RIO - Em matéria de automobilismo, faz tempo que o Rio virou retardatário, desde que o Autódromo de Jacarepaguá começou a dar lugar ao Parque Olímpico, em 2012. Mas a prefeitura quer sair do pit stop e iniciar uma corrida de recuperação construindo um novo circuito em Deodoro. A ideia, que já foi contestada e até embargada pela Justiça na gestão anterior, de Eduardo Paes, pode agora sair do papel. Em março, o prefeito Marcelo Crivella lançou um chamamento público para a elaborar um estudo técnico de implantação, operação e manutenção do que chamou de Autódromo Parque, que seria integrado ao Parque Radical de Deodoro. Segundo o município, o Consórcio Rio Motorsport, formado pelas empresas Crown, CSM Sport & Entertainment e Tilke E&A, aderiu ao Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI), no valor de R$ 11 milhões e tem até abril de 2018 para entregar a análise que vai orientar um edital de licitação de uma Parceria Público-Privada.
Mas, para dar a largada, o projeto terá que enfrentar ambientalistas. No lugar de pistas de velocidade, eles defendem que a área de Mata Atlântica seja transformada no Parque Natural Municipal de Camboatá. A própria Federação de Automobilismo do Estado do Rio (Faerj), diante dos contratempos do passado, já dava o terreno da Zona Oeste como fora da corrida para a instalação do autódromo. Para a entidade, a ideia seria turbinada se fosse prospectado um outro espaço para os amantes da velocidade. O presidente da da Faerj, Djalma Neves, um dos líderes do Movimento Pró Autódromo, acha que não se deve “insistir em Deodoro”. Ele sugere como alternativa outras regiões na Zona Oeste, como terrenos particulares em Guaratiba e no Recreio dos Bandeirantes, ou mesmo uma área próxima à Avenida Brasil, em Santa Cruz.
— O Rio precisa de uma arena autossustentável, com uma área maior do que a de um autódromo. Isso estaria totalmente de acordo com o projeto de levantar o Rio através do turismo. Costumo dizer que deveria ser um lugar que teria até corridas. Porque nele poderiam acontecer cursos direção defensiva, testes de montadoras de automóveis e da indústria de pneus... Enfim, uma série de atividades que hoje vão para cidades como São Paulo, Goiânia e Curitiba — afirma Neves.
Já a Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) diz que não cabe a ela aprovar a área para o autódromo. Mas afirma que se coloca à disposição do município para auxiliar nesse processo com a expertise de seus profissionais.
— O Rio é um dos principais centros econômicos e turísticos do Brasil. E sempre teve atuação determinante em nossa modalidade. Reposicionar a cidade no mapa do nosso automobilismo é fundamental para colocar o esporte a motor nacional no lugar de onde nunca deveria ter saído — afirma o presidente da CBA, Waldner Bernardo de Oliveira.
O município aposta que o espaço sediaria uma série de eventos nacionais e internacionais. Uma expectativa é que a Fórmula 1 volte para o Rio em 2020, após mais de três décadas de ausência da cidade no calendário da competição. A administração municipal acredita que uma janela poderia se abrir com o fim do atual contrato do evento com Interlagos, em São Paulo, e com mudanças na gestão da pista paulistana, que deve ser privatizada pelo prefeito João Doria no ano que vem.
Inicialmente, a nova instalação em Deodoro teria circuitos para competições automotivas, de motovelocidade e de caminhões; para testes de veículos automotores e treinamento de pilotos; boxes, paddock, sala de comando de prova e ambulatório. O chamamento público sugeria ainda a construção de um complexo de lojas comerciais, um centro de convenções, hotéis e um museu.
Infraestrutura que, segundo os ambientalistas, traria um imenso impacto para a floresta de Deodoro, mesmo se parte dela for preservada. De acordo com o Grupo Ação Ecológica — autor da proposta de tornar a área um parque municipal —, o lugar é o último fragmento de Mata Atlântica de baixada na cidade. Um respiro verde encravado numa das regiões mais áridas da cidade, à beira da Avenida Brasil e próximo de bairros como Anchieta, Ricardo de Albuquerque e Guadalupe, e dos municípios de Nilópolis e São João de Meriti.
— Causou estupor a retomada da proposta de construção do autódromo nessa área. É um fator de qualidade de vida para a vizinhança, que influencia nas temperaturas do entorno. E trata-se de um refúgio no meio do caminho entre os parques estaduais da Pedra Branca e do Mendanha — afirma André Ilha, fundador do Ação Ecológica.
O parque proposto pelo grupo teria 173,61 hectares que, durante muito tempo, foram usados como espaço de treinamento de tropas de selva do Exército. Um passado que deixou no terreno centenas de explosivos, depois de um antigo paiol ter pegado fogo em 1958. Herança que, em 2012, foi o motivo da primeira grande polêmica envolvendo o novo autódromo em Deodoro. Na época, os militares fizeram uma varredura no área para torná-la segura ao trânsito de pessoas e animais.
Naquele mesmo ano, pesquisadores do Instituto Jardim Botânico realizaram um inventário das espécies na floresta de Deodoro, em que catalogaram 125 espécies vegetais, das quais 77 árvores. Predominam espécies dos gêneros ficus, alchornea e ingá, além de exemplares raros ou ameaçadas de extinção, como o jacarandá-da-bahia (Dalbergia nigra), o faveiro-da-mata (Dimorphandra exaltata) e a garapa (Apuleia leiocarpa). No relatório do instituto, ressalta-se que a área é maior até do que a do Jardim Botânico.
— Embora não esteja em perfeito estado de conservação, esse tipo de floresta, das partes mais baixas, praticamente desapareceu da cidade — afirma Haroldo Lima, pesquisador do instituto.
Aos críticos, a prefeitura responde que o projeto do autódromo prevê “uma das maiores recomposições ambientais já realizadas no mundo, com o plantio de espécies nativas de Mata Atlântica”.


