Imagine se um inseto pudesse se alimentar do etanol que abastece veículos flex nos postos de combustíveis. A vespa-oriental (Vespa orientalis), espécie encontrada em regiões da Ásia, África e sul da Europa, é capaz de consumir soluções com até 80% de álcool sem apresentar efeitos negativos aparentes – um nível próximo ao do combustível utilizado nos carros, que ultrapassa 90%.
Essa incrível tolerância ao álcool coloca a vespa muito à frente de outros animais, incluindo o ser humano, que consomem álcool apenas em doses muito menores. A descoberta foi realizada por uma equipe da Universidade de Tel Aviv e publicada na revista científica PNAS. Os pesquisadores sugerem que essa habilidade única da vespa se deve a cópias extras de um gene essencial para metabolizar moléculas de álcool, presentes em seu DNA. Isso permitiria ao inseto neutralizar os efeitos nocivos do etanol antes que eles causem danos acumulativos.
A pesquisa, conduzida por Sofia Bouchebti e Eran Levin, partiu da constatação de que as vespas-orientais já eram consideradas "enofílicas" – isto é, atraídas por substâncias alcoólicas. Isso se deve ao consumo frequente de néctar e frutas maduras, que frequentemente contêm álcool. Além disso, elas carregam o fungo Saccharomyces cerevisiae em seu corpo, o mesmo que realiza a fermentação na produção de bebidas alcoólicas.
Os pesquisadores então alimentaram as vespas com uma solução de sacarose contendo até 80% de etanol, duas vezes por dia, durante uma semana. Os resultados surpreenderam: mesmo sob essa dieta alcoólica, as vespas mantiveram comportamento normal, incluindo agressividade e construção de ninhos, e não apresentaram alterações na taxa de sobrevivência. Quando podiam escolher entre a sacarose pura e a solução alcoólica, mostraram a mesma preferência por ambas. Em contraste, abelhas submetidas à mesma dieta não sobreviviam por mais de 24 horas.
O estudo também revelou que o etanol é rapidamente metabolizado pelas vespas, com seus componentes distribuídos pelo corpo, especialmente em áreas equivalentes ao fígado humano. A análise genética de espécies próximas indica que, ao longo da evolução, a vespa-oriental acumulou múltiplas cópias do gene da álcool desidrogenase, uma enzima que quebra o etanol.
Para os cientistas, é provável que essa tolerância tenha evoluído devido à convivência próxima com leveduras produtoras de álcool. Além disso, o efeito antimicrobiano do etanol pode ter se tornado benéfico para o inseto. A vespa-oriental poderá, assim, servir como modelo para futuras pesquisas sobre a tolerância ao álcool em organismos.


