BELÉM, PA (FOLHAPRESS) - Verdadeiras joias da arquitetura e do patrimônio de Belém (PA), muitas em estado de completo abandono, foram revitalizadas e restauradas graças à realização da COP30 na cidade, que proporcionou a injeção de recursos para essas obras.
Entre as edificações estão o Mercado de São Brás, do início do século 20, do arquiteto italiano Filinto Santoro; o Complexo dos Mercedários, do século 17; os mercados do Peixe e da Carne, do complexo do Ver-o-Peso; armazéns do antigo porto de Belém; e o casario da Ladeira do Castelo.
"Essa valorização histórica fica como legado da conferência e impulsiona outros setores, como turismo e serviço. Além de preparar a cidade para receber um evento global, essas obras deixam, como marca duradoura, a revitalização do patrimônio cultural edificado", opina Augusto Miranda, historiador e arqueólogo da superintendência do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) no Pará.
Um dos principais exemplos de restauro do patrimônio é o Complexo dos Mercedários, inaugurado em 1640, pela ordem religiosa da Catalunha. O conjunto, composto pela igreja e pelo antigo convento, projetados pelo arquiteto italiano Giuseppe Antonio Landi, recebeu investimento de R$ 49,4 milhões, sendo R$ 36,3 milhões do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que instalou no local o seu espaço durante a COP30.
A primeira etapa, que compreende o prédio do antigo convento, foi entregue no mês passado. No centro do jardim interno, foi descoberto um poço de aproximadamente 300 anos. "É algo muito particular de conventos de tipologia espanhola. Ele ainda está em processo de restauro, e a ideia é que a gente faça dele uma fonte", explica Flávia Palácios, diretora interina do complexo. O local abriga a Faculdade de Conservação e Restauro (Facore) e o Laboratório de Conservação, Restauro e Reabilitação (Lacore), ambos da UFPA (Universidade Federal do Pará), uma galeria de arte e uma livraria.
A arquiteta, conservadora e restauradora Tainá Arruda trabalhou em diversas obras de restauro de patrimônio da cidade. "Espero que possamos ter de fato a continuidade dessa preservação, com a conservação adequada. Temos um grande potencial de turismo histórico, que pode gerar renda e movimento de forma constante", afirma.
Tainá participou das obras de restauro do complexo do Mercado do Ver-o-Peso, da fachada da Catedral da Sé, do Mercado de São Brás, dos armazéns do Porto Futuro e do antigo necrotério, entre outras.
O Mercado de São Brás passou por um processo de restauro e requalificação e se transformou em um complexo gastronômico e cultural. Desde a sua inauguração, no mês passado, o espaço se tornou um dos mais concorridos de Belém, com diversas opções gastronômicas, e também atraiu os participantes da COP30.
"Ele foi construído com o intuito de organizar a feira instalada nas proximidades da estação da estrada de ferro Belém-Bragança", explica Tainá. "A construção possui estilo neoclássico, com simetria das fachadas, elementos decorativos em mármore e estruturas metálicas ornamentadas."
No complexo Porto Futuro, os armazéns do antigo porto da cidade, inaugurado em 1909, foram restaurados para abrigar diferentes equipamentos, como o Museu das Amazônias e a Caixa Cultural. "Foi preservada toda a estrutura metálica original dos armazéns, com recuperação das partes deterioradas. Eles foram pintados no tom original de vermelho óxido, com as estruturas novas em marrom, para que possamos diferenciá-las", explica a arquiteta. Os guindastes também foram restaurados.
Já a fachada da Catedral da Sé, também de Landi, contou com restauro da alvenaria e das estruturas em pedra de lioz. "A igreja é um símbolo cultural da nossa cidade. A intervenção buscou potencializar seu valor patrimonial. De forma complementar, também foi realizada a limpeza dos vitrais e dos bens integrados metálicos, buscando valorizar a unidade visual da edificação", explica.
Os dois mercados emblemáticos do complexo do Ver-o-Peso --o de Peixe e o de Carne--, também passaram por restauro. O primeiro, inaugurado em 1901e famoso pela arquitetura em ferro e por suas quatro torres, verdadeiro cartão-postal da cidade, sofreu intervenções nas fachadas e na área interna. "Fizemos a recuperação dos materiais não apena históricos, como também extemporâneos, para o funcionamento da atividade de manuseio de alimentos", diz Tainá.
Já para o mercado de Carne (1867), oficialmente chamado Francisco Bolonha, cuja obra estava em fase de finalização quando visitada pela reportagem, na última quarta-feira (19), o projeto inclui o restauro da fachada neoclássica e dos pavilhões em ferro, em estilo art nouveau.
Outras edificações restauradas, vinculadas ou não à COP30, incluem a Basílica Santuário de Nazaré (1909); o Parque Cemitério da Soledade (1850); o prédio histórico do Fórum Landi, espaço da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFPA, na Cidade Velha; e a capela Pombo, do século 18, atribuída a Landi, no bairro da Campina. O Cine Olympia (1912), o mais antigo em funcionamento do Brasil, está em obras e terá sua fachada original, em estilo eclético, recriada.


