-parceiro e o americano John OKeefe fizeram uma descoberta surpreendente: um novo tipo de neurônio, chamado células de grade.
As células de grade, presentes também nos humanos e em diversos outros mamíferos, são encontradas no hipocampo e indicam a posição espacialmente, funcionando como um "GPS cerebral". Elas têm esse nome porque o experimento com ratos usou um mapa que lembra um tabuleiro de dama chinesa (hexagonal). Ao passar por pontos desse mapa que indicavam a localização específica, as células eram ativadas no cérebro dos roedores. Alguns anos depois, o casal Moser viu que ela não determina apenas espaço, mas também tempo.
A pesquisa dos Moser abriu o caminho para uma série de aplicações como, por exemplo, elucidar por que pessoas com Alzheimer frequentemente não sabem onde estão ou confundem as datas. Mas investigar a perda cognitiva e o que isso traz a um paciente com condição neurológica nunca foi o objetivo final dos seus estudos.
"Muito antes do Alzheimer ou da manifestação da condição na perda da memória, já observamos uma deterioração da área cerebral onde estão presentes estas células, o que pode indicar que a perda de memória e do sentido de espaço ocorre antes do desenvolvimento da doença. A região vai ficando gradualmente menor porque há morte celular. Não sabemos o que exatamente torna essa região particularmente vulnerável, mas existem várias linhas de pesquisa agora que podem ser exploradas", afirma.
Se, por um lado, grandes descobertas podem levar anos para surgirem, por outro é fundamental ter um investimento contínuo em ciência fundamental, sem a qual não é possível chegar a inovações e aplicações tecnológicas, defende o neurocientista.
"Quando há altos e baixos, isso torna-se prejudicial para a ciência a longo prazo. Você precisa planejar muitos anos à frente, e quando ocorrem cortes, como os que estamos vendo agora nos Estados Unidos, é muito prejudicial, pois interrompe programas em andamento há anos, perde-se mão de obra qualificada e, principalmente, perde-se o valor da ciência."
Embora haja, segundo o pesquisador, uma forte pressão por parte das agências de fomento por resultados práticos, foi uma conjunção de "sorte" e de "saber vender o seu peixe" o que fez com que eles recebessem financiamento do governo norueguês para a sua pesquisa. "Acho que, considerando as ferramentas disponíveis à época, fizemos algumas escolhas tanto inteligentes quanto sortudas que tornaram possível encontrar essas células", afirma.
Sim, há de se argumentar que a descoberta de um sistema de mapa geográfico cerebral é fundamental para interpretar comportamentos e também como certos hábitos de vida podem acelerar o declínio cognitivo. E que ela também não é uma descoberta corriqueira, e sim fruto de anos de investimento em pesquisa. "Hoje o conjunto de ferramentas é muito maior, então você obtém muito mais dados. Você pode treinar redes para procurar padrões no cérebro, você pode estudar a cognição das células no nível de comunidades neurais, não apenas células únicas."
Para aqueles que desejam manter a saúde cerebral em dia, o neurocientista brinca: "o enriquecimento, a diversificação de atividades, é a melhor forma de manter um cérebro em forma. Uma pessoa ativa, que faz diferentes tarefas, provavelmente terá um cérebro mais robusto e estará mais protegida contra doenças neurodegenerativas, porque você tem mais conexões entre células", e resume: "Bom, talvez não só fazer scroll no Instagram, mas mesclar também com a leitura de textos mais complexos, por tempo maior de dez segundos."
Por fim, Moser deixa um recado aos jovens meninos e meninas que desejam seguir uma carreira na ciência. "Se você está curioso sobre como as coisas funcionam, busque uma carreira na ciência. Mas é preciso escolher a área que se adapte a você. A ciência deve ser divertida, deve ser uma felicidade. Isto aumenta as chances de você ter sucesso em obter uma bolsa e eventualmente encontrar um emprego."
Raio-X
Edvard Moser, 63, nasceu em Ålesund, Noruega. Em 1990 graduou-se em psicologia pela Universidade de Oslo e, em 1995, obteve o título de doutorado em Neurofisiologia na mesma instituição. É professor de neurociência e diretor do Instituto Kavli de Neurociência de Sistemas em Trondheim.

