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Capacidade de garantir futuro climático seguro na Terra está em xeque, diz relatório

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BOGOTÁ, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) - Há uma crescente preocupação com a capacidade humana de garantir um futuro climático seguro na Terra, mesmo que as metas climáticas dos países sejam implementadas. E mesmo as mais ambiciosas não estão alinhadas com os dados científicos mais recentes.

O alerta —entre os muitos que se acumulam— foi feito por Johan Rockström, do Potsdam Institute for Climate Impact Research, e pelo relatório "10 New Insights in Climate Science 2025/2026", lançado esta semana na COP30, a conferência da ONU para mudanças climáticas, em Belém, no Pará.

"Mesmo que as NDCs (contribuições nacionalmente determinadas) fossem plenamente implementadas, o mundo ainda seguiria um caminho de resultados desastrosos, com temperaturas médias globais podendo ultrapassar 2,5°C em relação aos níveis pré-industriais", afirmou Rockström, durante entrevista coletiva na segunda-feira (10), antes mesmo da abertura oficial da COP30.

Ressoando uma mensagem que tem sido dita por ativistas e algumas autoridades, Rockström diz que não são mais necessárias negociações para regras. "O livro de regras do Acordo de Paris já está completo. Como destacou o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, estamos agora em uma fase de implementação", afirmou o pesquisador.

"Esta e todas as futuras COPs devem ser dedicadas à entrega de resultados. O papel da conferência precisa ser reformulado —deixando de lado as formalidades negociais para priorizar ações concretas, alinhadas à ciência, e com mecanismos reais de responsabilização", disse Rockström.

Segundo o pesquisador, se as metas atuais forem implementadas, espera-se uma redução de 5% nas emissões até 2030. O que pode parecer um progresso mostra, na verdade, o abismo que há na questão climática, dado nesse prazo deveria haver redução de 40% a 45% das emissões.

Rockström disse ainda que o relatório não leva em conta indicações recentes de aquecimento acelerado, redução da absorção de carbono em áreas terrestres e sinais de retroalimentação climática que intensificam o aquecimento global. Isso indicaria uma necessidade ainda maior de apressar o fim do uso dos combustíveis fósseis.

Segundo o pesquisador, todo negociador na COP30 precisa estar ciente dos achados do relatório para negociar com propriedade.

AS 10 CONSTATAÇÕES PRESENTES NO RELATÓRIO

Anos com recorde de calor, dengue e necessidade de remoção de carbono da atmosfera estão entre os temas tratados no amplo panorama desenhado pelo relatório "10 New Insights in Climate Science 2025/2026".

O documento é produzido anualmente pelas entidades Future Earth, The Earth League, e World Climate Research Programme, com participação de cientistas ao redor do mundo. A fotografia climática apresentada no texto é referente às evidências científicas disponíveis entre janeiro de 2024 e junho de 2025.

Os anos de 2024 e 2023 são, respectivamente, o primeiro e o segundo anos mais quentes da história da Terra. Segundo o relatório, apesar dos recordes terem sido amplificados pelo El Niño, o fenômeno não explica sozinho a situação. A situação aponta para uma aceleração do aquecimento global.

Outra constatação do relatório é a aceleração do aquecimento da superfície do mar e a intensificação das ondas de calor marinhas. Além de impactos ecológicos irreversíveis e aumento de chance de eventos extremos mais intensos —como ciclones e furacões—, o relatório lembra que o oceano é um essencial sumidouro de carbono, mas que sua capacidade de absorção diminuiu com o aumento da temperatura superficial.

A terceira constatação é a pressão sobre os sumidouros de carbono terrestres. Segundo o relatório, existe a possibilidade de que a absorção natural neles esteja se enfraquecendo devido ao aquecimento atual, o que torna mais urgente reduzir as emissões e remover carbono da atmosfera.

A quarta e a quinta conclusões do documento são, respectivamente, que a crise do clima e a perda da biodiversidade se amplificam mutuamente, e que o aquecimento global está intensificando a perda de recursos aquíferos subterrâneos.

A sexta diz respeito à expansão da dengue devido ao aquecimento do planeta e a sétima fala sobre perdas de produtividade decorrentes das mudanças climáticas.

A oitava conclusão aponta que é necessário amplificar medidas de remoção de carbono da atmosfera. O texto cita métodos tradicionais, como reflorestamento, mas também menciona os que seriam mais inovadores, como BECCS (Bioenergia com captura e armazenamento de carbono).

O nono insight diz respeito a créditos de carbono. O texto diz que a rápida expansão desse mecanismo foi acompanhada por sérias questões de integridade. Segundo o relatório, os mercados de carbono possuem falhas sistemáticas.

Finalmente, o décimo insight aponta que combinações de políticas públicas se saem melhores do que medidas isoladas.

O documento conta com a participação de pesquisadores brasileiros, como Mercedes Bustamante, professora titular da UnB (Universidade de Brasília) e membro da ABC (Academia Brasileira de Ciências), e Marina Hirota e Regina Rodrigues, ambas da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

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