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Bocas de lobo e galerias entupidas contribuem para alagamento na marginal Tietê

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O alagamento nas pistas da marginal do Tietê, na zona norte de São Paulo, foi causado principalmente por entupimentos nas galerias de drenagem de água da chuva e nas bocas de lobo. O problema fez com que a prefeitura da capital intensificasse de limpeza nesta quarta-feira (19), o que coincide também com as explicações da SP Águas e de uma especialista em drenagem hidráulica à Folha de S.Paulo.

A capital teve fortes temporais durante a tarde e a noite desta terça (18), acumulando um total de 43 mm de chuva, segundo a Defesa Civil estadual. Chamou a atenção o fato de o alagamento nas pistas da marginal, uma das principais vias de trânsito da cidade, ocorrer mesmo sem o transbordamento do rio.

Essa situação pode indicar tanto um problema de microdrenagem -bocas de lobo e galerias subterrâneas que levam diretamente ao rio obstruídas-- quanto um refluxo, quando a água do próprio rio preenche as galerias e a pressão impede que elas absorvam o acúmulo das ruas. O refluxo é um dos momentos em que entram em ação as 45 bombas hidráulicas instaladas ao longo da marginal do Tietê.

Segundo a agência estadual SP Águas (que substituiu o antigo Departamento de Águas e Energia Elétrica, o DAEE), todas as bombas hidráulicas estavam em funcionamento durante a chuva, o que aponta para o problema na microdrenagem.

Acúmulo rápido de lixo, falta de manutenção, aumento do volume de chuva ao longo dos anos e obstruções irregulares feitas pelos próprios moradores ajudam a explicar o problema. Segundo a arquiteta e urbanista Riciane Pombo, especialista em soluções baseadas na natureza do escritório Guajava que participou da elaboração dos Cadernos de Drenagem da Prefeitura de São Paulo, é conhecido no setor público o diagnóstico de que a rede de galerias da cidade já não dá conta das chuvas mais intensas, que se tornaram mais frequentes.

"Se os rios e córregos da bacia [do Tietê] estivessem abertos, provavelmente a margem deles seria menos edificada e haveria mais espaço para escoamento da água que cai nessa região", explica a urbanista. "O que substitui os córregos naturais são as galerias do sistema de microdrenagem. A maioria dos canais que captam a água nas calçadas está subdimensionada, porque a vazão [da chuva] aumentou, ou estão com manutenção ruim, entupidas ou até fechadas de propósito -não é incomum ver restaurantes que fecham as bocas de lobo porque há baratas e ratos saindo de lá."

Após ser questionada sobre o motivo do alagamento, a prefeitura disse que intensificou a limpeza das bocas na marginal do Tietê após as fortes chuvas das últimas semanas. A gestão Ricardo Nunes (MDB) afirmou que o trabalho já era feito com regularidade.

"Desde ontem [terça, 18] está sendo realizada vistoria e limpeza no sistema de drenagem da Ponte das Bandeiras e o trabalho continua ao longo de toda essa semana. As bocas de lobo estão desobstruídas e a vistoria das galerias está em andamento", disse a Secretaria Municipal das Subprefeituras, em nota

A pasta também afirmou que "está realizando vistorias no local para verificar a melhor forma de aumentar o sistema de captação e identificar também possíveis problemas nas tubulações que estão impedindo o escoamento total da água". A secretaria estuda a possibilidade de aumentar do número de bocas de lobo no trecho.

Além disso, a gestão municipal ressaltou o grande volume de chuvas registrado na terça. Foi o segundo dia mais chuvoso do mês, com 25,2 mm de média registrado em 50 minutos, equivalente a 11,6% da média de fevereiro.

Pombo ressalta que a prefeitura demonstrou nos últimos anos preferir apostar em obras de drenagem emergenciais e fora da matriz de prioridades para o tema, em vez de seguir as obras consideradas prioritárias nos Cadernos de Drenagem municipais.

Reportagem da Folha de S.Paulo mostrou, no ano passado, que até dezembro de 2023 a gestão Nunes gastou R$ 2,2 bilhões em 140 obras emergenciais de contenção de margens de córrego, o que representava 65% de toda a verba empenhada pela prefeitura em obras de combate a enchentes no período, incluindo piscinões licitados nesse período.

Por outro lado, as ações que a própria prefeitura estabelece como estratégicas para combater o problema acabaram recebendo menos atenção -das 93 obras estruturais previstas no PDD (Plano Diretor de Drenagem), apenas três foram entregues até o fim de 2023. À época, a prefeitura afirmou que as obras do PDD e as obras emergenciais fazem parte de frentes de trabalho distintas, que não competem entre si.

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