SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Abençoar a água derretida de um bloco de gelo da Groenlândia pode parecer estranho. Mas foi exatamente isso o que aconteceu em 1º de outubro, em Castel Gandolfo, no Vaticano, quando o papa Leão 14 benzeu uma porção de líquido simbolizando o derretimento das geleiras causado pelo aquecimento do planeta.
A água peregrinou até Belém, no Pará, aportando na COP30 nesta quarta (12), como parte da agenda da Igreja Católica na conferência do clima das Nações Unidas.
A peregrinação, chamada "Da Groenlândia à Amazônia", passou antes por outros por santuários brasileiros, incluindo o de Aparecida do Norte (SP) e o do Cristo Redentor (RJ), antes de chegar à Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém.
A ideia de benzer o bloco de gelo recortado de uma camada glacial em processo de retração na Groenlândia foi do artista Olafur Eliasson e do geólogo Minik Rosing. A água polar foi levada ao Vaticano pelos organizadores do Movimento Laudato Si, uma organização de ativistas católicos pelo clima.
O nome do movimento é uma referência à encíclica "Laudato Si", lançada há dez anos. Escrita pelo papa Francisco, a carta ecológica teve muita repercussão durante a COP21, a conferência do clima realizada na França em 2015.
É justamente o Acordo de Paris, assinado dez anos atrás, que os negociadores tentam resgatar na COP30, uma vez que os países signatários falharam em cumprir suas metas nacionais propostas. Nessa jornada, a cúpula em Belém instituiu o Balanço Ético Global, oferecendo espaços oficiais destinados às religiões na conferência climática.
A Igreja Católica está com uma presença forte na COP30, representada oficialmente pelo secretário de Estado da Santa Sé, o cardeal Pietro Parolin. A delegação episcopal conta com 10 integrantes da Santa Sé, além de 8 cardeais, 47 bispos e outras 97 pessoas ligadas a diferentes organismos eclesiais.
Da presidência da CNBB participam o cardeal Jaime Spengler (presidente), dom João Justino (primeiro vice-presidente), dom Paulo Jackson (segundo vice-presidente) e dom Ricardo Hoepers (secretário-geral). A articulação para a COP30 foi constituída pela CNBB, Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), Cáritas Brasileira e o Movimento Laudato Si.
O ponto alto das atividades do clero foi o simpósio "Nos Caminhos da Ecologia Integral por Justiça Climática e Conversão Ecológica", realizado na quarta-feira.
Em mesa mediada por Dom Vicente de Paula Ferreira, secretário da Comissão Especial para a Ecologia Integral e Mineração da CNBB, houve participação da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, da cientista Ima Vieira (Museu Goeldi/MCTI) e do cardeal Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, acompanhado de cardeais de todos os continentes.
Especializado nos impactos da mineração no Brasil, Dom Vicente Ferreira destaca, em entrevista à Folha, que a Igreja se posiciona de forma contrária à exploração do petróleo na bacia Foz do Amazonas. Em outubro, a Petrobras obteve autorização para pesquisar óleo na costa do Amapá, parte da chamada margem equatorial.
Ele afirma que, para uma COP que se quer "de implementação", a licença ambiental dada semanas atrás pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais) é uma contradição. Para Dom Vicente, as salvaguardas oferecidas pelo Ibama são "uma falsa solução".
"Cobraremos do governo brasileiro uma posição firme na defesa das nossas florestas, nossas águas e da biodiversidade", diz, comentando a proposta do presidente Lula de usar recursos da exploração de petróleo para a transição enérgetica, parte de seu discurso na abertura da COP30.
Seu recado para o presidente brasileiro é de "que ele não ceda às pressões de grandes multinacionais". "E que mude sua visão de desenvolvimento, levando em conta os direitos da natureza", completa.
Dom Vicente Ferreira destaca ainda a proposta de perdão da dívida externa dos países em desenvolvimento, uma campanha dos jesuítas na COP30. A ideia é que o cancelamento das dívidas seja atrelado a metas de mitigação mais ambiciosas dessas nações.
O secretário da CNBB para a Ecologia Integral e Mineração avalia que "aquilo que os países do Norte fazem com os do Sul Global é colonialismo". "As dívidas são injustas", diz.
Na visão do religioso, "nossas riquezas são os motivos de nossa pobreza", em crítica a investimentos que vão, em grande parte, para a mineração e o agronegócio. Para ele, em troca, deveria ser ampliado o incentivo à agroecologia, modelo de agricultura defendido por ambientalistas.

