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Usuários do Bilhete Único criticam falhas no sistema

RIO - Apressada, a recepcionista Dayse saiu irritada da loja do RioCard que funciona na estação Siqueira Campos do metrô, em Copacabana, na semana passada. Com uma nota de R$ 20 na carteira, ela queria recarregar dois cartões, cada um com R$ 10 em créditos. Como a fila do guichê estava longa, Dayse precisava de duas notas de R$ 10 para usar a máquina de autoatendimento, que não dá troco. Ela tentou, em vão, trocar o dinheiro numa loja ao lado. Como não podia esperar, foi embora sem os créditos necessários para usar o bilhete em duas viagens com desconto.

— É um absurdo que essas maquininhas não deem troco. Preciso carregar os cartões, mas não consigo. Dei uma fugida, mas tenho que voltar rápido para o trabalho — reclamou Dayse, que não informou o sobrenome.

A falta de troco no autoatendimento está longe de ser o único problema do sistema de bilhetagem eletrônica, operado pela RioCard, empresa criada pela Fetranspor e que faz parte da holding Riopar, ligada às empresas de ônibus. Usuários se queixam de filas, de serem obrigados a ir a lojas até mesmo para desbloquear um cartão, do confisco de créditos não utilizados durante um ano e do pagamento de R$ 26,60 pela segunda via de um cartão de gratuidade. Também lamentam que os bilhetes não permitam integração, de fato, com outros meios de transporte, o que, na avaliação do professor Paulo Cezar Ribeiro, da Coppe/UFRJ, é o mais grave:

— Estamos mal. Chamam de bilhete único, mas existem vários cartões e não há integração. Agora, só quem ganha até R$ 3 mil pode ter os benefícios do cartão intermunicipal. O bilhete carioca não tem integração com o metrô e deixou de ter com a SuperVia. O RioCard tem que ser repensado. Está mais do que na hora de as autoridades estaduais e municipais darem uma reviravolta no sistema.

A promotora de vendas Célia Regina Viggiani foi surpreendida ao tentar recarregar seu RioCard no autoatendimento que funcionava na calçada em frente ao prédio da Secretaria estadual de Transportes, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana 493. Um papel informava que o serviço foi transferido, dia 11, para a estação Siqueira Campos do metrô.

— Estava acostumada a recarregar aqui. Podiam facilitar, não é? Que transtorno. Agora, vou ter que ir até a Siqueira Campos — reclamou.

Foi na Siqueira Campos que Zenaide Moraes passou a recarregar o cartão. Moradora de Caxias, ela desistiu da loja da Central por causa de longas filas.

— Já perdi mais de uma hora na Central. São filas quilométricas — conta Zenaide, que trabalha em uma lavanderia em Copacabana. — Na Siqueira Campos, as filas são um pouco menores. O grande problema é que as máquinas não dão troco.

Na Central, no subsolo e no térreo, usuários encontram máquinas de autoatendimento, todas com filas. No entanto, se precisarem de troco, são obrigados a aguardar, numa fila grande e única, pelo atendimento num dos quatro guichês, disputados por pessoas que precisam de outros serviços que não podem ser feitos pelo site ou por telefone.

Mesmo tendo sido assaltada num ônibus, a estudante de comunicação Jéssica Moura, cotista da UFRJ e moradora de Triagem, precisou pagar R$ 26,60 para obter a segunda via do bilhete:

— Erraram no registro policial. Na delegacia, escreveram que perdi o comum, não o universitário. Cheguei ao posto e não aceitaram. Estou sem dinheiro, precisei chamar um amigo para me ajudar. Não posso estudar sem o bilhete. Não posso pagar.

O designer Roberto de Albuquerque diz que o maior dos absurdos é a perda dos créditos que expiram em um ano, se os cartões não forem usados:

— Isso é roubo.

O professor Paulo Cezar Ribeiro concorda com o usuário e afirma:

— Nunca vi dinheiro caducar.

Uma lei de abril deste ano estabeleceu que, no caso do bilhete inativo por um ano, os créditos devem ser repassados para o Fundo Estadual de Transportes, que usaria os recursos para subsidiar o Bilhete Único. Mas a Fetranspor, federação que congrega as empresas de ônibus, foi à Justiça. Com a questão sub judice, as sobras continuam ficando com as empresas de ônibus.

A bilhetagem eletrônica no estado nasceu em 2004, mas a implementação do sistema foi gradativa. O serviço do Bilhete Único Intermunicipal começou há sete anos. Desde o mês passado, porém, para ter direito ao desconto, o usuário tem de se recadastrar e declarar que tem uma renda mensal de até R$ 3 mil. Quem ganha acima desse valor, perde o benefício de pagar R$ 8 para embarcar, num espaço de três horas, em dois ônibus; ou em um ônibus e no metrô, no trem ou na barca. Também tem de pagar R$ 8,10 em vez de R$ 7 para continuar usando o metrô e o BRT (embarques só nas estações Jardim Oceânico e Vicente de Carvalho).

Criado em 2010, o Bilhete Único Carioca, que hoje custa R$ 3,80, prevê a utilização de dois ônibus municipais, um ônibus e um BRT, um ônibus e um VLT ou dois trens do VLT, num período de duas horas e meia. Desde 16 de junho, a SuperVia deixou de fornecer o desconto na integração com ônibus municipais (a tarifa integrada era R$ 6,60), alegando razões de conjuntura econômica. A Secretaria municipal de Transportes se limita a dizer que “há interesse da prefeitura em concretizar a integração tarifária”, mas que ainda são necessários estudos de viabilidade, e que o processo envolve modais estaduais.

Por e-mail, a RioCard — que administra os dois bilhetes — garante que realiza estudos para melhorar o sistema de pagamento. O uso de máquinas que dão troco, no entanto, de acordo com a RioCard, exigiria novos investimentos que ainda estão sendo analisados. A empresa confirma ainda que alguns serviços — como recadastramento de gratuidade e retirada de segunda via — só podem ser realizados em uma das suas 26 lojas físicas. Ao todo, há sete milhões de cartões (municipais e intermunicipais) ativos, sendo dois milhões de gratuidades, que realizaram 157 milhões de transações eletrônicas em julho.

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