SÃO PAULO - A segunda noite de desfiles das escolas de samba do Grupo Especial de São Paulo foi marcada por polêmicas. A tradicional Vai-Vai, que adentrou a passarela da Anhembi como uma das favoritas ao título, pode ser punida com a perda de até um ponto porque três de seus integrantes ficaram na avenida depois de zerado o cronômetro. Os três retardatários compunham uma equipe que distribuiu bandeirinhas ao público antes da apresentação da escola. Coordenadores da Liga das Escolas de Samba informaram ao GLOBO que o cronômetro não deveria ter sido parado, mas que imagens do circuito de câmera devem comprovar a punição à Vai-Vai. Diante da situação, os três integrantes da Vai-Vai retiraram suas camisetas amarelas da agremiação e tentaram escondê-las, ainda na pista. Neguitão, o presidente da escola, rechaçou a possibilidade de perda de pontos:
- Equipe de bandeirinha não é componente de desfile. Isso não existe. O regulamento diz que só conta o componente.
A Vai-Vai, que fez uma homenagem ao candomblé, teve outros problemas. Muito grande, a escola correu nos minutos finais do desfile para tentar cumprir o tempo. O último carro alegórico da escola, uma grande escultura de Oxum, orixá das cachoeiras, teve problemas em sua cascata de água e acabou molhando a avenida toda. A Nenê de Vila Matilde, que teria que desfilar na sequência, disse haver óleo no chão e se recusou a entrar no Anhembi naquelas condições. A Liga tentou em vão começar o desfile, mas acabou colocando a equipe de limpeza para enxugar o chão. Toda a confusão acarretou um atraso de mais de hora, e a Nenê entrou no Anhembi quando o dia já amanhecia para apresentar um enredo que exortava as qualidades de Curitiba, como o bom transporte público e a miscigenação do povo. A Nenê precisou correr para concluir o desfile sem estourar o tempo.
Apesar do desfile emocionante da Vai-Vai, que levantou as arquibancadas com suas alas de orixá e bateria afinada, a escola pode ter deixado a disputa pelo campeonato. Melhor para a Império da Casa Verde, a outra grande favorita da noite. Em uma hora e cinco minutos, a Império atravessou a avenida do samba, mas a avenida não deixou a escola. Convictos de ter levado o campeonato, os integrantes da bateria puxaram o samba da escola por mais 15 minutos na dispersão. Campeã do ano passado, a agremiação esbanjou luxo e brilho na defesa do título. Cantando a paz, a Império foi aplaudida de pé pelas arquibancadas.
Típicas do estilo do carnavalesco Jorge Freitas, as alegorias eram suntuosas, com acabamento impecável. Uma coroa gigante giratória e um tigre branco alado que batia as asas compunham o abre-alas. Em outro carro, a representação de uma hera gigante ganhava movimento graças à dança de integrantes encaixados à geringonça. Cabeças e braços de passistas formavam o solo de outra alegoria, que representava a terra. A bateria fez paradinhas e executou o samba à perfeição.
- A escola entrou com muita garra. É meu sexto ano, nunca senti tanto assim que venceríamos - afirmou Valeska Reis, rainha da bateria da Império, com uma cabeça brilhante de pomba da paz.
A Mancha Verde, que voltou ao grupo de elite esse ano, fez a avenida sorrir com seu samba enredo em homenagem aos Zés do Brasil. Sem grandes ousadias mas também sem falhas, a escola explorou o folclore e os personagens de nome zé. Entre as alas mais divertidas, foliões vestidos de Zé do Caixão, Zé Bonitinho, Zé Povinho e até Zé Wilker. Um dos carros alegóricos homenageava o ator e diretor de teatro Zé Celso Martinez. As baianas vieram cobertas por personagens de Monteiro Lobato, também ele um Zé. À frente da bateria, a atriz Viviane Araújo levantou o público. Com uma fantasia que exibia suas belas formas e uma peruca na cabeça, ela admitiu ter aplacado a ansiedade pela noite com um pedaço de bolo de cenoura com chocolate antes de encarar o Anhembi.
A Unidos do Peruche trouxe a Bahia para São Paulo. Os integrantes da agremiação borrifaram o Anhembi com água de cheiro. Um clima de nervosismo permeou o desfile, ja que a escola teve dificuldades de alinhar o terceiro carro alegórico na passarela do samba. O incidente não trouxe grandes prejuízos à harmonia.
A Dragões da Real homenageou a canção “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga. Por meio da saga do retirante narrada pelo sanfoneiro, a escola aproveitou pra apresentar as tradições do Sertão, os animais e plantas da caatinga, os desafios de quem espera a chuva para voltar pra sua terra.
Última escola a desfilar, a Sociedade Rosas de Ouro trouxe banquetes à Avenida. No enredo, foram lembradas as suntuosas refeições de faraós egípícios e nobres franceses, as entregas de comida a orixás e as entidades Cosme e Damião, em referência à fartura de doces para as crianças. A bateria, vestida de chef de cozinha, deu o tom da folia. O público teve alguma dificuldade para enxergar os bonitos detalhes das fantasias da escola porque a entrada na avenida se deu no contra-luz, em decorrência do atraso da entrada da Nenê. Apesar do adiantado da hora, a Rosas levantou o público, que cantou o samba-enredo junto com a escola.
O segundo dia de desfile das escolas de samba do grupo especial de São Paulo teve tempo firme e público farto. Durante o fim de semana, as 14 escolas foram avaliadas por 36 jurados, que para o campeonato de 2017 foram completamente renovados. A vencedora será conhecida na próxima terça-feira.



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