RIO - Muitas vezes, depois que um bandido comete um crime, a polícia elabora, com orientações da vítima ou de uma testemunha, um retrato falado. O desenho ajuda a identificar o criminoso. Mas não é só. O rosto descrito também pode virar uma obra de arte.
A artista plástica Mayra Rodrigues fotografou cerca de mil desenhos de bocas, testas e queixos que fazem parte do banco de dados da Polícia Civil. Combinados por um programa de computador, os fragmentos ajudam a dar forma a novos retratos. Nas mãos de Mayra, viraram obras que serão expostas na mostra "Me chamo Kiki e estou aqui prestes a lhe conhecer", que abrirá as portas nesta sexta-feira na Galeria Oriente, no Flamengo.
- É uma exposição que pensa o processo de construção da imagem. Durante o trabalho, fui me dando conta da importância da figura do outro neste trabalho - conta Mayra.
A exposição multimídia de Mayra Rodrigues, com curadoria de Marco Antonio Portela, marca a abertura da FotoRio 2017 (Encontro Internacional de Fotografia do Rio de Janeiro). Serão apresentadas 14 obras, entre vídeos, pinturas, desenhos e esculturas. Uma das que mais chamam a atenção é uma instalação de 3,40 metros de altura. Nela, a artista imprimiu 600 pedaços de rostos num tecido, que recebeu iluminação interna. Outra atração é um tríptico, no qual são reproduzidos olhares, bocas e narizes que Mayra capturou do acervo da polícia. A mostra traz ainda um cubo de acrílico transparente com 27 fragmentos de rostos, numa referência ao brinquedo cubo mágico.
A artista conta que a ideia de fazer um projeto usando imagens de retratos falados nasceu de uma volta ao passado. Em 1977, quando era estudante de filosofia da Universidade de São Paulo (USP), Mayra foi presa por policiais e fichada pelo Dops por participar de uma manifestação pela volta da democracia. Quarenta anos depois, ela teve acesso ao seu arquivo em papel e, ao ver sua foto, pensou na evolução deste tipo de arquivo policial.
— Queria pensar a imagem como forma de controle social e resolvi analisar como seria esse processo hoje, quando temos a imagem biométrica. Fiz uma parceria com uma empresa canadense que, a partir da minha foto, reproduziu a biometria de meu rosto, um desenho abstrato. Mas achei que podia ir além, então decidi procurar a polícia do Rio e tentar fazer uma retrato falado meu a partir da descrição que eu faria de mim mesma — conta Mayra.
A artista chegou à Cidade da Polícia com lenço na cabeça e óculos grandes, para que o desenhista não pudesse reconhecê-la como a mulher descrita.



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